WALTER GALVÃO - A poucos dias de morrer no ano passado, o
gênio britânico Stephen Hawking mais uma vez surpreendeu o mundo. O professor
lucasiano, astrofísico, cosmólogo e ícone transmidiático pop da superação,
revisou um artigo sobre a existência dos universos paralelos.
Os fãs do Homem-Aranha vibraram. O que seria uma fantasia
delirante embutida na animação “Homem-Aranha no Aranhaverso” conquistou
inusitada potencialidade científica.
A mesma emoção atinge quem assiste à série do canal Netflix
“Como seu eu não tivesse te conhecido”.
A história é um misto de fábula sci-fi e drama romântico sobre perdas e
o peso das decisões pessoais. Acontece em surpreendentes universos paralelos.
Vai ao encontro do artigo por Hawking revisado antes de morrer.
O autor de “Uma breve história do tempo” na verdade revisou
um texto disruptivo na perspectiva dos fundamentos da cosmologia que usamos
para explicar, ou ao menos tentar explicar, para além da fantasia artística e
das cosmogêneses mitológicas, como tudo surgiu, espaço, tempo, galáxias,
estrelas, planetas, porque estamos aqui e como ficaremos no universo (?) em
expansão.
Disruptivo por considerar adequada, melhor dizendo:
considerar inevitável a demolição de quase tudo o que aprendemos e pensamos com
a ciência da física, principalmente.
Há uma cosmogonia alternativa no artigo de Hawking. Nela, a
noção de universo, de uma totalidade exclusiva que a tudo abarca e sustenta, é
substituída por uma nova visão, a do multiverso, conjunto de universos, alguns
muito parecidos com o nosso, outros com diferenças expressivas - dimensões
alteradas, mentes e personalidades alternativas, mas com cópias reconhecíveis
da gente por lá - todos originários do
big bang.
Uma leitura interessante a esse respeito é propiciada por
Brian Greene. Em “A realidade oculta” (Companhia das Letras), o cosmólogo
norte-americano especula sobre a existência, no mínimo, de nove versões de
universos paralelos matematicamente concebíveis. Ele parte dos fundamentos da
teoria da relatividade, avança sobre a mecânica quântica e conduz o leitor com
linguagem acessível e exemplos eficazes à fronteira das supercordas onde
Stephen Hawking finca uma bandeira.
O caminho trilhado por Hawking foi desbravado por Einstein.
A teoria da relatividade foi a chave por ele usada para abrir as portas da
imaginação de cientistas, líderes espirituais, filósofos e artistas.
Pensamento analítico, mente especulativa, raciocínio lógico
excitados pelas possibilidades inauguradas pela física e seus novos ramos,
quântico, computacional, ondulatório…
Ramos geradores de teorias comprovadas como a da quarta
dimensão, do entrelaçamento do espaço e do tempo, a do nível quântico em que a
mesma partícula ocupa dois lugares ao mesmo tempo, os buracos negros, a matéria
invisível, a matéria escura, a teoria do big bang…
Tais circunstâncias confirmaram antigas intuições, delírios
proféticos conceituais e fantasmagorias teóricas que afirmavam a existência de
uma realidade sob a realidade em que vivemos e também de outros mundos que
escapariam aos parâmetros da matéria e das energias de que somos feitos e
também ao nosso espaço-tempo.
A arte sempre esteve na vanguarda dessas especulações com
suas antenas direcionadas para a latitude do impossível e a longitude do
improvável. Ao declarar ser a arte uma coisa mental, Leonardo, de quem
lembramos os 500 de morte no último maio, atraiu a ciência para a teia
imaginativa capaz de transformar tempo e espaço. Não fosse uma projeção mental
de Einstein - o postulado da constância da luz - formulada quando ele tinha apenas 16 anos e
nós não estaríamos usando o GPS para encontrar a nova tapiocaria. A ciência
como coisa mental.
Um craque em universos paralelos foi o poeta Fernando
Pessoa. Seus heterônimos resultam de uma poderosa intuição de vivências em
realidades alternativas, assim como ocorre no universo criativo diverso do
genial Arthur Bispo do Rosário. A arte como coisa mental.
A série “Como seu eu não tivesse ...” especula sobre a
teoria da decisão, mexe com o conceito de destino, discute as viagens no tempo,
aborda livre arbítrio na perspectiva da ética, dialoga com a psicologia da
personalidade, formula uma teoria do amor interdimensional, indaga sobre como
trabalhamos o nosso passado e dá uma explicação dos universos paralelos.
O diretor espanhol Joan Noguera (os diálogos são em
delicioso catalão, o elenco é ótimo) usa a teoria do buraco de minhoca
combinada com a tese da realidade cósmica como tecido dobrado em espiral,
camadas superpostas através das quais se poderia construir passagens.
Provocativa e atualíssima, a série nos estimula a ter fé na ciência. Um show de
imaginação.

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