WALTER GALVÃO - “Rocketman”, sobre a vida de Elton John, é uma delicada fantasia cinematográfica, passe de magia pop com sotaque dramático. Trama sardônica que poderia ter Stephen Fry como roteirista, ou Tim Burton (“Peixe grande”) na direção. Ou Jordan Peele (“Corra”).
Evoco ainda como viés analítico para comparabilidade quanto ao trato com a linguagem, a sintaxe da montagem e a abordagem dramatúrgica, entre outros níveis de fixação da narrativa, a autoconfiança permeada por ironia do “Amadeus”, de Milos Forman, e a verificação dos invariantes funcionais da psicologia infantil projetados na inocência realizada por Stanley Donen em “O pequeno príncipe” (1974).
Sua verve de cinebiografia, mas com lances imaginários, expõe, entre fabulação poderosa e muito equilíbrio estético, insuspeitos toques psicanalíticos.
Temos na tela logo de cara a angústia da carência afetiva. E um correspondente desenho melódico que segue dialogando com as sequências ao longo do filme.Traumas referenciais ligados à paternidade e à maternidade passeiam pela história. Frustração e impotência se insinuam. Ocultamento do desejo, supressão da identidade...
Eis a paleta clássica de cores emotivas da modernidade. Pronta para formular uma aventura dramática: um filme sentimental assediado por instantes-pesadelos. Interdições. Contrastes. Convulsões. As cores convergem conflitadas na casa de Reginald Kenneth Dwight, gênio musical que aos três anos já pilota um piano com desenvoltura na casa de classe média em que nasceu em Pinner, região da Grande Londres.
A família se despedaça quando ele ainda é criança. Mas o talento se afirma incólume, Reginald assume o nome Elton John para conquistar fama e ditar o gosto musical de milhões de pessoas. A arte popular com ele segue a sina de unir multidões para a celebração do som.
Roteiristas, diretor e elenco esbanjam liberdade para contar e fantasiar, até cometendo sincericídios (o que é interessante porque o biografado é produtor), uma história sobre um artista que sensibiliza gerações. Fenômeno absoluto de comunicação de massa.
Elton John emerge no filme - com cicatrizes que ardem e feridas abertas entre sorrisos catárticos - de um cenário familiar misto de ruptura e rejeição. O pai o despreza. O filme nesse aspecto se atém à vida real. Outros artistas sofreram a mesma rejeição com consequências catastróficas para a personalidade. Van Gogh enfrentou a frieza e a decepção do pai e da mãe por ser enfermiço.
Kafka: ressentido com a indiferença, o romancista tcheco escreveu “Carta ao pai” em 1919. A obra-prima do ressentimento ocidental completa 100 anos em novembro.
Reginald-Elton não é o filho que o pai esperava. O filho músico que ele não queria que fosse músico. O filho gay que ele nunca aceitou.
Desse abismo, onde desprezo, desencontros, drogadição, abandono, homofobia e tentativa de suicídio obscurecem sucesso, amor do público, respeito da crítica e conquistas artísticas pessoais, ele escapa com a capa mágica de alguém que sobreviveu a si mesmo. Não sem machucar pessoas a quem quer bem e ser golpeado por quem ele acreditava fonte de amor.
Houve quem dissesse que se trata de uma extravagância kitsch. O filme também foi taxado de cafona, de brega. Discordo. Confundem meio com mensagem. A xícara difere do café. “Rocketman” mimetiza instantes de transtornos existenciais do artista. Caricaturiza excessos do protagonista. Dramatiza ansiedades.
É um painel coeso, apesar da contração estilística plural, e nos provoca com as singularidades do gênero musical. As canções e seus climas emotivos impactantes, apelos à memória afetiva dos fãs, fluem com a naturalidade do respirar ao ritmo do movimento corporal. Nisso se abrem camadas em que ressoam os filmes de época.
Outro destaque, mais um tufo criativo: o eixo narrativo preferencial ocorre sob uma sutil marcação teatral.
Quanto à teatralidade, ela se realiza principalmente nas sequências em que o Elton surtado se despe, peça por peça, cena a cena, da fantasia de fauno psicodélico com que inaugura a narrativa de suas memórias contadas numa roda de conversa que sugere a dinâmica de uma clínica de desintoxicação.
Ao tempo em que a narrativa avança, nos desafia a vivenciar a realidade do campo cinematográfico de significações teorizada pelo crítico André Bazin, realidade impregnada de um ideal que se sobrepõe ao real.
Aparência, semelhança, dissimulação, fantasia, tempo imaginário, tempo próprio, espaço narrativo, espaço coletivo, espaço subjetivo são processos sensíveis e situações concretas e abstratas misturados no filme e acondicionadas em esfera virtual.
Nela, o diretor Dexter Fletcher reúne feixes emotivos, flashbacks, muita imaginação e o legado de Elton John para nos envolver com a crônica saturada, impregnada das contradições, enigmas, temores e liberalidades da existência íntima, subjetiva, no embate com a ordem pública da contemporaneidade. Elvis Presley e Michael Jackson não sobreviveram, a exemplo de Elis Regina e de van Gogh, à dialética do fazer artístico, motricidade abismal de um tipo de engajamento ao real que Kafka esmiúça no conto “Um artista da fome”. Elton John sobreviveu. “Rocketman” nos conta como se deu essa reconquista da vida.
