WALTER GALVÃO - O uso de filtros amarelos não é o principal problema de “Resgate”. Esse novo filme da Netflix, mais um inspirado numa história em quadrinhos, é dirigido por Sam Hargraves, também ator e um dos mais experientes coordenadores de dublês do cinema atual (“Vingadores: ultimate”, “Capitão América - Guerra Civil” e outros blockbusters). E foi feito de encomenda para lustrar o brilho do carisma de Chris Hemsworth, o Thor da Marvel.
Há no thriller, situado ao nível do melhor da ação (para quem gosta de pirotecnia, acrobacias mirabolantes e pancadaria) das franquias “Rambo” e “Jason Bourne”, uma coleção de episódios decididamente piegas.
Os clichês do gênero se amontoam nas quase duas horas sanguinolentas de correria, explosões e fuzilamentos, o roteiro inteligente e divertido de autoria de Joe Russo, o Messi dos roteiristas atuais de Hollywood, não nos poupa de cacoetes sentimentalóides e há quebras entediantes de ritmo quando o mercenário Tyler Rake confessa traumas existenciais ao adolescente sob a sua guarda em meio à chuva de granadas, mimimi com citação chinfrim de Paulo Coelho (o Mago ficou puto), e disparos de bazucas.
Mas os filtros amarelos (mais puxados para o escuro insinuando ocre e sépia) sobre a paisagem de Bangladesh, apesar de um tanto quanto abusivos, redundantes, não me transmitiram as aludidas intenções racistas e preconceituosas identificadas pelos internautas que não se cansam de denunciar o filme. Também visto como a glorificação do “branco libertador”. Vejo mais como a heroicização do comando suicida, mas esse é outro papo.
Mas os filtros amarelos (mais puxados para o escuro insinuando ocre e sépia) sobre a paisagem de Bangladesh, apesar de um tanto quanto abusivos, redundantes, não me transmitiram as aludidas intenções racistas e preconceituosas identificadas pelos internautas que não se cansam de denunciar o filme. Também visto como a glorificação do “branco libertador”. Vejo mais como a heroicização do comando suicida, mas esse é outro papo.
Um dos internautas indagou se para Hollywood qualquer lugar fora da América é amarelo, significando a cor, no contexto, sujeira e subdesenvolvimento.
É de se considerar justa, e até inevitável, a aspereza com que certos temas são tratados por grupos sociais historicamente agredidos, solapados em seus direitos, comprimidos num espaço de protagonismo asfixiante, como no caso das vítimas de preconceito, racismo e indignidades similares.
Nós, nordestinos, somos alvos dessa sanha fratricida encapsulada em camadas de afirmação objetiva de sentido através da linguagem (falada, escrita, artística, científica) espalhada por várias regiões, inclusive no próprio Nordeste.
Ao nível da subjetividade, de nossa vivência psicoemocional, a sociedade enfrenta e pratica coisas como racismo e machismo estrutural geradoras e reprodutoras de violência.
As formas de sociabilidade que privilegiaram, ainda privilegiam, a exclusão merecem realmente a militância atenta para a denúncia de seus derramamentos a cada manhã desses nossos dias de vírus incontroláveis e manipulações ideológicas.
No caso do filme, a crítica se torna pertinente por uma razão simples: a opção de cor incomodou as pessoas. Insisto, no entanto, que essa falha, apontada por muita gente, decorre mais do apelo aos clichês cinematográficos do que propriamente a uma intenção manipulatória.
Como quem gosta de cinema sabe, a cor (sensação ótica) é elemento indispensável da direção de arte e da fotografia (no p&b, a história é com a luz branca) para modulação da atmosfera, da psicologia das personagens, das gradações emotivas da história. E o amarelo é elemento de destaque por suas convencionadas características psicológicas e simbólicas. Podemos passar horas falando sobre a participação no cinema dessa qualidade cromática específica das imagens visíveis. E também sobre como ela se estruturou na percepção das sociedades ao longo dos tempos.
Em “A psicologia das cores”, Eva Heller nos informa que a amarela, com suas 115 gradações mais usadas, é a cor mais contraditória, do ciúme e do otimismo, da inteligência e da beleza, da recreação, do entendimento e da traição. Nos diz, inclusive, que os especialistas consideram-na uma cor “pontuda” e que tem “o sabor dos ácidos”.
Já em “Tratado da ontologia das cores”, Osny Ramos nos ensina quanto ao amarelo: força psíquica, poder da vontade, poder da memória, psiquismo cósmico, inteligência da seleção natural, identidade.
Na psicologia e na metafísica da cor, nada, mas nada mesmo, nesses textos contemporâneos, indica qualquer aspecto negativo a justificar a visão de que o amarelo simboliza sujeira para Hollywood. É certo que entre nós dizemos numa perspectiva negativa que alguém “amarelou”. “Jornalismo amarelo”, nos Estados Unidos, qualifica a falta de compromisso com a verdade. Aí, o amarelo se aproxima de traição.
Para uma abordagem histórica aprofundada do tema cor, percepção e arte, acredito que Aristóteles inicia definições afirmando ser a cor uma característica do objeto; acho que seja nas “Meditações”, cito de memória, posso estar errado, onde Descartes teoriza na perspectiva da física ao escrever sobre o arco-íris produzido pelas gotículas prismáticas da chuva. O tratado mais abalizado, obviamente, é o de Isaac Newton sobre a característica corpuscular da luz e a teoria das cores, o que ele estuda através dos vários experimentos com um prisma. O mais polêmico é o de Goethe, uma refutação de Newton… a bibliografia certamente é gigante. Especificamente sobre o cinema, indispensável é a leitura de Cores & Filmes. Um Estudo da Cor no Cinema”, de Maria Helena Braga e Vaz da Costa.
Acredito que a ideologização do amarelo como é visto e acusado em “Resgate” começa em Hollywood, que foi parceira comercial do nazismo, daí que a cisma tem fundamento, começa com “Traffic”, o quatro vezes oscarizado filme de Steven Soderbergh, obra impactante sobre o narcotráfico que completa 20 anos. Para as cenas no México o diretor elege o amarelo torrado e estabelece a tonalidade que em Hargraves funciona como um clichê para estruturar um ambiente sufocante, de alta temperatura. Sobre esse mesmo amarelo, podemos encontrá-lo fortemente em “O silêncio dos inocentes”, “O poderoso chefão”, “Mad Max”. Também “O submarino amarelo” projeta uma narrativa específica à nossa percepção, isso sem falar em “Kill Bill”, o amarelo remete também aos filmes de Bruce Lee, e em “Amarelo Manga”, palco, este último filme, de um striptease da cor em sua exuberância quente, sensual. Respeito a militância que reivindica o fim das simbolizações degradantes, notadamente as cromáticas. Mas, parodiando Freud na questão do cachimbo, é possível dizer que às vezes uma cor é apenas isso.


