segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

"DESERTORES"


WALTER GALVÃO - O Coletivo de Teatro Alfenim, de João Pessoa, está com novo trabalho em exibição até 7 de dezembro no espaço Casa Amarela que mantém no Centro Histórico.

“Desertores - um experimento”, evento construído a partir do texto inacabado (1930) de Bertolt Brecht “O declínio do egoísta Johann Fatzer” (texto-fetiche, labirinto e colmeia, que se assemelha em estrutura lacunar especulativa a “Passagens”, de Walter Benjamin), captura, reproduz, desconstrói, formula, e especula sobre, fenômenos sociais a exemplo da violência e da alienação, da anomia, e da tensão indivíduo-coletividade. 

Experimento que evolui por quase duas horas discutindo cultura e civilização como espaços para formalização de consensos, rupturas e pactos circunstanciais em meio aos mecanismos psicossociais de sociabilidade atingidos por degradação e desumanização.

Ambiguidades da ação humana tais como os baques irracionais da consciência racional, a destrutividade organizada, proativa, a serviço de um ideal de equilíbrio produtivo, as assimetrias, convergências, repulsas entre “nós”, portadores da verdade, e “eles”, meros simulacros de uma diversidade nociva são trabalhadas pelo Coletivo de Teatro Alfenim.

A encenação apresenta a cotidianidade “de quatro homens que acabaram em total declínio, em meio a assassinatos, perjúrio e depravação” entre “os rastros sangrentos de um tempo despido de toda moral”, o tempo da primeira Grande Guerra quando os quatro “sumiram de um tanque e foram tidos como mortos” surgindo posteriormente “no bairro das fábricas onde um  deles tinha um quarto no porão”.

Trata-se, na verdade, de uma nova provocação estética do grupo que se afirma há mais de 10 anos como referência nordestina de criatividade e de militância crítica contra o conformismo das formas comerciais de teatralização indutivas de passividade. 

O trabalho em cartaz é um desafio artístico triplo.  Para a plateia, impõe inescapável verificação dos limites do nosso repertório perceptivo das artes dramáticas, e provoca torções, estremecimentos e rupturas nos níveis de sensorialidade que trabalhamos para apreender o fenômeno cênico teatralizado.

Para quem dirige a ação, o desafio está ao nível de compatibilizar exigências de múltiplas realidades em atrito. Principalmente por se tratar de um texto de Brecht, o que pressupõe um método a contrapelo da tradição clássica advinda da poética aristotélica, inovação metodológica que significa nova racionalidade cênica em progresso: teatralidade exclusiva  na ação dramática contra a supremacia do texto, o sentido épico como fundamento racional, distanciamento, que é efeito sobre o público para a percepção de que ali acontece teatro, fato técnico socialmente realizado; é o estranhamento que marca com silêncios inexplicados, paradas contra a lógica linear da narrativa,e com a radicalização expressiva do gesto, o campo da realidade contra a cena ilusionista que pressupõe atores e atrizes que “entram” nas personagens, a utilização da música (ótima em “Desertores”, composição do grupo) como medula espinal da sintaxe cênica, e o aporte multimídia, com projeções de imagens e objetos cênicos manipuláveis.

Ao diretor (Márcio Marciano) cumpre compatibilizar na mesma incandescência da ação esse instrumental brechtiano (o grupo montou Brecht anteriormente), que remete a um patamar do realismo numa dimensão crítica e pedagógica que ambiciona estabelecer uma consciência política específica, o potencial dramático do elenco assediado pela estilística da interpretação da idade mídia da cultura eletrônica do cinema e da TV via Internet, os fundamentos dialéticos do teatro épico que se mantêm atuais, e novas buscas teórico-práticas, notadamente o princípio do teatro pós-dramático - a apropriação pelo elenco do fato teatral enquanto acontecimento capaz de se realizar em qualquer espaço físico a partir da instauração de uma práxis dramática em que o espectador pode ou não interagir. 

O desafio ao elenco (Adriano Cabral, Edson Albuquerque, Kevin Melo, Lara Torrezan, Mayra Ferreira, Murilo Franco, Paula Coelho, Vitor Blam e Victor Dessô) é dar materialidade em ato performático através da posse do método e da consciência da lógica do processo ao experimento em sua plenitude.


O Coletivo Alfenim em cena realiza fatos teatrais legítimos, desloca sentidos quanto à linearidade dos espaços e constrói realidades com habilidade e sensibilidade. O elenco tem consciência total do tema e da trama, dos espaços e dos tempos que se interpenetram na dinâmica da ocupação da caixa cênica, com seu efeito de túnel, de trincheira, de subterrâneo, de casa e de rua, e nos passa o fervor técnico da construção do ato cênico estético, orgânico, vibrátil, concreto, político, histórico. As técnicas de composição, deslocamentos, de projeção de corpo e voz, estão à mostra, e demonstram a vigência interpretativa do teatro épico e a resiliência de sua pegada crítica. Com um subtexto que remete à tragédia política que acomete a atual conjuntura, “Desertores - um experimento” é conquista de mais qualidade do nosso teatro, teatro político para qualquer tempo.    

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