WALTER GALVÃO - Não faz muito tempo que redes sociais identificaram preconceito racial no noticiário da TV Globo. Mais uma vez. O apresentador deduziu que um rapaz negro a caminho de um clube de ricos não seria um sócio, mas um empregado.
Por ser um clube de tênis, o jovem não seria um atleta e sim um gandula, alguém encarregado de apanhar as bolas que caem fora do campo.
O apresentador se justificou, a confusão não foi com a cor da pele, mas sim com a cor da camisa, a que o atleta usava seria semelhante à camiseta dos gandulas, pediu desculpas em nota. Ficou o clima tenso no ar. Em Maceió (AL), alguns dias antes, professora negra foi vítima de racismo. A dona da escola onde ele trabalhava recomendou a estudantes que comprassem um chicote para lembrar à professora os tempos da escravidão.
No Rio de Janeiro, seguranças de uma agência do banco Itaú detiveram uma pessoa e chamaram a polícia. Isso devido ao fato de a jovem negra ter tentado sacar R$ 1.500 de uma conta da qual é a titular. Os episódio estão relacionados ao "racismo estrutural” do Brasil. Por que grafei a definição entre aspas?
Por necessária ênfase, para destacar essa característica do racismo, fato, de acordo com explicação do filósofo brasileiro Sílvio Almeida, revelador de tal prática discriminatória enquanto operador instituinte de um modo de ser cultural. O nosso modo de ser. A cultura brasileira é racista, apesar de o sociólogo e jornalista Ali Kamel, diretor-geral de jornalismo da Rede Globo, ter escrito o livro “Não somos racistas”.
Cultura constituída por essa inaceitável alavanca discriminatória para a geração e projeção de desigualdades, exclusão, supressão de direitos, negação da cidadania, e, num extremo, a eliminação física da vítima, seja ela índia, cigana, asiática, nordestina, judia, negra...
Sílvio é autor de obra incontornável, "O que é racismo estrutural?", lançado em 2018 pela editora Boitempo. Ele explica que "o racismo não é um ato ou um conjunto de atos e tampouco se resume a um fenômeno restrito às práticas institucionais; é, sobretudo, um processo histórico e político em que as condições de subalternidade ou de privilégio de sujeitos racializados é estruturalmente reproduzida”.
Precisamos assumir enquanto indivíduos, cidadãs, integrantes de uma comunidade, esta necessidade: debater permanentemente o tema racismo estrutural, vivenciá-lo criticamente, ou seja: identificando tal processo tóxico em nossas práticas cotidianas, por via de pensamentos, palavras e obras. É isso que está posto. Esse debate é uma dupla necessidade histórica, psíquica, cultural e econômica. Contempla uma conjuntura psicossocial brasileira prenhe de ódio na qual o racismo assume praticamente a força de uma política oficial na medida em que o presidente da República o representa.
Com isso, em qualquer oportunidade, como é o caso desta crônica, não podemos nos omitir nem calar perante manifestações racistas. Outra necessidade decorre do agravamento ao nível estrutural do racismo que se fortalece em âmbito internacional a partir de certa agenda, notadamente a proposta pela política de Estado engendrada pelo atual staff presidencial, Donald Trump à frente da emulação racista, dos Estados Unidos.
Pensando melhor, não temos apenas duas necessidades históricas para enfrentar o tema do racismo, e sim centenas. Racismo é: paralisia, renúncia à e distorção da razão; é borda do abismo totalitário, racismo é crime. O racismo na história operou genocídios. Alimenta-se de cadáveres. Continua matando por todo canto no mundo inteiro.
Suas origens confundem-se no alvorecer das civilizações. Emerge entre as ignorâncias, temores e preconceitos que entorpecem as religiões (no Cristianismo, a passagem mítica dos Reis Magos inclui Baltazar como representação dos negros; Elesbão, rei cristão etíope no século VI, morto em 555, foi canonizado pelo Vaticano) e se fortalece em meio ao sentimento infame de repulsa típico da xenofobia.
A noção de raça como divisão de grupos humanos com mesmas características hereditárias decorre do uso intenso a partir do século XV da palavra italiana razza para significar a divisão em grupos de plantas e animais.
Razza, a palavra, decorrente das conversões por supressão do termo em latim “generatio,onis”, aférese que inclui um sentido do francês “haraz”, palavra esta do século XII.
Até chegarmos a “raça” no sentido contemporâneo, e com ela empregarmos racismo como depreciação humilhante segregacionista, o ocidente viveu a queda de admitir uma absurda e impossível superioridade entre raças com o agravante de tentar justificar o racismo, isso já nos séculos XIX e XX, com bizarras teorias científicas.
A modernidade e o seu império da razão que produz monstruosidades escravizaram milhões de pessoas, o continente africano foi vítima preferencial da coisificação das pessoas sequestradas e transformadas em peças de uma linha de produção. O Brasil teria traficado nada menos que 1,7 milhão de pessoas africanas, homens, mulheres e crianças.
A história das consequências trágicas para o povo negro aqui exilado e explorado, e dos seus descendentes, está sendo cada vez mais evidenciada. Contexto que inclui a denúncia permanente do racismo advindo do escravismo estrutural. Racismo estrutural é também sinônimo de ódio.Nunca precisamos disso.

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