WALTER GALVÃO - Foi irresistível ímã a performance nos atraindo à teia iluminada de som e poesia. Um momento-talismã para dar sorte em qualquer tempo e lugar.
Pulsar clássico de vida no coração da história da pandemia, coisa impregnada de esperança, generosidade e beleza.
Música contra medos. Para acalmar espíritos.
Retas e curvas, linhas e pontos, agudos e graves de um desenho mágico e mítico sobre a pauta de harmonia e carisma onde a música via streaming aconteceu nesse domingo 19.
Roberto Carlos em ritmo de (a)venturas: urgências e surpresas do 'ao vivo'; certezas do bem-bom do talento estelar; o caráter traumático do estresse no mundo atual; foi essa a cenografia simbólica do evento.
O cenário onde Roberto,Tutuca e Eduardo Lages fizeram a música acontecer foi intimista (creio, na casa de RC) sem renunciar a certo toque high tech construtivista iluminado com sutileza.
O cantor e compositor, no dia de seu aniversário, 79 anos, estava bem demais num figurino absolutamente solar.
Vestia levezas de manhãs tropicais. Estampas em branco sobre fundo azul remetiam ao céu e ao mar, tudo aspirando à pureza exigida pelo instante.
Uma live emotiva cheia de verdades: o vírus, a máscara, o confinamento. “Fiquem em casa”, “usem máscara”, doutrinou o astro na live emocionada em seu compasso solidário e emocionante pela intimidade transmitida.
Assistimos ao mestre detalhar sua técnica impecável de gigante inigualável da música.
Roberto universal em seu sotaque estilístico feito de inocência e concisão.
A voz de linho trançado com fios de ouro emitiu as atmosferas e mensagens das canções com a naturalidade da chuva que cai lá fora.
O caráter timbrístico da voz (o seu comportamento laríngeo), sua paleta cromática que privilegia a pureza em detrimento da intensidade, mas sem prejudicar a dinâmica das ressonâncias, se mantém.
A voz não perdeu o brilho em suas nuances de emissão (a operação de seleção e uso de filtros, na fonte garganta, músculos, pregas e cordas vocais).
É a mesma plataforma de distribuição e fusão de efeitos sob domínio para conquistar as significações emotivas da canção. Roberto é fera nos chamados ajustes fonatórios.
O repertório foi uma síntese da trajetória intercontinental do artista, dos seus percursos melódicos preferenciais.
Algumas das canções-paisagens mais emotivas desfilaram renovadas. Também compareceram observações e inclinações da religiosidade, a sujeição contente do músico ao sagrado. Roberto corpo e alma.
O sorriso superlativo e a sinceridade das declarações completaram um quadro evocativo em meio ao qual me ocorreram personas artísticas assemelhadas ao nosso Rei.
Estavam lá a presença cênica espetacular e o domínio do sistema tonal de Frank Sinatra e de Elvis Presley.
John Lennon me ocorreu quando o Rei pronunciou os versos iniciais de “Todos estão surdos”.
Pensei em Caetano Veloso durante a referência aos “cabelos encaracolados” e às “cucas maravilhosas”, cintilâncias rimáticas remotas com a contracultura.
A contracultura levou Caetano a querer o RC 7 para acompanhá-lo na apresentação de “Alegria, alegria” no festival da Record, 1967, mesmo ano da estreia de “Como é grande o meu amor por você, chave de abertura da live.
A contracultura levou Caetano a querer o RC 7 para acompanhá-lo na apresentação de “Alegria, alegria” no festival da Record, 1967, mesmo ano da estreia de “Como é grande o meu amor por você, chave de abertura da live.
Foi um show e tanto. A “Folha” disse que foi “legalzinho” e que “não chegou a empolgar”.
Aqui faço uma paródia, peço vênia a Caymmi: “Quem não se empolga com Roberto, bom sujeito não é. Está ruim da cabeça. E doente do pé”.

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