WALTER GALVÃO - O filme “Ambiente familiar”, repleto de
imagens arrebatadoras, de rara beleza, com alto grau de excitação ao nosso
olhar domesticado por Hollywood e pelas telenovelas, é a estreia em
longa-metragem do cineasta paraibano Torquato Joel, autor também dos aplaudidos
e referenciados curtas “Passadouro” e “Transubstancial”.
“Ambiente familiar” pode ser visto como um poema visual.
Nele, se superpõem jogos de experimentação figurativa, entre a transparência e
a opacidade, jogos que acontecem com elementos sensoriais autossuficientes e
formas abstratas que reivindicam uma imagética proponente de inédita
sensibilidade. Há na obra grafismos e texturas, uma sequência magistral em
animação situada na fronteira entre o surrealismo e o hiperrealismo. Animação de
tirar o fôlego. E um campo sonoro, uma sonoplastia, em que a palavra se dissolve
e se confunde, se transforma e se (des)realiza mimetizando uma música feita de
ruídos e sussurros e de repetições de fonemas geradores de vocalizações
equivalentes a mantras.
Pode ser visto também como um drama psicológico,
esteticamente entre o mergulho em profundidade no onírico e a fabulação do
realismo mágico com incursões psicanalíticas. O sonho é uma referência mítica e
mística, chave de um portal simbólico para a reorganização do real narrado.
Nesse sentido, o roteiro, em sua chave psicanalítica, com gradações do ritmo de
desenvolvimento da trama que contempla o lírico, o épico e o dramático, numa
conjunção emotiva sempre intensa, segue, inconscientemente ou não, a própria
configuração do sonho descrita por Freud, as fases de condensação, deslocamento,
simbolismo e dramatização do material sonhado.
Roteiro, diretor e elenco se integram para especular,
perguntar e dizer numa liga feita de verdades e ficções sobre o ser e estar no
mundo a partir de circunstâncias, processos e categorias como pertencimento,
territorialidade, identidade, afetividade e alteridade.
Tudo isso nucleado pelo conceito de família, esta forja
histórica de identidades, que abrange desde pessoas com relações de
consanguinidade e vinculações genealógicas a um agrupamento que se forma para
conviver sob o mesmo teto a partir de afinidades eletivas quaisquer. Esse é o
caso do filme em que os dois aspectos se combinam e se integram para nos atrair
ora ao abismo da incerteza, ora ao lago da consciência pacificada de um
encontro feliz.
O “familiar” do título tem a sua carga de múltipla
significação. Remete a circunstâncias familiares tóxicas, um campo minado de
rejeição, subordinação, autoritarismo e exclusão. “Ambiente familiar” é também
aquele letreiro encontrável em lugares onde habita a possibilidade de práticas
transgressivas, e que adverte para a interdição do que é moralmente considerado
condenável. Também pode indicar uma construção protetiva de acolhimento,
orientação e trocas afetivas.
E pode ser ainda um espaço de reconhecimento de emoções que
consagram tradições seculares encontráveis na trajetória histórica da família
enquanto instituição burguesa basilar da cultura ocidental como gerações a
vivenciam desde, no mínimo, o século XVI. O filme, atento a todos esses processos,
descreve aspectos do cotidiano de três amigos, entre os quais dois irmãos.
A narrativa evolui em meio a evocações da infância das
personagens que, contrastadas com a vivência adulta, estabelecem uma conjuntura
em que perdas estimulam conquistas, rejeições constituem um aprendizado afetivo
e a presença na intimidade de outra pessoa gera responsabilidades que
fortalecem vínculos capazes de estimular a prática sem medo da verdade
existencial de cada indivíduo.
O filme, com elenco ótimo em que as crianças se destacam
pela qualidade da presença cênica, ilumina um campo processual no qual a
sociedade contemporânea deve se observar que é a mutação vivida pela família na
atualidade. Mudanças da ordem social e econômica, de cunho afetivo e
existencial, e na esfera jurídico-institucional além das instâncias de
realização cultural, notadamente artístico-cultural.
Estamos aqui nos referindo ao plano de conteúdo da obra que
confirma, também no plano de expressão referido no início do texto - seu
arranjo estético, design, direção, dramaturgia, trilha sonora, roteiro e
montagem -, a presença do diretor entre os mais expressivos criadores e
criadoras da área no Estado e no Brasil na atualidade.
Torquato está ao lado de Kléber Mendonça Filho, de Marcos
Villar, e André Morais, também Tavinho Teixeira, Bertrand Lira, Vladimir
Carvalho, Ana Bárbara, Eliézer Rolim, Karim Ainouz, Monique Gardenberg, Lírio
Ferreira, Cláudio Assis, Laís Bodanzky, Edson Lemos e muita gente boa que
robustece a cena cinematográfica com uma contribuição autoral específica quanto
à consciência do fílmico como ganho poético e cognitivo, do cinematográfico à
revelia do mercadológico, do estético como transfiguração do eu. Um
filme-valise em que humanismo, poesia, tesão e verdade irradiam ondas de
liberdade a favor da vida sem grandes medos.

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