quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

MORANGOS MOFADOS



WALTER GALVÃO - Os novos filmes de Woody Allen (“Um dia de chuva em Nova York”) e Martin Scorsese (“O irlandês) são fraquinhos, dois cisnes apáticos, quase desmaiados, a boiar em lagos de tradição e memória. Tradição que os ci(s)neastas criaram com filmografias geniais e memórias dos próprios filmes.

Os novos são cisnes devido à leveza e à beleza imponente, mas calma, com que deslizam em nossas retinas. Mas estão esquálidos, como se totalmente desprovidos das energias vitais que fundamentaram a expressão estilística de dois dos artistas mais criativos da história do cinema.

No filme de Allen - sobre como tudo pode dar errado num final de semana que seria romântico - faltam vivacidade e paixão pelos personagens, o humor é forçado, a ironia é um ornamento suplementar e perde a perspectiva crítica, a cidade parece estar com enxaqueca; aí, a linguagem autoral se desidrata e o todo na tela ganha aspectos de um rascunho. De um decalque. Decalque do próprio Allen.

O roteiro trai qualquer intenção rítmica ordenadora da eficiência dramática das sequências, as soluções dos conflitos são incrivelmente rápidas e superficiais, há um debulhar atabalhoado e displicente da trama ao longo da narrativa.  

No de Scorsese, se acumulam repetecos de situações de filmes anteriores (“Caminhos perigosos” é o caso explícito), cansativos cacoetes caricaturais dos seus astros preferidos (Robert De Niro é o melhor exemplo, com aquela boca arqueada para baixo o tempo todo, como alguém que acabou de ter o bigode removido com soda cáustica) poluem as personificações, o tema da ascensão bandoleira e do carreirismo de criminosos, psicopatas insensíveis, na máfia ou apoiado pela “cosa nostra” não apresenta novidades.

Os (d)efeitos especiais de rejuvenescimento aplicados nos astros deixam os personagens parecidos com mutantes da Marvel,  X-Men escovados por computadores desafinados.

Estou entre os 26 milhões de pessoas que assistiram a “O irlandês” na Netflix apesar de suas mais de três horas cansativas de projeção. A maioria adorou o filme. Suportei com estoicismo a prova devido a um fato incontestável: um filme de Scorsese sempre te levará a um novo patamar de consciência do que seja o fenômeno cinematográfico.

O mesmo se pode dizer do novo Allen, que preserva, apesar da anemia profunda, rastros de sua pegada mais criativa exibida à totalidade em “Meia-noite em Paris”, “Noivo neurótico, noiva nervosa”, “A rosa púrpura do Cairo” e “Manhattan”, entre outros grandes filmes de uma cenografia ímpar.

Os dois filmes se encontram não apenas em suas fragilidades, seus equívocos e lapsos, falhas acentuadas em seus respectivos sistemas cristalinos, mas devido também à convergência temática.
São filmes sobre desejo, poder e cobiça que discorrem ainda sobre origens, identidade, inserção, autonomia e maturidade. Em ambos, a textura imagética é suntuosa, a transparência é uma afirmação de certezas sobre o que se diz.

No filme de Allen, o poder é o da linguagem esteticamente transformada, da arte, que atrai a cobiça do fã ávido por uma migalha de atenção, do toque totêmico que enleva e diferencia.  O desejo sexual é um catalisador do poder que submete e inebria. Os espelhos de Narciso são colocados frente à frente para a observação do embate, da pororoca dos fluxos da sensibilidade esculpindo patamares de liberdade e de servidão.

O cineasta expõe uma visão deformada, redutora, da mulher, imagem feminina no filme que oscila entre o deslumbramento alienado e o cinismo conformista. A protagonista age como se fosse a princesa Aurora da fábula e escolhesse Malévola para coach. Há cacos de ecos de “Morangos Silvestres”, mas morangos mofados,  jovens em combustão existencial, “jovens em situação de ricos”, a juventude em ápices.

No filme de Scorsese, o poder é o da articulação da maldade com o crime, a cobiça e a crueldade. O desejo é o desejo de poder que mobiliza às interações grupais visando à dominação, às hierarquizações à margem da norma, mobilização ao crime puro e simples.

Woody Allen explicita questões culturais ligadas às origens judaicas e suas teias de significação no contexto da cultura ocidental, o mesmo ocorrendo com Martin Scorsese ao narrar a história de um bandido no cerne das tradições italianas transplantadas para os Estados Unidos. Longe do esplendor de “O lobo de Wall Street”, em que Scorsese exibe o melhor de sua forma estilística, e perdendo feio para a invenção poética ambígua, entre ficção e realidade, de “Rolling Thunder Revue", “O irlandês” vale, no entanto, para quem é fã do gênero.

Woody Allen e Martin Scorsese integram a geração que salvou Hollywood na década de 1970 injetando na veia da indústria litros de inteligência, beleza, ironia e humor.  E dólares. Milhões. Continuam mandando ver até agora.  Só erraram quando alimentaram cisnes com morangos mofados.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

"DESERTORES"


WALTER GALVÃO - O Coletivo de Teatro Alfenim, de João Pessoa, está com novo trabalho em exibição até 7 de dezembro no espaço Casa Amarela que mantém no Centro Histórico.

“Desertores - um experimento”, evento construído a partir do texto inacabado (1930) de Bertolt Brecht “O declínio do egoísta Johann Fatzer” (texto-fetiche, labirinto e colmeia, que se assemelha em estrutura lacunar especulativa a “Passagens”, de Walter Benjamin), captura, reproduz, desconstrói, formula, e especula sobre, fenômenos sociais a exemplo da violência e da alienação, da anomia, e da tensão indivíduo-coletividade. 

Experimento que evolui por quase duas horas discutindo cultura e civilização como espaços para formalização de consensos, rupturas e pactos circunstanciais em meio aos mecanismos psicossociais de sociabilidade atingidos por degradação e desumanização.

Ambiguidades da ação humana tais como os baques irracionais da consciência racional, a destrutividade organizada, proativa, a serviço de um ideal de equilíbrio produtivo, as assimetrias, convergências, repulsas entre “nós”, portadores da verdade, e “eles”, meros simulacros de uma diversidade nociva são trabalhadas pelo Coletivo de Teatro Alfenim.

A encenação apresenta a cotidianidade “de quatro homens que acabaram em total declínio, em meio a assassinatos, perjúrio e depravação” entre “os rastros sangrentos de um tempo despido de toda moral”, o tempo da primeira Grande Guerra quando os quatro “sumiram de um tanque e foram tidos como mortos” surgindo posteriormente “no bairro das fábricas onde um  deles tinha um quarto no porão”.

Trata-se, na verdade, de uma nova provocação estética do grupo que se afirma há mais de 10 anos como referência nordestina de criatividade e de militância crítica contra o conformismo das formas comerciais de teatralização indutivas de passividade. 

O trabalho em cartaz é um desafio artístico triplo.  Para a plateia, impõe inescapável verificação dos limites do nosso repertório perceptivo das artes dramáticas, e provoca torções, estremecimentos e rupturas nos níveis de sensorialidade que trabalhamos para apreender o fenômeno cênico teatralizado.

Para quem dirige a ação, o desafio está ao nível de compatibilizar exigências de múltiplas realidades em atrito. Principalmente por se tratar de um texto de Brecht, o que pressupõe um método a contrapelo da tradição clássica advinda da poética aristotélica, inovação metodológica que significa nova racionalidade cênica em progresso: teatralidade exclusiva  na ação dramática contra a supremacia do texto, o sentido épico como fundamento racional, distanciamento, que é efeito sobre o público para a percepção de que ali acontece teatro, fato técnico socialmente realizado; é o estranhamento que marca com silêncios inexplicados, paradas contra a lógica linear da narrativa,e com a radicalização expressiva do gesto, o campo da realidade contra a cena ilusionista que pressupõe atores e atrizes que “entram” nas personagens, a utilização da música (ótima em “Desertores”, composição do grupo) como medula espinal da sintaxe cênica, e o aporte multimídia, com projeções de imagens e objetos cênicos manipuláveis.

Ao diretor (Márcio Marciano) cumpre compatibilizar na mesma incandescência da ação esse instrumental brechtiano (o grupo montou Brecht anteriormente), que remete a um patamar do realismo numa dimensão crítica e pedagógica que ambiciona estabelecer uma consciência política específica, o potencial dramático do elenco assediado pela estilística da interpretação da idade mídia da cultura eletrônica do cinema e da TV via Internet, os fundamentos dialéticos do teatro épico que se mantêm atuais, e novas buscas teórico-práticas, notadamente o princípio do teatro pós-dramático - a apropriação pelo elenco do fato teatral enquanto acontecimento capaz de se realizar em qualquer espaço físico a partir da instauração de uma práxis dramática em que o espectador pode ou não interagir. 

O desafio ao elenco (Adriano Cabral, Edson Albuquerque, Kevin Melo, Lara Torrezan, Mayra Ferreira, Murilo Franco, Paula Coelho, Vitor Blam e Victor Dessô) é dar materialidade em ato performático através da posse do método e da consciência da lógica do processo ao experimento em sua plenitude.


O Coletivo Alfenim em cena realiza fatos teatrais legítimos, desloca sentidos quanto à linearidade dos espaços e constrói realidades com habilidade e sensibilidade. O elenco tem consciência total do tema e da trama, dos espaços e dos tempos que se interpenetram na dinâmica da ocupação da caixa cênica, com seu efeito de túnel, de trincheira, de subterrâneo, de casa e de rua, e nos passa o fervor técnico da construção do ato cênico estético, orgânico, vibrátil, concreto, político, histórico. As técnicas de composição, deslocamentos, de projeção de corpo e voz, estão à mostra, e demonstram a vigência interpretativa do teatro épico e a resiliência de sua pegada crítica. Com um subtexto que remete à tragédia política que acomete a atual conjuntura, “Desertores - um experimento” é conquista de mais qualidade do nosso teatro, teatro político para qualquer tempo.    

"AMBIENTE FAMILIAR"


WALTER GALVÃO - O filme “Ambiente familiar”, repleto de imagens arrebatadoras, de rara beleza, com alto grau de excitação ao nosso olhar domesticado por Hollywood e pelas telenovelas, é a estreia em longa-metragem do cineasta paraibano Torquato Joel, autor também dos aplaudidos e referenciados curtas “Passadouro” e “Transubstancial”.

“Ambiente familiar” pode ser visto como um poema visual. Nele, se superpõem jogos de experimentação figurativa, entre a transparência e a opacidade, jogos que acontecem com elementos sensoriais autossuficientes e formas abstratas que reivindicam uma imagética proponente de inédita sensibilidade. Há na obra grafismos e texturas, uma sequência magistral em animação situada na fronteira entre o surrealismo e o hiperrealismo. Animação de tirar o fôlego. E um campo sonoro, uma sonoplastia, em que a palavra se dissolve e se confunde, se transforma e se (des)realiza mimetizando uma música feita de ruídos e sussurros e de repetições de fonemas geradores de vocalizações equivalentes a mantras.

Pode ser visto também como um drama psicológico, esteticamente entre o mergulho em profundidade no onírico e a fabulação do realismo mágico com incursões psicanalíticas. O sonho é uma referência mítica e mística, chave de um portal simbólico para a reorganização do real narrado. Nesse sentido, o roteiro, em sua chave psicanalítica, com gradações do ritmo de desenvolvimento da trama que contempla o lírico, o épico e o dramático, numa conjunção emotiva sempre intensa, segue, inconscientemente ou não, a própria configuração do sonho descrita por Freud, as fases de condensação, deslocamento, simbolismo e dramatização do material sonhado.

Roteiro, diretor e elenco se integram para especular, perguntar e dizer numa liga feita de verdades e ficções sobre o ser e estar no mundo a partir de circunstâncias, processos e categorias como pertencimento, territorialidade, identidade, afetividade e alteridade.

Tudo isso nucleado pelo conceito de família, esta forja histórica de identidades, que abrange desde pessoas com relações de consanguinidade e vinculações genealógicas a um agrupamento que se forma para conviver sob o mesmo teto a partir de afinidades eletivas quaisquer. Esse é o caso do filme em que os dois aspectos se combinam e se integram para nos atrair ora ao abismo da incerteza, ora ao lago da consciência pacificada de um encontro feliz.

O “familiar” do título tem a sua carga de múltipla significação. Remete a circunstâncias familiares tóxicas, um campo minado de rejeição, subordinação, autoritarismo e exclusão. “Ambiente familiar” é também aquele letreiro encontrável em lugares onde habita a possibilidade de práticas transgressivas, e que adverte para a interdição do que é moralmente considerado condenável. Também pode indicar uma construção protetiva de acolhimento, orientação e trocas afetivas.

E pode ser ainda um espaço de reconhecimento de emoções que consagram tradições seculares encontráveis na trajetória histórica da família enquanto instituição burguesa basilar da cultura ocidental como gerações a vivenciam desde, no mínimo, o século XVI. O filme, atento a todos esses processos, descreve aspectos do cotidiano de três amigos, entre os quais dois irmãos.

A narrativa evolui em meio a evocações da infância das personagens que, contrastadas com a vivência adulta, estabelecem uma conjuntura em que perdas estimulam conquistas, rejeições constituem um aprendizado afetivo e a presença na intimidade de outra pessoa gera responsabilidades que fortalecem vínculos capazes de estimular a prática sem medo da verdade existencial de cada indivíduo.

O filme, com elenco ótimo em que as crianças se destacam pela qualidade da presença cênica, ilumina um campo processual no qual a sociedade contemporânea deve se observar que é a mutação vivida pela família na atualidade. Mudanças da ordem social e econômica, de cunho afetivo e existencial, e na esfera jurídico-institucional além das instâncias de realização cultural, notadamente artístico-cultural.

Estamos aqui nos referindo ao plano de conteúdo da obra que confirma, também no plano de expressão referido no início do texto - seu arranjo estético, design, direção, dramaturgia, trilha sonora, roteiro e montagem -, a presença do diretor entre os mais expressivos criadores e criadoras da área no Estado e no Brasil na atualidade.

Torquato está ao lado de Kléber Mendonça Filho, de Marcos Villar, e André Morais, também Tavinho Teixeira, Bertrand Lira, Vladimir Carvalho, Ana Bárbara, Eliézer Rolim, Karim Ainouz, Monique Gardenberg, Lírio Ferreira, Cláudio Assis, Laís Bodanzky, Edson Lemos e muita gente boa que robustece a cena cinematográfica com uma contribuição autoral específica quanto à consciência do fílmico como ganho poético e cognitivo, do cinematográfico à revelia do mercadológico, do estético como transfiguração do eu. Um filme-valise em que humanismo, poesia, tesão e verdade irradiam ondas de liberdade a favor da vida sem grandes medos.