segunda-feira, 20 de abril de 2020

ROBERTO EM TEMPO REAL


WALTER GALVÃO - Foi irresistível ímã a performance nos atraindo à teia iluminada de som e poesia. Um momento-talismã para dar sorte em qualquer tempo e lugar. 

Pulsar clássico de vida no coração da história da pandemia, coisa impregnada de esperança, generosidade e beleza. 

Música contra medos. Para acalmar espíritos.
Retas e curvas, linhas e pontos, agudos e graves de um desenho mágico e mítico sobre a pauta de harmonia e carisma onde a música via streaming aconteceu nesse domingo 19. 

Roberto Carlos em ritmo de (a)venturas: urgências e surpresas do 'ao vivo';  certezas do bem-bom do talento estelar; o caráter traumático do estresse no mundo atual; foi essa a cenografia simbólica do evento.

O cenário onde Roberto,Tutuca e Eduardo Lages fizeram a música acontecer foi intimista (creio, na casa de RC) sem renunciar a certo toque high tech construtivista iluminado com sutileza. 

O cantor e compositor, no dia de seu aniversário, 79 anos, estava bem demais num figurino absolutamente solar. 

Vestia levezas de manhãs tropicais. Estampas em branco sobre fundo azul remetiam ao céu e ao mar, tudo aspirando à pureza exigida pelo instante.

Uma live emotiva cheia de verdades: o vírus, a máscara, o confinamento. “Fiquem em casa”, “usem máscara”, doutrinou o astro na live emocionada em seu compasso solidário e emocionante pela intimidade transmitida.

Assistimos ao mestre detalhar sua técnica impecável de gigante inigualável da música. 
Roberto universal em seu sotaque estilístico feito de inocência e concisão.

A voz de linho trançado com fios de ouro emitiu as atmosferas e mensagens das canções com a naturalidade da chuva que cai lá fora. 

O caráter timbrístico da voz (o seu comportamento laríngeo), sua paleta cromática que privilegia a pureza em detrimento da intensidade, mas sem prejudicar a dinâmica das ressonâncias, se mantém.

A voz não  perdeu o brilho em suas nuances de emissão (a operação de seleção e uso de filtros, na fonte garganta, músculos, pregas e cordas vocais). 

É a mesma plataforma de distribuição e fusão de efeitos sob domínio para conquistar as significações emotivas da canção. Roberto é fera nos chamados ajustes fonatórios. 

O repertório foi uma síntese da trajetória intercontinental do artista, dos seus percursos melódicos preferenciais.

Algumas das canções-paisagens mais emotivas desfilaram renovadas. Também compareceram observações e inclinações da religiosidade, a sujeição contente do músico ao sagrado. Roberto corpo e alma.

O sorriso superlativo e a sinceridade das declarações completaram um quadro evocativo em meio ao qual me ocorreram personas artísticas assemelhadas ao nosso Rei.

Estavam lá a presença cênica espetacular e o domínio do sistema tonal de Frank Sinatra e de Elvis Presley. 

John Lennon me ocorreu quando o Rei pronunciou os versos iniciais de “Todos estão surdos”.

Pensei em Caetano Veloso durante a referência aos “cabelos encaracolados” e às “cucas maravilhosas”, cintilâncias rimáticas remotas com a contracultura.
A contracultura levou Caetano a querer o RC 7 para acompanhá-lo na apresentação de “Alegria, alegria” no festival da Record, 1967, mesmo ano da estreia  de “Como é grande o meu amor por você, chave de abertura da live.

Foi um show e tanto. A “Folha” disse que foi “legalzinho” e que “não chegou a empolgar”. Aqui faço uma paródia, peço vênia a Caymmi: “Quem não se empolga com Roberto, bom sujeito não é. Está ruim da cabeça. E doente do pé”.  




   

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