segunda-feira, 27 de abril de 2020

A COR AMARELO E A POLÊMICA EM "RESGATE"


WALTER GALVÃO - O uso de filtros amarelos não é o principal problema de “Resgate”. Esse novo filme da Netflix, mais um inspirado numa história em quadrinhos, é dirigido por Sam Hargraves, também ator e um dos mais experientes coordenadores de dublês do cinema atual (“Vingadores: ultimate”, “Capitão América - Guerra Civil” e outros blockbusters). E foi feito de encomenda para lustrar o brilho do carisma de Chris Hemsworth, o Thor da Marvel. 

Há no thriller, situado ao nível do melhor da ação (para quem gosta de pirotecnia, acrobacias mirabolantes e pancadaria) das franquias “Rambo” e “Jason Bourne”, uma coleção de episódios decididamente piegas. 

Os clichês do gênero se amontoam nas quase duas horas sanguinolentas de correria, explosões e fuzilamentos,  o roteiro inteligente e divertido de autoria de Joe Russo, o Messi dos roteiristas atuais de Hollywood, não nos poupa de cacoetes sentimentalóides e há quebras entediantes de ritmo quando o mercenário Tyler Rake confessa traumas existenciais ao adolescente sob a sua guarda em meio à chuva de granadas, mimimi com citação chinfrim de Paulo Coelho (o Mago ficou puto), e disparos de bazucas.

Mas os filtros amarelos (mais puxados para o escuro insinuando ocre e sépia) sobre a paisagem de Bangladesh, apesar de um tanto quanto abusivos, redundantes, não me transmitiram as aludidas intenções racistas e preconceituosas identificadas pelos internautas que não se cansam de denunciar o filme. Também visto como a glorificação do “branco libertador”. Vejo mais como a heroicização do comando suicida, mas esse é outro papo.  

Um dos internautas indagou se para Hollywood qualquer lugar fora da América é amarelo, significando a cor, no contexto, sujeira e subdesenvolvimento.    

É de se considerar justa, e até inevitável, a aspereza com que certos temas são tratados por grupos sociais historicamente agredidos, solapados em seus direitos, comprimidos num espaço de protagonismo asfixiante, como no caso das vítimas de preconceito, racismo e indignidades similares. 

Nós, nordestinos, somos alvos dessa sanha fratricida encapsulada em camadas de afirmação objetiva de sentido através da linguagem (falada, escrita, artística, científica) espalhada por várias regiões, inclusive no próprio Nordeste. 

Ao nível da subjetividade, de nossa vivência psicoemocional, a sociedade enfrenta e pratica coisas como racismo e machismo estrutural geradoras e reprodutoras de violência.   

As formas de sociabilidade que privilegiaram, ainda privilegiam, a exclusão merecem realmente a militância atenta para a denúncia de seus derramamentos a cada manhã desses nossos dias de vírus incontroláveis e manipulações ideológicas. 
No caso do filme, a crítica se torna pertinente por uma razão simples: a opção de cor incomodou as pessoas. Insisto, no entanto, que essa falha, apontada por muita gente, decorre mais do apelo aos clichês cinematográficos do que propriamente a uma intenção manipulatória. 

Como quem gosta de cinema sabe, a cor (sensação ótica) é elemento indispensável da direção de arte e da fotografia (no p&b, a história é com a luz branca) para modulação da atmosfera, da psicologia das personagens, das gradações emotivas da história.  E o amarelo é elemento de destaque por suas convencionadas características psicológicas e simbólicas. Podemos passar horas falando sobre a participação no cinema dessa qualidade cromática específica das imagens visíveis. E também sobre como ela se estruturou na percepção das sociedades ao longo dos tempos. 

Em “A psicologia das cores”, Eva Heller nos informa que a amarela, com suas 115 gradações mais usadas, é a cor mais contraditória, do ciúme e do otimismo, da inteligência e da beleza, da recreação, do entendimento e da traição. Nos diz, inclusive, que os especialistas consideram-na uma cor “pontuda” e que tem “o sabor dos ácidos”.  

Já em “Tratado da ontologia das cores”, Osny Ramos nos ensina quanto ao amarelo: força psíquica, poder da vontade, poder da memória, psiquismo cósmico, inteligência da seleção natural, identidade.

Na psicologia e na metafísica da cor, nada, mas nada mesmo, nesses textos contemporâneos, indica qualquer aspecto negativo a justificar a visão de que o amarelo simboliza sujeira para Hollywood. É certo que entre nós dizemos numa perspectiva negativa que alguém “amarelou”. “Jornalismo amarelo”, nos Estados Unidos, qualifica a falta de compromisso com a verdade. Aí, o amarelo se aproxima de traição.

Para uma abordagem histórica aprofundada do tema cor, percepção e arte, acredito que Aristóteles inicia definições afirmando ser a cor uma característica do objeto; acho que seja nas “Meditações”, cito de memória, posso estar errado, onde Descartes teoriza na perspectiva da física ao escrever sobre o arco-íris produzido pelas gotículas prismáticas da chuva. O tratado mais abalizado, obviamente, é o de Isaac Newton sobre a característica corpuscular da luz e a teoria das cores, o que ele estuda através dos vários experimentos com um prisma. O mais polêmico é o de Goethe, uma refutação de Newton… a  bibliografia certamente  é gigante. Especificamente sobre o cinema, indispensável é a leitura de Cores & Filmes. Um Estudo da Cor no Cinema”, de Maria Helena Braga e Vaz da Costa.

Acredito que a ideologização do amarelo como é visto e acusado em “Resgate” começa em Hollywood, que foi parceira comercial do nazismo, daí que a cisma tem fundamento, começa com “Traffic”, o quatro vezes oscarizado filme de Steven Soderbergh, obra impactante sobre o narcotráfico que completa 20 anos. Para as cenas no México o diretor elege o amarelo torrado e estabelece a tonalidade que em Hargraves funciona como um clichê para estruturar um ambiente sufocante, de alta temperatura. Sobre esse mesmo amarelo, podemos encontrá-lo fortemente em “O silêncio dos inocentes”, “O poderoso chefão”, “Mad Max”. Também “O submarino amarelo” projeta uma narrativa específica à nossa percepção, isso sem falar em “Kill Bill”, o amarelo remete também aos filmes de Bruce Lee, e em “Amarelo Manga”, palco, este último filme, de um striptease da cor em sua exuberância quente, sensual. Respeito a militância que reivindica o fim das simbolizações degradantes, notadamente as cromáticas. Mas, parodiando Freud na questão do cachimbo, é possível dizer que às vezes uma cor é apenas isso.  

segunda-feira, 20 de abril de 2020

ROBERTO EM TEMPO REAL


WALTER GALVÃO - Foi irresistível ímã a performance nos atraindo à teia iluminada de som e poesia. Um momento-talismã para dar sorte em qualquer tempo e lugar. 

Pulsar clássico de vida no coração da história da pandemia, coisa impregnada de esperança, generosidade e beleza. 

Música contra medos. Para acalmar espíritos.
Retas e curvas, linhas e pontos, agudos e graves de um desenho mágico e mítico sobre a pauta de harmonia e carisma onde a música via streaming aconteceu nesse domingo 19. 

Roberto Carlos em ritmo de (a)venturas: urgências e surpresas do 'ao vivo';  certezas do bem-bom do talento estelar; o caráter traumático do estresse no mundo atual; foi essa a cenografia simbólica do evento.

O cenário onde Roberto,Tutuca e Eduardo Lages fizeram a música acontecer foi intimista (creio, na casa de RC) sem renunciar a certo toque high tech construtivista iluminado com sutileza. 

O cantor e compositor, no dia de seu aniversário, 79 anos, estava bem demais num figurino absolutamente solar. 

Vestia levezas de manhãs tropicais. Estampas em branco sobre fundo azul remetiam ao céu e ao mar, tudo aspirando à pureza exigida pelo instante.

Uma live emotiva cheia de verdades: o vírus, a máscara, o confinamento. “Fiquem em casa”, “usem máscara”, doutrinou o astro na live emocionada em seu compasso solidário e emocionante pela intimidade transmitida.

Assistimos ao mestre detalhar sua técnica impecável de gigante inigualável da música. 
Roberto universal em seu sotaque estilístico feito de inocência e concisão.

A voz de linho trançado com fios de ouro emitiu as atmosferas e mensagens das canções com a naturalidade da chuva que cai lá fora. 

O caráter timbrístico da voz (o seu comportamento laríngeo), sua paleta cromática que privilegia a pureza em detrimento da intensidade, mas sem prejudicar a dinâmica das ressonâncias, se mantém.

A voz não  perdeu o brilho em suas nuances de emissão (a operação de seleção e uso de filtros, na fonte garganta, músculos, pregas e cordas vocais). 

É a mesma plataforma de distribuição e fusão de efeitos sob domínio para conquistar as significações emotivas da canção. Roberto é fera nos chamados ajustes fonatórios. 

O repertório foi uma síntese da trajetória intercontinental do artista, dos seus percursos melódicos preferenciais.

Algumas das canções-paisagens mais emotivas desfilaram renovadas. Também compareceram observações e inclinações da religiosidade, a sujeição contente do músico ao sagrado. Roberto corpo e alma.

O sorriso superlativo e a sinceridade das declarações completaram um quadro evocativo em meio ao qual me ocorreram personas artísticas assemelhadas ao nosso Rei.

Estavam lá a presença cênica espetacular e o domínio do sistema tonal de Frank Sinatra e de Elvis Presley. 

John Lennon me ocorreu quando o Rei pronunciou os versos iniciais de “Todos estão surdos”.

Pensei em Caetano Veloso durante a referência aos “cabelos encaracolados” e às “cucas maravilhosas”, cintilâncias rimáticas remotas com a contracultura.
A contracultura levou Caetano a querer o RC 7 para acompanhá-lo na apresentação de “Alegria, alegria” no festival da Record, 1967, mesmo ano da estreia  de “Como é grande o meu amor por você, chave de abertura da live.

Foi um show e tanto. A “Folha” disse que foi “legalzinho” e que “não chegou a empolgar”. Aqui faço uma paródia, peço vênia a Caymmi: “Quem não se empolga com Roberto, bom sujeito não é. Está ruim da cabeça. E doente do pé”.  




   

segunda-feira, 6 de abril de 2020

FREUD, A SÉRIE: CRIME, MISTÉRIO E FANTASIA


WALTER GALVÃO - A série “Freud”  é a estreia da Áustria (em parceria com a Alemanha) na Netflix. Dirigida por Marvin Kren (“Rammbock - Berlin undead”) e protagonizada por Robert Finster (“Stefan Zweig - Adeus, Europa”)  e Ella Rumpf (“Mulheres divinas”), a produção de oito capítulos é um típico caso freudiano. 
Explico porquê.  Trata-se de um ato falho do audiovisual austríaco. A intenção explícita é construir mais um degrau na escadaria das  glórias vienenses. A escada conduz o nome do pai da psicanálise ao topo merecido da fama. Coloca Freud na condição de ícone pop máximo do país. Um totem para a modernidade tardia. 

Isso acontece ao nível industrial turístico, uma clava para o soft power eurocêntrico, desde o aniversário em 2014 de 75 anos de morte do neurologista que conquistou o Prêmio Goethe de literatura.

A propósito desse prêmio, ele se dizia perplexo com o fato de as pessoas lerem seus livros como se fossem romances.

 Hoje, Viena faz questão de propor essa mística, Freud ídolo pop. Uma visita à cidade jamais contornará o museu. Camisetas, gravuras, bottons, gibis, entre outros suportes midiáticos, infestam as ruas a partir do número 19 da Bergasse. 

O conteúdo resultante da série, no entanto, não favorece a glorificação. Conduz o público a momento específico na vida do jovem médico quando ele está às voltas com tentativas de realizar, sem sucesso, a clínica a partir de novos métodos ancorados na hipnose como acesso ao núcleo gerador da histeria, neurose na qual os problemas psíquicos recalcados se exteriorizam através de sintomas físicos, perda da fala, da mobilidade de membros, perda da visão entre outros. 

Mostra, nesse contexto, o intrincado labirinto mental, cultural, familiar, sentimental e profissional do jovem médico.

Ele está às voltas com transtorno compulsivo, atordoado pelo uso abusivo de cocaína, fustigado pelo desrespeito de colegas e pela desconfiança de superiores. Além disso, amarga  conflito com as tradições religiosas judaicas, está em confronto com expectativas familiares, impossibilitado de casar com a mulher que ama e sem dinheiro para pagar o aluguel. Daí para o mergulho em crimes como charlatanismo, falsificações e até sequestro e cárcere privado é só um pulo. 

É como se a uma cinebiografia de Tim Maia mostrasse apenas o cantor e compositor roubando o conteúdo das marmitas que entregava quando adolescente no Rio de Janeiro, migrando para os Estados Unidos e lá sendo preso por tráfico de drogas e deportado para o Brasil. Fim da história de Tim Maia. Ou, no caso de Einstein, focar apenas o período quando ele, na Suíça, não conseguiu uma promoção no departamento de patentes onde era examinador assistente por não dominar totalmente os cálculos da sincronização eletromecânica do tempo. Restaria ao jovem frustrado as leituras de Poincaré nas escadarias simbólicas da Academia Olímpia, em Berna. Mas a história não é só isso.

Paradoxalmente, no entanto, para os fãs de suspense, terror, mistério, para quem ama o sobrenatural espiritualista, ou o parapsicológico, mediunidades e o onirismo, a série é um prato cheio, o diretor é um ás do horror, autêntico storyteller, e o roteiro segue à risca o percurso clássico de uma história feita para dar certo: o herói (anti-herói) é apresentado com a sua problemática, surge o desafio, um mentor entra no lance para ajudar, o herói testa suas próprias qualidade, fraqueja, tenta desistir, se supera, vive momentos catárticos e há um desenlace pacificador para o bem ou para o mal. As reviravoltas se sucedem, surpresas, ação e violência, choques, espantos, paixões avassaladoras e ódios recalcados e explícitos. Um thriller arrepiante. 

Ah, mas e esse Freud que mais parece Sherlock Holmes? Bem. Do que temos disponível em termos biográficos podemos dizer que a série apresenta com acentuada intensidade um Freud fiel ao personagem real, histórico. Na série o psicanalista surge tridimensional. Psicologicamente, ele indicou seus conflitos em cartas. Existencialmente, a trama é fiel ao modo como ele encarou os desafios. Estamos falando da personalidade autoanalisada e divulgada pelo próprio teórico do sonho e da tríade ego-id-superego. 

Para compreendê-lo em sua complexidade, temos as biografias monumentais de Ernest Jones (“Vida e obra de Sigmund  Freud”) e Peter Gay (“Freud - Uma vida para o nosso tempo”), e a ótima síntese biográfica “Freud”, de René Major e Chantal Talagrand.

Grande leitura sobre ele oferece o roteiro cinematográfico monumental de autoria de Sartre, “Freud além da alma”, e ensaios como “Freud e a alma humana”, de Bruno Bettelheim; “Um affair freudiano - os escritos de Freud sobre a cocaína”, de Oscar Cesarotto; “Deuses de Freud - A coleção de arte do pai da psicanálise”, escrito por Janine Burke; “Os dez amigos de Freud”, do ensaísta brasileiro Sérgio Paulo Rouanet; além do romance-reportagem “A amante de Freud”, de Karen Mack e Jennifer Kaufman, narrativa sobre o envolvimento dele com a cunhada, Minna, irmã da esposa Martha Bernays, e também o documental “As mulheres de Freud”, de Lisa Appignanesi e John Forrester, ensaio sobre a importância das mulheres na vida do autor de “O mal-estar na cultura”.

Acredito que Freud concordaria com a série que reconstitui climas dramáticos, labirínticos e tempestuosos do melhor dos casos de Sherlock Holmes, contos de Edgar Allan Poe e histórias de Lovecraft. Trata-se de uma caricatura dramático-erótica da alma febril do gênio vienense às voltas com a decadência do império austro-húngaro e suas implicações políticas que desembarcam no crime, o racismo que o impedia, devido à origem judaica, de exercer a cátedra, a hipnose e a cocaína como elementos terapêuticos como acesso à compreensão, posse e revelação dos mistérios da mente humana.

Para alguém que escreveu “Escritores criativos e devaneios”, a série é um prato cheio quanto à abordagem da fantasia como afirmação do princípio do prazer. Nesse texto, Freud elabora conexões entre realidade, prazer, fantasia, possibilidade presumida dos desejos e fruição do jogo imaginativo a que se entregam escritores e escritoras e demais artistas.

Na série, o Freud interpretado por  Robert Finster, de grande semelhança física com o neurologista, nos diverte e emociona por ser um misto de Fox Mulder em sua porção mitológica de Cassandra a revelar o que ninguém acredita que está por vir, de Sherlock Holmes com seus incríveis poderes intuitivos, mas principalmente de Frederick Abberline, o magistral investigador místico e drogado do filme “Do inferno” (irmãos Hughes, 2002) interpretado por Johnny Depp. 

Há quem tenha considerado a série uma ofensa ao próprio Freud e ao seu legado, como se a produção usurpasse a credibilidade do cânon psicanalítico e comprometesse a autoridade do profeta do inconsciente. Nada disso. Na verdade, a história é um delicioso spin-off fantasioso e eloquente.

A história é repelente e atraente. A cidade surge magnífica e sombria com seus espelhos aristocráticos, canais miasmáticos e porões nauseabundos. É onde se alimentam neuroses, psicoses e perversões. O horripilante e o excitante se engalfinham entre respiradouros entupidos, sangue, lascívia. Dor e prazer empesteiam a atmosfera sufocante. Beleza e decomposição como ocorrem na vida. Pura diversão para quem não teme o real nem o inconsciente.