WALTER GALVÃO - Os novos filmes de Woody Allen (“Um dia de chuva em Nova
York”) e Martin Scorsese (“O irlandês) são fraquinhos, dois cisnes apáticos,
quase desmaiados, a boiar em lagos de tradição e memória. Tradição que os ci(s)neastas
criaram com filmografias geniais e memórias dos próprios filmes.
Os novos são cisnes devido à leveza e à beleza imponente,
mas calma, com que deslizam em nossas retinas. Mas estão esquálidos, como se
totalmente desprovidos das energias vitais que fundamentaram a expressão
estilística de dois dos artistas mais criativos da história do cinema.
No filme de Allen - sobre como tudo pode dar errado num
final de semana que seria romântico - faltam vivacidade e paixão pelos
personagens, o humor é forçado, a ironia é um ornamento suplementar e perde a
perspectiva crítica, a cidade parece estar com enxaqueca; aí, a linguagem
autoral se desidrata e o todo na tela ganha aspectos de um rascunho. De um decalque.
Decalque do próprio Allen.
O roteiro trai qualquer intenção rítmica ordenadora da
eficiência dramática das sequências, as soluções dos conflitos são
incrivelmente rápidas e superficiais, há um debulhar atabalhoado e displicente
da trama ao longo da narrativa.
No de Scorsese, se acumulam repetecos de situações de filmes
anteriores (“Caminhos perigosos” é o caso explícito), cansativos cacoetes
caricaturais dos seus astros preferidos (Robert De Niro é o melhor exemplo, com
aquela boca arqueada para baixo o tempo todo, como alguém que acabou de ter o
bigode removido com soda cáustica) poluem as personificações, o tema da
ascensão bandoleira e do carreirismo de criminosos, psicopatas insensíveis, na
máfia ou apoiado pela “cosa nostra” não apresenta novidades.
Os (d)efeitos especiais de rejuvenescimento aplicados nos
astros deixam os personagens parecidos com mutantes da Marvel, X-Men escovados por computadores desafinados.
Estou entre os 26 milhões de pessoas que assistiram a “O
irlandês” na Netflix apesar de suas mais de três horas cansativas de projeção.
A maioria adorou o filme. Suportei com estoicismo a prova devido a um fato
incontestável: um filme de Scorsese sempre te levará a um novo patamar de
consciência do que seja o fenômeno cinematográfico.
O mesmo se pode dizer do novo Allen, que preserva, apesar da
anemia profunda, rastros de sua pegada mais criativa exibida à totalidade em
“Meia-noite em Paris”, “Noivo neurótico, noiva nervosa”, “A rosa púrpura do
Cairo” e “Manhattan”, entre outros grandes filmes de uma cenografia ímpar.
Os dois filmes se encontram não apenas em suas fragilidades,
seus equívocos e lapsos, falhas acentuadas em seus respectivos sistemas
cristalinos, mas devido também à convergência temática.
São filmes sobre desejo, poder e cobiça que discorrem ainda
sobre origens, identidade, inserção, autonomia e maturidade. Em ambos, a
textura imagética é suntuosa, a transparência é uma afirmação de certezas sobre
o que se diz.
No filme de Allen, o poder é o da linguagem esteticamente
transformada, da arte, que atrai a cobiça do fã ávido por uma migalha de
atenção, do toque totêmico que enleva e diferencia. O desejo sexual é um catalisador do poder que
submete e inebria. Os espelhos de Narciso são colocados frente à frente para a
observação do embate, da pororoca dos fluxos da sensibilidade esculpindo
patamares de liberdade e de servidão.
O cineasta expõe uma visão deformada, redutora, da mulher,
imagem feminina no filme que oscila entre o deslumbramento alienado e o cinismo
conformista. A protagonista age como se fosse a princesa Aurora da fábula e escolhesse
Malévola para coach. Há cacos de ecos de “Morangos Silvestres”, mas morangos
mofados, jovens em combustão
existencial, “jovens em situação de ricos”, a juventude em ápices.
No filme de Scorsese, o poder é o da articulação da maldade
com o crime, a cobiça e a crueldade. O desejo é o desejo de poder que mobiliza
às interações grupais visando à dominação, às hierarquizações à margem da norma,
mobilização ao crime puro e simples.
Woody Allen explicita questões culturais ligadas às origens
judaicas e suas teias de significação no contexto da cultura ocidental, o mesmo
ocorrendo com Martin Scorsese ao narrar a história de um bandido no cerne das
tradições italianas transplantadas para os Estados Unidos. Longe do esplendor
de “O lobo de Wall Street”, em que Scorsese exibe o melhor de sua forma
estilística, e perdendo feio para a invenção poética ambígua, entre ficção e
realidade, de “Rolling Thunder Revue", “O irlandês” vale, no entanto, para
quem é fã do gênero.
Woody Allen e Martin Scorsese integram a geração que salvou
Hollywood na década de 1970 injetando na veia da indústria litros de
inteligência, beleza, ironia e humor. E
dólares. Milhões. Continuam mandando ver até agora. Só erraram quando alimentaram cisnes com
morangos mofados.


