WALTER GALVÃO - A série “Freud” é a estreia da Áustria (em parceria com a Alemanha) na Netflix. Dirigida por Marvin Kren (“Rammbock - Berlin undead”) e protagonizada por Robert Finster (“Stefan Zweig - Adeus, Europa”) e Ella Rumpf (“Mulheres divinas”), a produção de oito capítulos é um típico caso freudiano.
Explico porquê. Trata-se de um ato falho do audiovisual austríaco. A intenção explícita é construir mais um degrau na escadaria das glórias vienenses. A escada conduz o nome do pai da psicanálise ao topo merecido da fama. Coloca Freud na condição de ícone pop máximo do país. Um totem para a modernidade tardia.
Isso acontece ao nível industrial turístico, uma clava para o soft power eurocêntrico, desde o aniversário em 2014 de 75 anos de morte do neurologista que conquistou o Prêmio Goethe de literatura.
A propósito desse prêmio, ele se dizia perplexo com o fato de as pessoas lerem seus livros como se fossem romances.
Hoje, Viena faz questão de propor essa mística, Freud ídolo pop. Uma visita à cidade jamais contornará o museu. Camisetas, gravuras, bottons, gibis, entre outros suportes midiáticos, infestam as ruas a partir do número 19 da Bergasse.
O conteúdo resultante da série, no entanto, não favorece a glorificação. Conduz o público a momento específico na vida do jovem médico quando ele está às voltas com tentativas de realizar, sem sucesso, a clínica a partir de novos métodos ancorados na hipnose como acesso ao núcleo gerador da histeria, neurose na qual os problemas psíquicos recalcados se exteriorizam através de sintomas físicos, perda da fala, da mobilidade de membros, perda da visão entre outros.
Mostra, nesse contexto, o intrincado labirinto mental, cultural, familiar, sentimental e profissional do jovem médico.
Ele está às voltas com transtorno compulsivo, atordoado pelo uso abusivo de cocaína, fustigado pelo desrespeito de colegas e pela desconfiança de superiores. Além disso, amarga conflito com as tradições religiosas judaicas, está em confronto com expectativas familiares, impossibilitado de casar com a mulher que ama e sem dinheiro para pagar o aluguel. Daí para o mergulho em crimes como charlatanismo, falsificações e até sequestro e cárcere privado é só um pulo.
É como se a uma cinebiografia de Tim Maia mostrasse apenas o cantor e compositor roubando o conteúdo das marmitas que entregava quando adolescente no Rio de Janeiro, migrando para os Estados Unidos e lá sendo preso por tráfico de drogas e deportado para o Brasil. Fim da história de Tim Maia. Ou, no caso de Einstein, focar apenas o período quando ele, na Suíça, não conseguiu uma promoção no departamento de patentes onde era examinador assistente por não dominar totalmente os cálculos da sincronização eletromecânica do tempo. Restaria ao jovem frustrado as leituras de Poincaré nas escadarias simbólicas da Academia Olímpia, em Berna. Mas a história não é só isso.
Paradoxalmente, no entanto, para os fãs de suspense, terror, mistério, para quem ama o sobrenatural espiritualista, ou o parapsicológico, mediunidades e o onirismo, a série é um prato cheio, o diretor é um ás do horror, autêntico storyteller, e o roteiro segue à risca o percurso clássico de uma história feita para dar certo: o herói (anti-herói) é apresentado com a sua problemática, surge o desafio, um mentor entra no lance para ajudar, o herói testa suas próprias qualidade, fraqueja, tenta desistir, se supera, vive momentos catárticos e há um desenlace pacificador para o bem ou para o mal. As reviravoltas se sucedem, surpresas, ação e violência, choques, espantos, paixões avassaladoras e ódios recalcados e explícitos. Um thriller arrepiante.
Ah, mas e esse Freud que mais parece Sherlock Holmes? Bem. Do que temos disponível em termos biográficos podemos dizer que a série apresenta com acentuada intensidade um Freud fiel ao personagem real, histórico. Na série o psicanalista surge tridimensional. Psicologicamente, ele indicou seus conflitos em cartas. Existencialmente, a trama é fiel ao modo como ele encarou os desafios. Estamos falando da personalidade autoanalisada e divulgada pelo próprio teórico do sonho e da tríade ego-id-superego.
Para compreendê-lo em sua complexidade, temos as biografias monumentais de Ernest Jones (“Vida e obra de Sigmund Freud”) e Peter Gay (“Freud - Uma vida para o nosso tempo”), e a ótima síntese biográfica “Freud”, de René Major e Chantal Talagrand.
Grande leitura sobre ele oferece o roteiro cinematográfico monumental de autoria de Sartre, “Freud além da alma”, e ensaios como “Freud e a alma humana”, de Bruno Bettelheim; “Um affair freudiano - os escritos de Freud sobre a cocaína”, de Oscar Cesarotto; “Deuses de Freud - A coleção de arte do pai da psicanálise”, escrito por Janine Burke; “Os dez amigos de Freud”, do ensaísta brasileiro Sérgio Paulo Rouanet; além do romance-reportagem “A amante de Freud”, de Karen Mack e Jennifer Kaufman, narrativa sobre o envolvimento dele com a cunhada, Minna, irmã da esposa Martha Bernays, e também o documental “As mulheres de Freud”, de Lisa Appignanesi e John Forrester, ensaio sobre a importância das mulheres na vida do autor de “O mal-estar na cultura”.
Acredito que Freud concordaria com a série que reconstitui climas dramáticos, labirínticos e tempestuosos do melhor dos casos de Sherlock Holmes, contos de Edgar Allan Poe e histórias de Lovecraft. Trata-se de uma caricatura dramático-erótica da alma febril do gênio vienense às voltas com a decadência do império austro-húngaro e suas implicações políticas que desembarcam no crime, o racismo que o impedia, devido à origem judaica, de exercer a cátedra, a hipnose e a cocaína como elementos terapêuticos como acesso à compreensão, posse e revelação dos mistérios da mente humana.
Para alguém que escreveu “Escritores criativos e devaneios”, a série é um prato cheio quanto à abordagem da fantasia como afirmação do princípio do prazer. Nesse texto, Freud elabora conexões entre realidade, prazer, fantasia, possibilidade presumida dos desejos e fruição do jogo imaginativo a que se entregam escritores e escritoras e demais artistas.
Na série, o Freud interpretado por Robert Finster, de grande semelhança física com o neurologista, nos diverte e emociona por ser um misto de Fox Mulder em sua porção mitológica de Cassandra a revelar o que ninguém acredita que está por vir, de Sherlock Holmes com seus incríveis poderes intuitivos, mas principalmente de Frederick Abberline, o magistral investigador místico e drogado do filme “Do inferno” (irmãos Hughes, 2002) interpretado por Johnny Depp.
Há quem tenha considerado a série uma ofensa ao próprio Freud e ao seu legado, como se a produção usurpasse a credibilidade do cânon psicanalítico e comprometesse a autoridade do profeta do inconsciente. Nada disso. Na verdade, a história é um delicioso spin-off fantasioso e eloquente.
A história é repelente e atraente. A cidade surge magnífica e sombria com seus espelhos aristocráticos, canais miasmáticos e porões nauseabundos. É onde se alimentam neuroses, psicoses e perversões. O horripilante e o excitante se engalfinham entre respiradouros entupidos, sangue, lascívia. Dor e prazer empesteiam a atmosfera sufocante. Beleza e decomposição como ocorrem na vida. Pura diversão para quem não teme o real nem o inconsciente.

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