terça-feira, 5 de maio de 2020

"BRANCA DE NEVE" CHEGA AOS 20 ANOS

WALTER GALVÃO - “Branca de neve”, o perturbador, iconoclasta e paradoxal filme-experimento do português João César Monteiro, completa 20 anos neste 2020. 

A produção franco-portuguesa (trailer aqui) é uma adaptação de narrativa homônima do genial e tão cultuado quanto obscuro (entre o público de até 30 anos) autor suíço de expressão alemã Robert Walser (1878-1956), escritor de escritores. 

Susan Sontag comparou o poder imaginativo de Walser ao de Paul Klee, mescla de abstracionismo, surrealismo, expressionismo, futurismo e cubismo.

A trajetória pessoal dele é semelhante à de Van Gogh e à do brasileiro Lima Barreto, criadores destroçados por doenças mentais. A leitura de Walser sugere uma obra criada a quatro mãos por Kafka e Musil, escritores que o idolatravam.

Elias Canetti, outro entusiasta, perguntou certa feita se os acadêmicos que fizeram fama e dinheiro trabalhando a obra de Walser, artista que morreu na miséria, não se envergonhavam de tê-lo usado. 

No Brasil, a Companhia das Letras publicou dois dos romances mais traduzidos mundo afora de Walser: “Jacob von Guten - Um diário” (2011) e “Os Irmãos Tanner” (2017).

O texto gerador do roteiro, traduzido para o português em Lisboa no ano de 2000, retoma o conto clássico em forma dramatúrgica - ensopada de ironia e humor cáustico - a partir da indagação: Branca de Neve realmente foi feliz para sempre?

A polêmica narrativa fílmica começa com imagens do romancista morto na via pública durante um passeio por campos cobertos de neve. Foi encontrado congelado por transeuntes no dia de natal nas proximidades do hospício em que viveu por mais de duas décadas na Suíça. 

A trama evolui na maior parte do tempo sem qualquer imagem, só o áudio dos diálogos encenados contra o fundo negro. Moreira nos concede algumas inserções de imagens. Pouquinhas.

Com ele, o diretor de “Recordações da casa amarela” (Leão de Prata no Festival de Veneza, 1989), morto em 2013, provocou a Europa no ano 2000. 

O repto ecoa ainda agora convocando artistas de várias linguagens para um debate - potencialmente interminável, inconclusivo -  de natureza tripla :

1 -  o estatuto do visível na composição de uma verdade sensível do mundo;

2 - a natureza da verdade da imagem cinematográfica;

3 - as possibilidades imagéticas da literatura em quíntupla dimensão: descrição, fundamentação, interpretação, análise, e revelação da coisa elaborada e transmitida.

A estreia aconteceu sob o impacto do público e da crítica. O cineasta jogou gasolina na fogueira da polêmica ao declarar à imprensa “foda-se o público”, desprezou opiniões contrárias ao filme e manteve um posicionamento provocativo, uma característica pessoal que levou ao cinema de alto nível que sempre realizou. 

As especulações sobre a natureza da obra se multiplicaram. Houve quem dissesse não haver intenção estética, mas sim uma provocação do diretor ao produtor por conta de problemas no financiamento. 

Outra versão é a de que acidentalmente Monteiro teria obstruído a lente e resolveu ir em frente naquele salto no escuro. Nas entrevistas concedidas à época, o cineasta faz questão de embaralhar as coisas afirmando não fazer telenovelas, que “fiz assim por não ter feito assado”...

A revista Contracampo, especializada, encaminhou uma discussão estética, e o crítico Bruno Andrade considerou que “a tela escura do filme é na realidade o registro de três formas de opressão: a da tela do cinema pelo projetor, a do espectador pela tela e a da tela pelo nosso olhar. O que Monteiro faz, o absurdo e o gênio do dispositivo que cria para este filme, é propor uma espécie de protesto para todas estas formas de opressão”.

E vaticina: “Como todos os grandes que apostaram todas as fichas no cinema – como Rossellini com “Viagem à Itália”, Glauber com “A Idade da Terra, Godard com “Histoire(s) du Cinema e Pasolini com “Salò” –, Monteiro cria não apenas uma grande obra como também estabelece um momento e uma etapa importantes dentro da longa história das formas cinematográficas”. 

A referência a uma triangulação opressiva denunciada pela escuridão fílmica remete à discussão legítima sobre relações de poder com foco na obra de Michel Foucault. É uma discussão sobre ética, uma indagação sobre sujeito, verdade e mundo. 

Prefiro identificar referenciais estéticos  e simbólicos mais óbvios. A narrativa sem luz, a tela negra, a escuridão enquanto forças propulsoras de uma dissolução caótica, iconoclasta, de teor nietzschiano niilista, da dialética do devir. 

Trata-se de uma narrativa por elipse, uma operação de deslocamento do movimento de percepção, uma suspensão da dicotomia (na dialética platônica) claro-escuro, uma refutação de lances imaginativos definidores das hierarquias do olhar a exemplo do chiaroscuro criado por Leonardo. 

Um filme-problema a reivindicar uma reflexão crítica transformadora a partir de um repertório cinematográfico enriquecido pelo experimentalismo que requer ao cinema o puro poemático (condensação ideacional via metafunção dêitica de fraseados metafóricos) "contra" o diegético (expansão narrativa de uma trama num percurso X de espaço-tempo) . Incômoda e estimulante, uma obra perfeita para a  contemporaneidade com seus labirintos de transformação, hibridismos e oceanos de desejos irrealizáveis.