sábado, 30 de janeiro de 2021

EMICIDA, URGENTE: NÃO É HORA DE MORRER



WALTER GALVÃO - O documentário (Netflix) “Emicida: AmarElo - É Tudo pra Ontem”, bela asa libertária de fogo aberta sobre a consciência crítica de um mundo racista conflagrado por injustiças e colapsado por pandemia, exibe roteiro de lógica perfeita: unidades de ação coerentes, equilíbrio na gradação das intensidades dramáticas, consciência fílmica radical e fluxo de temporalidade domado.

E crava na tela, em meio a provações históricas de pessoas sob as garras da desigualdade, além de provocações estéticas que desvelam violências, e verdades socioculturais invisibilizadas, uma poética exata para o fusional mitificante, mas desmistificador, praticado pela direção de Fred Ouro Preto.

Mitificante no sentido de uma plenamente justificável heroicização de protagonistas, e não apenas de Emicida, o artista com uma causa, extraída de um vigoroso esfregar da lâmpada da história da qual brota a genialidade, sufocada, da presença africana na construção da nação para além do jugo classista e racista que sempre emparedou os povos vítimas da diáspora.

É desmistificador, em todo o seu procedimento reflexivo, dos clichês e estereótipos do processo social brasileiro, bugigangas tóxicas a exemplo da insustentável democracia racial, da meritocracia que inclui marginalizados históricos, da hipersensualização das pessoas negras e a crença de que os corruptos estão no poder porque o eleitorado é ignorante. Exalta, em meio a baldes de beleza e montagem cirúrgica, a mística (um sonhar acordado), a magia (a ilusão do movimento) e a realidade do cinema: construção de sentido a partir do manejo de imagens fragmentadas.

Tais entes-imagens se unem para gerar um mundo discursivo capaz de atrair, impactar, informar, questionar e instigar a plateia com sua face camaleônica: tanto é um lobo na pele de cordeiro dos documentários de “estética publicitária”, mas dessa feérica verificação do belo escapa sem um arranhão; como mimetiza, com êxito, a transterritorialidade proposta pelos chamados concert films,  os filmes sobre música que se organizam em camadas metalinguísticas: são narrativas artísticas que dizem sobre a arte.

No caso de “Emicida, Amarelo”, a dose é dupla: a ação no palco do músico rapper (o show já é um filme completo), com elenco convidado - cantores, cantoras e performers -  estelar, tem momentos lendários de pura exaltação do sensível, corpo em movimento, dança, canto, interações, cânticos, ancestralidade, ritos de cor e luz, uma geometria cheia de mantras atávicos, sagrados; o que acontece nos bastidores, as demandas técnicas específicas de produção, o farfalhar da câmara sobre sorrisos que exalam o sabor do fazer comunal, ora na captura do claustrofóbico instante do toque perfeito, ora em busca da verdade oceânica escondida num gesto, compõem a infraestrutura documental com seus anseios de coloquialidade, apego ao histórico e a ressignificação de marcos de memória coletiva.   

Tais correntes de energia operam uma fusão estética: hip hop + afrofuturismo. Esta cultura mista projeta a teia criativa do hip hop (rap, picho, grafitagem, MCs, DJs, breakdance) também como força de ocupação. Se o teatro onde ocorre o show que motivou o documentário representa ocupação concreta por população segregada de um espaço referencial da elite dominante, caracterizando novo patamar de inserção social fruto da militância histórica e do ativismo negro, o ato se expande em vasta territorialidade simbólica: poética e musical, étnica e social, de gênero, de classe... a perspectiva dessa ocupação de que fazem parte os protagonistas de todo o processo, incluindo a plateia do show e obviamente o público do filme, é multicultural crítica com o sentido, entre outros, de operar a humanização de homens  e mulheres coisificados no capitalismo tardio, bem como de estabelecer construção, afirmação e promoção da identidade negra.

Quanto ao território afrofuturista que a trama estética realiza, recorto um aspecto desse movimento cultural que só evolui desde a década de 1990 a partir dos EUA: seu caráter de projeção política que se realiza num tempo circular, cíclico, e que no filme está explícito nos capítulos intitulados Plantar, Regar, Colher.

Esse ciclo, que inspira aspectos significativos da filosofia da natureza, também proclama um estado utópico positivado. O afrofuturismo do documentário tanto dispara profecias ao passado da história negra no Brasil, resgatando fundamentos de uma história apagada, quanto propõe, na perspectiva de uma revolução passiva gramsciana que se dá através da arte no útero fértil do hip hop, o estabelecimento de uma nova realidade incontornável: a emancipação de oprimidas e oprimidos acontecida em campos de micropoderes na cotidianidade.

O artista Emicida emerge desse mar como um avatar emancipatório numa produção exemplar que deixa escapar a chance de analisar em profundidade as condições de violência, preconceito, insegurança social e jurídica que atingem a cultura hip hop, violência que é catalisada na canção de Belchior, “Sujeito de sorte” (hino dos millennials), na qual o verso “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”, do repentista paraibano Zé Limeira, emite uma sinalização de resistência e unidade, é desafio e evoca coragem.   

Deveria constar no documentário, devido à sua atualidade política, bem como o caráter crítico filosófico, referência qualquer à interseccionalidade (conexões classes, raças, gênero, sexualidade) proposta pelo ativismo afrodescendente global,  bem como ao baraperspectivismo, o campo filosófico que se inaugura no Brasil para pensar, numa perspectiva decolonial, a crítica ao logocentrismo do projeto racionalista dos pactos estético-filosóficos hegemônicos à esquerda e à direita. Não se encontra o baraperspectivismo, porém, enquistado em núcleo acadêmico nietzscheano refrigerado, mas a pulsar no coração da base ideológica da negritude.

“AmarElo” é enfático enquanto força motriz da crítica política ao racismo estrutural. Investiga um sujeito particular de enunciação discursiva (o rapper) e um sujeito coletivo em que o particular se insere, acolhido, e é por ele realizado (hip-hop). Desvenda ninhos tóxicos de segregação de classe, racial, sociocultural e psicoexistencial.

Opera periscópio a partir de camadas profundas do oceano de periculosidade da exclusão: a cada exibição, monitora a cena histórica conflagrada (necropolítica), previne potenciais ataques (execução pública e privada de pessoas negras) e planeja contra-ataques (“Vidas negras importam”).

É um microchip em que se comprimiu a explicitação da lógica histórica do liberalismo capitalista em sua estruturação do racismo. Ostenta, para denunciar, marcações e datações da acumulação de riquezas geradora de desigualdades via escravismo.

É palimpsesto, “raspadinha” que se abre ao atrito das unhadas do nosso olhar. Nele, se acumulam por séculos, em camadas ‘arqueológicas’ localizadas com o carbono 14 da consciência histórica, as energias do protagonismo heróico da resistência negra; além da radiação emitida pela militância para conscientização a respeito da presença incontornável do talento dos pretos e pretas na tessitura da cultura brasileira; e o eletromagnetismo crítico e mobilizador do agora que reivindica, nas ruas e nas artes, “tudo pra ontem”.  








 

terça-feira, 5 de maio de 2020

"BRANCA DE NEVE" CHEGA AOS 20 ANOS

WALTER GALVÃO - “Branca de neve”, o perturbador, iconoclasta e paradoxal filme-experimento do português João César Monteiro, completa 20 anos neste 2020. 

A produção franco-portuguesa (trailer aqui) é uma adaptação de narrativa homônima do genial e tão cultuado quanto obscuro (entre o público de até 30 anos) autor suíço de expressão alemã Robert Walser (1878-1956), escritor de escritores. 

Susan Sontag comparou o poder imaginativo de Walser ao de Paul Klee, mescla de abstracionismo, surrealismo, expressionismo, futurismo e cubismo.

A trajetória pessoal dele é semelhante à de Van Gogh e à do brasileiro Lima Barreto, criadores destroçados por doenças mentais. A leitura de Walser sugere uma obra criada a quatro mãos por Kafka e Musil, escritores que o idolatravam.

Elias Canetti, outro entusiasta, perguntou certa feita se os acadêmicos que fizeram fama e dinheiro trabalhando a obra de Walser, artista que morreu na miséria, não se envergonhavam de tê-lo usado. 

No Brasil, a Companhia das Letras publicou dois dos romances mais traduzidos mundo afora de Walser: “Jacob von Guten - Um diário” (2011) e “Os Irmãos Tanner” (2017).

O texto gerador do roteiro, traduzido para o português em Lisboa no ano de 2000, retoma o conto clássico em forma dramatúrgica - ensopada de ironia e humor cáustico - a partir da indagação: Branca de Neve realmente foi feliz para sempre?

A polêmica narrativa fílmica começa com imagens do romancista morto na via pública durante um passeio por campos cobertos de neve. Foi encontrado congelado por transeuntes no dia de natal nas proximidades do hospício em que viveu por mais de duas décadas na Suíça. 

A trama evolui na maior parte do tempo sem qualquer imagem, só o áudio dos diálogos encenados contra o fundo negro. Moreira nos concede algumas inserções de imagens. Pouquinhas.

Com ele, o diretor de “Recordações da casa amarela” (Leão de Prata no Festival de Veneza, 1989), morto em 2013, provocou a Europa no ano 2000. 

O repto ecoa ainda agora convocando artistas de várias linguagens para um debate - potencialmente interminável, inconclusivo -  de natureza tripla :

1 -  o estatuto do visível na composição de uma verdade sensível do mundo;

2 - a natureza da verdade da imagem cinematográfica;

3 - as possibilidades imagéticas da literatura em quíntupla dimensão: descrição, fundamentação, interpretação, análise, e revelação da coisa elaborada e transmitida.

A estreia aconteceu sob o impacto do público e da crítica. O cineasta jogou gasolina na fogueira da polêmica ao declarar à imprensa “foda-se o público”, desprezou opiniões contrárias ao filme e manteve um posicionamento provocativo, uma característica pessoal que levou ao cinema de alto nível que sempre realizou. 

As especulações sobre a natureza da obra se multiplicaram. Houve quem dissesse não haver intenção estética, mas sim uma provocação do diretor ao produtor por conta de problemas no financiamento. 

Outra versão é a de que acidentalmente Monteiro teria obstruído a lente e resolveu ir em frente naquele salto no escuro. Nas entrevistas concedidas à época, o cineasta faz questão de embaralhar as coisas afirmando não fazer telenovelas, que “fiz assim por não ter feito assado”...

A revista Contracampo, especializada, encaminhou uma discussão estética, e o crítico Bruno Andrade considerou que “a tela escura do filme é na realidade o registro de três formas de opressão: a da tela do cinema pelo projetor, a do espectador pela tela e a da tela pelo nosso olhar. O que Monteiro faz, o absurdo e o gênio do dispositivo que cria para este filme, é propor uma espécie de protesto para todas estas formas de opressão”.

E vaticina: “Como todos os grandes que apostaram todas as fichas no cinema – como Rossellini com “Viagem à Itália”, Glauber com “A Idade da Terra, Godard com “Histoire(s) du Cinema e Pasolini com “Salò” –, Monteiro cria não apenas uma grande obra como também estabelece um momento e uma etapa importantes dentro da longa história das formas cinematográficas”. 

A referência a uma triangulação opressiva denunciada pela escuridão fílmica remete à discussão legítima sobre relações de poder com foco na obra de Michel Foucault. É uma discussão sobre ética, uma indagação sobre sujeito, verdade e mundo. 

Prefiro identificar referenciais estéticos  e simbólicos mais óbvios. A narrativa sem luz, a tela negra, a escuridão enquanto forças propulsoras de uma dissolução caótica, iconoclasta, de teor nietzschiano niilista, da dialética do devir. 

Trata-se de uma narrativa por elipse, uma operação de deslocamento do movimento de percepção, uma suspensão da dicotomia (na dialética platônica) claro-escuro, uma refutação de lances imaginativos definidores das hierarquias do olhar a exemplo do chiaroscuro criado por Leonardo. 

Um filme-problema a reivindicar uma reflexão crítica transformadora a partir de um repertório cinematográfico enriquecido pelo experimentalismo que requer ao cinema o puro poemático (condensação ideacional via metafunção dêitica de fraseados metafóricos) "contra" o diegético (expansão narrativa de uma trama num percurso X de espaço-tempo) . Incômoda e estimulante, uma obra perfeita para a  contemporaneidade com seus labirintos de transformação, hibridismos e oceanos de desejos irrealizáveis.