segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

"AMBIENTE FAMILIAR"


WALTER GALVÃO - O filme “Ambiente familiar”, repleto de imagens arrebatadoras, de rara beleza, com alto grau de excitação ao nosso olhar domesticado por Hollywood e pelas telenovelas, é a estreia em longa-metragem do cineasta paraibano Torquato Joel, autor também dos aplaudidos e referenciados curtas “Passadouro” e “Transubstancial”.

“Ambiente familiar” pode ser visto como um poema visual. Nele, se superpõem jogos de experimentação figurativa, entre a transparência e a opacidade, jogos que acontecem com elementos sensoriais autossuficientes e formas abstratas que reivindicam uma imagética proponente de inédita sensibilidade. Há na obra grafismos e texturas, uma sequência magistral em animação situada na fronteira entre o surrealismo e o hiperrealismo. Animação de tirar o fôlego. E um campo sonoro, uma sonoplastia, em que a palavra se dissolve e se confunde, se transforma e se (des)realiza mimetizando uma música feita de ruídos e sussurros e de repetições de fonemas geradores de vocalizações equivalentes a mantras.

Pode ser visto também como um drama psicológico, esteticamente entre o mergulho em profundidade no onírico e a fabulação do realismo mágico com incursões psicanalíticas. O sonho é uma referência mítica e mística, chave de um portal simbólico para a reorganização do real narrado. Nesse sentido, o roteiro, em sua chave psicanalítica, com gradações do ritmo de desenvolvimento da trama que contempla o lírico, o épico e o dramático, numa conjunção emotiva sempre intensa, segue, inconscientemente ou não, a própria configuração do sonho descrita por Freud, as fases de condensação, deslocamento, simbolismo e dramatização do material sonhado.

Roteiro, diretor e elenco se integram para especular, perguntar e dizer numa liga feita de verdades e ficções sobre o ser e estar no mundo a partir de circunstâncias, processos e categorias como pertencimento, territorialidade, identidade, afetividade e alteridade.

Tudo isso nucleado pelo conceito de família, esta forja histórica de identidades, que abrange desde pessoas com relações de consanguinidade e vinculações genealógicas a um agrupamento que se forma para conviver sob o mesmo teto a partir de afinidades eletivas quaisquer. Esse é o caso do filme em que os dois aspectos se combinam e se integram para nos atrair ora ao abismo da incerteza, ora ao lago da consciência pacificada de um encontro feliz.

O “familiar” do título tem a sua carga de múltipla significação. Remete a circunstâncias familiares tóxicas, um campo minado de rejeição, subordinação, autoritarismo e exclusão. “Ambiente familiar” é também aquele letreiro encontrável em lugares onde habita a possibilidade de práticas transgressivas, e que adverte para a interdição do que é moralmente considerado condenável. Também pode indicar uma construção protetiva de acolhimento, orientação e trocas afetivas.

E pode ser ainda um espaço de reconhecimento de emoções que consagram tradições seculares encontráveis na trajetória histórica da família enquanto instituição burguesa basilar da cultura ocidental como gerações a vivenciam desde, no mínimo, o século XVI. O filme, atento a todos esses processos, descreve aspectos do cotidiano de três amigos, entre os quais dois irmãos.

A narrativa evolui em meio a evocações da infância das personagens que, contrastadas com a vivência adulta, estabelecem uma conjuntura em que perdas estimulam conquistas, rejeições constituem um aprendizado afetivo e a presença na intimidade de outra pessoa gera responsabilidades que fortalecem vínculos capazes de estimular a prática sem medo da verdade existencial de cada indivíduo.

O filme, com elenco ótimo em que as crianças se destacam pela qualidade da presença cênica, ilumina um campo processual no qual a sociedade contemporânea deve se observar que é a mutação vivida pela família na atualidade. Mudanças da ordem social e econômica, de cunho afetivo e existencial, e na esfera jurídico-institucional além das instâncias de realização cultural, notadamente artístico-cultural.

Estamos aqui nos referindo ao plano de conteúdo da obra que confirma, também no plano de expressão referido no início do texto - seu arranjo estético, design, direção, dramaturgia, trilha sonora, roteiro e montagem -, a presença do diretor entre os mais expressivos criadores e criadoras da área no Estado e no Brasil na atualidade.

Torquato está ao lado de Kléber Mendonça Filho, de Marcos Villar, e André Morais, também Tavinho Teixeira, Bertrand Lira, Vladimir Carvalho, Ana Bárbara, Eliézer Rolim, Karim Ainouz, Monique Gardenberg, Lírio Ferreira, Cláudio Assis, Laís Bodanzky, Edson Lemos e muita gente boa que robustece a cena cinematográfica com uma contribuição autoral específica quanto à consciência do fílmico como ganho poético e cognitivo, do cinematográfico à revelia do mercadológico, do estético como transfiguração do eu. Um filme-valise em que humanismo, poesia, tesão e verdade irradiam ondas de liberdade a favor da vida sem grandes medos.  

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