WALTER GALVÃO - É possível compreender “Bacurau”, filme de Kleber Mendonça
Filho e Juliano Dornelles, como parábola utópica existencialista e uma reflexão sobre a natureza da violência, entre outros sentidos.
Como funcionam a motricidade gregária
da violência, a forma de seu agenciamento do poder social e a sua natureza
política entre outras formas de percepção e ação desse fenômeno tão presente
em nosso cotidiano.
Entre as formas da violência no filme, aplaudido
mundialmente - foi destaque nos festivais de Cannes (França), Lima (Peru) e de
Munique (Alemanha) - destacaríamos, esquematicamente: violência gratuita,
física, simbólica, objetiva, subjetiva, legítima, transitória, sistemática,
permanente… são muitas e estão lá no filme, a desigualdade, a corrupção, a
violência contra a mulher, a prostituição, a objetificação e a alienação.
Sobre a dupla de cineastas, sua estilística, controle das
técnicas, consciência cênica, sensibilidade fílmica, a arquitetura cenográfica
que concebe, a dramaturgia a fluir na tela, a dupla exibe domínio total da
gramática, as sequências acontecem numa caligrafia de rara beleza e a práxis
poética se realiza integralmente. Não sem as problematizações da narrativa do
gênero, a modelagem Godard-Tarkovski-Glauber, a estética Eisenstein- hitchcockquiana,
o punho fechado de Sam Peckinpah, a pegada teórica dos Cahier du Cinema,
Hollywood ontem e hoje, e coisas em geral das teorias do cinema e do
pós-cinema… tudo está em “Bacurau”, pulsando, mudando o passado do cinema
latinoamericano, professando futuros.
Se pensarmos na obra individual de Kleber Mendonça, “O som
ao redor”, “Aquarius”, diria que a forma preferencial que pratica é
ideologicamente (política+estética) a do liberal comunitarista, com idioma
autoral mais para Lima Barreto e Anselmo Duarte do que para Mário Peixoto e
Glauber Rocha, mais Walter Salles e menos Rogério Sganzerla.
Suas opções discursivas, a metalinguagem, a elipse, o
deslocamento de eixos conceituais, a ironia, descentramentos políticos e de
poder, dialogam com a obra de Tarantino, de Sam Mendes, Robert Rodrigues,
Alejandro González Iñárritu e Jordan Peele, principalmente quanto às questões tematizadas
em “Corra”, racismo, nazismo, escravidão, controle da mente. Em Bacurau, o município, um alucinógeno é
portal para união psíquica geradora de determinada disposição e posição social,
assim como a hipnose em “Corra”, e, incidentalmente, o soma, a droga da felicidade
em “Admirável mundo novo”, filmes e livro, obras metaforizadas por Zé Ramalho
em “Admirável gado novo”, canção de 1979 que aniversaria este ano.
O filme nasce um clássico quanto a ser paradigmático, matriz
que serve ao cânon do que temos por episteme (conhecimento) da imagem fílmica,
por sua capacidade de penetrar mentalidades e de oferecer o mesmo, na metodologia
para a inovação narrativa, ressignificado. Suas fronteiras ético-políticas
estão borradas. Quanto ao filme ser
metáfora do Brasil atual, ele mostra a necessidade de o cidadão ter acesso às armas
para se defender, considera válido o fazer justiça com as próprias mãos, apela
a milicianos para garantir segurança, exibe o trucidamento do oponente como
opção legítima e rejeita a política tradicional. Circunstâncias aplaudidas pelo público - que
votou em Bolsonaro - nas salas de exibição. Seria isso mesmo? Ou se trata de um
levante insurrecional em que a violência justificada por legítima defesa é o
único recursos à sobrevivência?
Bacurau é parábola utópica por força do seu caráter
alegórico que remete a um tempo futuro para dizer sobre dimensões morais do
existir no presente. Uma fábula exemplar sobre mentalidade, consciência,
atitude, resistência, reação, ação e revolução.
É existencialista devido à natureza das circunstâncias que
se apresentam aos personagens para a resolução do conflito em que estão
envolvidos, uma caçada humana com o objetivo de exterminar determinada
comunidade que se defende.
Tais circunstâncias existencialistas seriam a consciência do
livre arbítrio ante situações-limite, a necessidade de escolhas nem sempre
satisfatórias, o absurdo e a irracionalidade de inúmeras situações com as quais
deparamos e as consequências, nem sempre positivas, das nossas decisões.
Mostra-se também um manifesto estético. A força de sua
beleza pictórica de alto impacto dramático decorre de uma invenção figurativa
caracterizada por marcações étnicas e culturais (lugar, povo e tradições) que
fortalecem uma visão de nós mesmos numa perspectiva libertadora e catártica.
O filme, que evoca a arte venatória, também presente em
“Corra”, mas na perspectiva de Zé do caixão, com sua câmera hiper-realista,
elenco irretocável, intertextualidade -
há um mix de gêneros: western, horror, suspense, ficção científica, drama
psicológico, - e um roteiro em camadas
que tensiona buscas e afirmações formais da cinematografia brasileira, tem esse
pendor de legitimar a aparência da paisagem e da pessoa como o valor moral
positivo de um reconhecimento prazeroso. O que somos no filme como expressão
sociocultural dizendo de uma etnicidade para a cidadania plena é uma qualidade
que se encontra harmonizada com o princípio da beleza e da felicidade, felicidade
que se realiza, na história, como o ato impuro da pura certeza conquistada.
Nunca fomos tão intensos em nossa beleza física híbrida,
diversa, barroca, nordestina, brasileira. Nunca fomos tão contemporâneos como
em “Bacurau”, poema distópico, tópico estético arretado, tacape a vibrar seus
golpes entre o terror e o êxtase.
