WALTER GALVÃO - “Ele irrompeu na cena com um pesado gesto de
inefável superioridade; ele é o salvador artístico de um vasto país, e sabe
disso”.
O tom bombástico com a exuberância dos superlativos está num
texto do célebre crítico inglês Kenneth Tynan a propósito de Orson Welles e o
cinema estadunidense.
Mas seria totalmente aplicável à cena protagonizada por João
Gilberto no Brasil quando da eclosão revolucionária da Bossa Nova.
O gênero musical criado pelo baiano de Juazeiro nos anos
1950 conquistou o Brasil e ganhou o mundo.
João Gilberto - não mais entre nós desde o último dia seis -
está para a música assim como Welles está para o cinema.
A voz-câmera de João buscou novas ângulos para a colocação
da fala musical como nunca antes na história desse país havia acontecido.
A palavra, meio e mensagem, conteúdo e continente, funciona
com sua máxima potencialidade fônica, sonora, musical, na interpretação do violonista,
cantor e compositor.
Como Picasso atuando sobre a tela a dissolver sentidos
clássicos da fisionomia na tradição do retrato, o cantor dissolve e reinventa
fundamentos prosódicos da tradição do canto na canção popular ao trabalhar a
pronúncia no sentido de entrelaçar desenho melódico, trama harmônica, andamento
e prática interpretativa.
João Gilberto legou à cultura brasileira, e à cultura
musical do país, uma nova dimensão do canto popular urbano. Para essa conquista
que transcende nossas fronteiras físicas e simbólicas, encontrou no compositor
e maestro Tom Jobim o parceiro perfeito.
Jobim criou e matizou canções fundamentais do acervo musical
do século XX em qualquer lugar do mundo em função dos recursos minimalistas com
os quais João Gilberto avassalou a interpretação.
Esse novo status do cantar encontrou nas vocalizações de
cantores do nível de Caetano Veloso e Roberto Carlos a confirmação dos seus
princípios, a exemplo da ausência de ornamentos redundantes, a frase coloquial,
a evocação de um lirismo sem sentimentalismos e a espontaneidade na transmissão
do sentimento.
Um texto do músico, crítico e professor da USP Lorenzo Mammi ("João Gilberto e o projeto utópico da Bossa Nova" - Novos Estudos Cebrap) ilumina adequadamente a pegada do intérprete de “Garota de Ipanema”:
“Em sua maneira de interpretar, o que caracteriza uma
melodia não é a estrutura harmônica, que funciona apenas como um painel de
fundo, nem o pulso, em contínuo rubato, nem mesmo a linha melódica, que é
constantemente submetida a pequenas variações. A essência está em algo mais
recuado, numa determinada inflexão da voz, no jeito de pronunciar uma sílaba
que é comum à palavra e ao canto. Não por acaso, os únicos dois textos
musicados de sua autoria se baseiam sobre assonâncias sem sentido:
"Bim-bom" e "Oba-la-lá".
Com o violão, ele explorou o campo rítmico do samba para
ultrapassar limites e criar nova fronteira de pulsações. Isso que quer dizer
novas instâncias psíquicas específicas, únicas,originais, do sentir o som pelo
ouvinte.
Ouvinte que se capacita, ao ouví-lo, a internalizar
encadeamentos rítmicos e melódicos transformadores da realidade subjetiva a
partir da apreensão de exterioridade sonora plena de expressões geradoras de
conhecimento.
João percutia os acordes em blocos harmônicos para expandir
as possibilidades rítmicas do tempo do samba. Foi um autêntico senhor dos
tempos, alquimista da divisão inventiva, acrescentando uma vivacidade e uma
organicidade impactante no andamento da canção.
Com a síncopa - a intervenção ou marcação arbitrária com
sons no ponto fraco do tempo ou do compasso estendendo-se ao ponto forte
seguinte - e com a dissonância, propôs
autênticas jornadas de revisão da tradição da música popular ocidental.
Aí é que entra a polêmica já desgastada sobre a suposta
apropriação que ele teria feito da sintaxe do jazz para inventar a Bossa Nova.
O salto que ele opera ao sair do pulso 2/4 do samba para o 6/8 da Bossa
estabelece um relativismo com a transa ternária do jazz, mas é só similaridade
estética. Nada a ver com imitação. A exemplo de Charles Chaplin, Bob Dylan e
Picasso, João Gilberto deixa sua arte tatuada no tempo da civilização. Um
criador autêntico.

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