sábado, 22 de fevereiro de 2020

UNHANDEIJARA: FRONTEIRAS DO FAZER ARTÍSTICO

DETALHE DA GRAVURA FLOR DO XINGU
WALTER GALVÃO - A morte, esta inútil regra universal, suprimiu do nosso cotidiano no último dia 11 a presença crítico-criativa do multiartista paraibano Unhandeijara Lisboa. 

Unhandeijara foi um dos artistas-poetas-inventores responsáveis pela insurreição política e estética das artes visuais nos anos 1970 (transmidiações, intertextualidades, digitalização, desmaterializações, instalações, performatividade, hibridismos, filosofia midiática, mcluhanmania…). e a partir desta década no Brasil. Brasil pós-tropicália trans-Oiticica e armorial, da ditadura, Pasquim e Teatro de Arena, artistas exilados, guerrilha e desbunde.

A Paraíba pós-geração 59, cenário de Raul Córdula em “Memórias do Olhar” , Vanildo Brito, Jurandy Moura, Archidy Picado, Ivan Freitas, Breno Mattos, Marlene Almeida, Chico Pereira, Hermano José, Lindaura Pedrosa, Lucy Camelo...  embates entre surrealismo e concretismo, o suprematismo entre Augusto dos Anjos e Nietzsche no debate sobre a modernidade e seus transes performativos. Linguagem e mentalidade em ebulição. Paraíba pós-Grupo Sanhauá, a poética de Sérgio de Castro Pinto e Marcos Tavares, Anco Márcio, revista Couro e Marcos dos Anjos...

Nesse enclave histórico, Unhandeijara Lisboa surgiu gravador, escultor e fotógrafo. Nestes três modos de comunicação artística visual, realizou, com obra (experimental, conceitual, abstrata, interativa) de expressiva densidade política e intensidade criativa, novas observações sobre imagem e sentido, as possibilidades formais da coisa bidimensional, da estrutura 3D e do objeto relacional, o não-objeto, o processo e a instalação…

Abusou do talento verificando possibilidades formais para experimentar razão e sensibilidade, expressão e conhecimento, tradição e ruptura. E isso também a partir da cultura popular nordestina, a obra de Vitalino, o prelo e os versos de Leandro Gomes de Barros, a xilogravura de José Costa Leite. 

Fundou em 1984 o Clube da Gravura em João Pessoa. Transformou a entidade fincada no bairro de Jaguaribe, lá morou sempre - onde há a arrojada casa-ateliê Vila 777 em que ele vivia (Avenida Senador João Lira), a qual denominávamos a “Galera do Pirata Cósmico”  (ele era fã do bloco Piratas de Jaguaribe) por sua aparência surreal, mix de vitrine futurista, túnel do tempo e batcaverna, num espaço de pulsação criativa, laboratório transdisciplinar dedicado também a experimentalismos e à produção de novos materiais, forja imaginativa a revelar talentos e expandir o prestígio da gravura como expressão essencial da nossa produção de imagens.   

Praticou a iconicidade cinética, e  usou, para isso, cito de memória um exemplo, eixo e rodas de um carro de boi como fonte originária da imagem. Traduziu a memória social do veículo em esculturas e gravuras com a criatividade de um imagista mestre apaixonado pelas formas sensíveis. 

Em busca de novas significações e representações, manejou imagens em máquinas de xérox e com elas projetou via fax hibridizações geradoras de cartazes e cartões-postais a serviço de uma visibilidade crítica do ato artístico indutor de sensorialidades inéditas.

Nas gravuras onde se esmeraram as possibilidades poéticas combinatórias do abstracionismo geométrico tão caro ao logicismo do construtivismo, ele introduziu os petróglifos do Ingá, ampliando o que chamo de “circunscrição imagética” para referências artísticas simbolizadoras precedentes numa possível iconologia profunda paraibana.  

Nandi, também professor de técnicas artísticas, foi ainda inventor de ferramentas e fórmulas para o manejo dos materiais com os quais criava. 

Ativista da provocação estética, arauto dos ritos conceituais históricos, alquimista das formas arcaizantes, interlocutor e militante das vanguardas artísticas e arquitetônicas históricas e atuais, Calder, Niemeyer, Aloísio Magalhães, Le Corbusier,  Décio Pignatari, Waldemar Cordeiro, Burle Marx, Flávio de Carvalho, ele partiu aos 71 anos, justamente quando vivenciaria agora em 2020 o aniversário de 50 anos de carreira internacional (estreou em bienais em 1970).

Sua obra questiona narrativas pós-coloniais paradigmáticas e o faz muito à-vontade a bordo do caldeirão de signos, ciclos, modos da modernidade e pós, protagonista autêntica da (neo)vanguarda compreendida como atitude e processo, vanguarda circunstância e ideologia.

A arte de Nandi interfer(ag)e em/com três paradigmas nos ciclos concêntricos da modernidade artística no século XX  (1910-45-80), e pós-modernidade (distopias, era da incerteza, globalização, conectividade em tempo real).

Os paradigmas Duchamp, Benjamin e Oiticica.

No Paradigma Duchamp, temos o deslocamento e a desrealização do pictórico narrativo que propõe imagens para o campo do objeto experimental que critica a imagem, o caso do ready-made, a conversão significacional do objeto. 

Quanto ao Paradigma Benjamin, temos no conceito de inconsciente óptico teorizado por Walter Benjamin, e manejado por Nandi em sua obra, a presença das novas tecnologias e formas artísticas a exemplo da fotografia e do cinema que modelaram sensibilidades contemporâneas.

O Paradigma Oiticica opera com a proposição de novas práticas, conceitos, linguagens e uma imagética anticolonialista radical características da obra de Hélio Oiticica em sua busca do “suprasensorial” (Cosmococa é obra emblemática) após o logicismo construtivista dos  metaesquemas e do experimentalismo dos bólides e parangolés.

Amante da arte popular, cultor da semiótica e do poema-processo, editor da histórica revista Karimbada, avatar das complexidades pós e trans estéticas, Unhandeijara Lisboa já está fazendo falta.  
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