quinta-feira, 12 de setembro de 2019

BACURAU, TERROR E ÊXTASE



WALTER GALVÃO - É possível compreender “Bacurau”, filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, como parábola utópica existencialista e uma reflexão sobre a natureza da violência, entre outros sentidos. 
Como funcionam a motricidade gregária da violência, a forma de seu agenciamento do poder social e a sua natureza política entre outras formas de percepção e ação desse fenômeno tão presente em nosso cotidiano.

Entre as formas da violência no filme, aplaudido mundialmente - foi destaque nos festivais de Cannes (França), Lima (Peru) e de Munique (Alemanha) - destacaríamos, esquematicamente: violência gratuita, física, simbólica, objetiva, subjetiva, legítima, transitória, sistemática, permanente… são muitas e estão lá no filme, a desigualdade, a corrupção, a violência contra a mulher, a prostituição, a objetificação e a alienação.

Sobre a dupla de cineastas, sua estilística, controle das técnicas, consciência cênica, sensibilidade fílmica, a arquitetura cenográfica que concebe, a dramaturgia a fluir na tela, a dupla exibe domínio total da gramática, as sequências acontecem numa caligrafia de rara beleza e a práxis poética se realiza integralmente. Não sem as problematizações da narrativa do gênero, a modelagem Godard-Tarkovski-Glauber, a estética Eisenstein- hitchcockquiana, o punho fechado de Sam Peckinpah, a pegada teórica dos Cahier du Cinema, Hollywood ontem e hoje, e coisas em geral das teorias do cinema e do pós-cinema… tudo está em “Bacurau”, pulsando, mudando o passado do cinema latinoamericano, professando futuros.

Se pensarmos na obra individual de Kleber Mendonça, “O som ao redor”, “Aquarius”, diria que a forma preferencial que pratica é ideologicamente (política+estética) a do liberal comunitarista, com idioma autoral mais para Lima Barreto e Anselmo Duarte do que para Mário Peixoto e Glauber Rocha, mais Walter Salles e menos Rogério Sganzerla.

Suas opções discursivas, a metalinguagem, a elipse, o deslocamento de eixos conceituais, a ironia, descentramentos políticos e de poder, dialogam com a obra de Tarantino, de Sam Mendes, Robert Rodrigues, Alejandro González Iñárritu e Jordan Peele, principalmente quanto às questões tematizadas em “Corra”, racismo, nazismo, escravidão, controle da mente.  Em Bacurau, o município, um alucinógeno é portal para união psíquica geradora de determinada disposição e posição social, assim como a hipnose em “Corra”, e, incidentalmente, o soma, a droga da felicidade em “Admirável mundo novo”, filmes e livro, obras metaforizadas por Zé Ramalho em “Admirável gado novo”, canção de 1979 que aniversaria este ano.

O filme nasce um clássico quanto a ser paradigmático, matriz que serve ao cânon do que temos por episteme (conhecimento) da imagem fílmica, por sua capacidade de penetrar mentalidades e de oferecer o mesmo, na metodologia para a inovação narrativa, ressignificado. Suas fronteiras ético-políticas estão borradas.  Quanto ao filme ser metáfora do Brasil atual, ele mostra a necessidade de o cidadão ter acesso às armas para se defender, considera válido o fazer justiça com as próprias mãos, apela a milicianos para garantir segurança, exibe o trucidamento do oponente como opção legítima e rejeita a política tradicional.  Circunstâncias aplaudidas pelo público - que votou em Bolsonaro - nas salas de exibição. Seria isso mesmo? Ou se trata de um levante insurrecional em que a violência justificada por legítima defesa é o único recursos à sobrevivência?

Bacurau é parábola utópica por força do seu caráter alegórico que remete a um tempo futuro para dizer sobre dimensões morais do existir no presente. Uma fábula exemplar sobre mentalidade, consciência, atitude, resistência, reação, ação e revolução.

É existencialista devido à natureza das circunstâncias que se apresentam aos personagens para a resolução do conflito em que estão envolvidos, uma caçada humana com o objetivo de exterminar determinada comunidade que se defende.

Tais circunstâncias existencialistas seriam a consciência do livre arbítrio ante situações-limite, a necessidade de escolhas nem sempre satisfatórias, o absurdo e a irracionalidade de inúmeras situações com as quais deparamos e as consequências, nem sempre positivas, das nossas decisões.
 
Mostra-se também um manifesto estético. A força de sua beleza pictórica de alto impacto dramático decorre de uma invenção figurativa caracterizada por marcações étnicas e culturais (lugar, povo e tradições) que fortalecem uma visão de nós mesmos numa perspectiva libertadora e catártica.

O filme, que evoca a arte venatória, também presente em “Corra”, mas na perspectiva de Zé do caixão, com sua câmera hiper-realista, elenco irretocável,  intertextualidade - há um mix de gêneros: western, horror, suspense, ficção científica, drama psicológico,  - e um roteiro em camadas que tensiona buscas e afirmações formais da cinematografia brasileira, tem esse pendor de legitimar a aparência da paisagem e da pessoa como o valor moral positivo de um reconhecimento prazeroso. O que somos no filme como expressão sociocultural dizendo de uma etnicidade para a cidadania plena é uma qualidade que se encontra harmonizada com o princípio da beleza e da felicidade, felicidade que se realiza, na história, como o ato impuro da pura certeza conquistada.

Nunca fomos tão intensos em nossa beleza física híbrida, diversa, barroca, nordestina, brasileira. Nunca fomos tão contemporâneos como em “Bacurau”, poema distópico, tópico estético arretado, tacape a vibrar seus golpes entre o terror e o êxtase.

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