WALTER GALVÃO - Eles intrometem o nariz onde não são chamados. Sempre.
Cheios de razão. Se acham.
Fizeram isso novamente no último dia 13. No Dia do
Rock.
Eles são os terraplanistas.
E afirmam convictos em sua fé: a Nasa nos impede de fazer a
escalada da verdade. Não deixa a gente escalar a muralha de gelo existente à
beira do disco que a grande conspiração diz ser uma esfera.
O disco escondido pela Nasa é o planeta Terra.
Em seu centro, o disco em que estamos abriga o Círculo
Ártico. A Antártica é o muro de 45 metros ao redor do disco planetário. A Nasa
está sempre atrás do muro, dizem os habitantes da Terra plana. Vigilante. Para
manter a mentira esférica.
Os terraplanistas têm outra bronca da Nasa. Falam em “provas
concretas de uma farsa chamada conquista da Lua”.
O homem jamais foi até lá. Na Lua ninguém pisou. Nem pisará.
Promessa de um terraplanista. Que a fez olhando diretamente nos meus olhos.
No Dia do Rock do ano em que festival de Woodstock completa
50 anos - o evento musical emblemático da contracultura no século XX aconteceu
em agosto de 1969 -, terraplanistas ocuparam mídia e canais parceiros com mais
um informe totalmente desprezível. Mais que isso: infame e irrelevante. Por uma
questão de coerência.
Na verdade, eles garantem, o festival de Altamont, ocorrido
também nos Estados Unidos quatro meses depois do evento em Woodstock, foi ato
de Demogorgon.
O ente maligno das sombras escorregou por entre escombros de
pirâmides quéchuas. Engordou a crueldade na ágora dos cidadãos da Grécia. Mofou
apócrifos proscritos da Bíblia, e desafinou guitarras às vésperas do novo
milênio.
Os Rolling Stones foram induzidos. Certamente sob eflúvios
místicos e miasmas cósmicos da Lua, o nosso amado satélite ocupado. Induzidos pela sombra do mal que nos assombra
desde “the dark side of the moon”. Demogorgon.
A banda foi por ele manipulada. Produziu o que seria a versão rock do
Mundo Invertido.
No espelho de Woodstock, emergiu a coisa estranha.
Coisa viscosa, sanguinolenta, destrutiva. Ela era Altamont.
O festival de Altamont com seu assassinato foi uma
deformidade. O dragão da maldade da cobiça e da idolatria não cobrou ingressos.
Estava à cata de almas. A sombra do mal serpenteando entre os acordes sagrados
de rock: Altamont. 1969. O lado escuro da Lua.
As guitarras gritaram vida no espaço dinamitado por música.
Os Hell’s Angels e seus bastões lunáticos de beisebol gritaram “morra”. Alguém morreu nas mãos contratadas para fazer
segurança. Enquanto toda a tribo tramava mais vida. Vida naquele fim de ano em
que o homem havia deixado rastros na Lula.
Nunca mais o rock foi o mesmo.
Nunca mais o rock foi o mesmo.
Despiu a capa pop da insurreição existencialista que fez o
movimento hippie vibrar em nova sintonia. Em harmonia com fontes cosmogônicas
de uma cultura alternativa: Elvis, Beatles, Hendrix, Stones, Joplin, Dylan,
Morrison, Brian.
Uma contracultura embarcada na vida cotidiana que se fez
aspiração utópica nos anos 1960.
Contracultura. No Brasil: Glauber, Tropicália, Zé Celso, Tom
Zé, Gil, Caetano…Viva a sociedade alternativa...Viva Raul… Viva Celly Campello
astronauta da neve lunar. Em 1969 os Novos Baianos de Luís Galvão, Moraes
Moreira, Paulinho Boca de Cantor, Baby Consuelo, Pepeu Gomes lançaram o
primeiro disco, um compacto simples.
Contracultura
enquanto processo. Em progresso. Não o espírito de um tempo específico. Um
congelado temporal. Mas sim a visão de mundo ideologizada. Uma clava com a
força de um laser. Uma ideia para sempre. Contracultura, rasgo no estabelecido.
Avidez mudancista. Ninho de escaramuças aladas.
Timothy Leary, profeta da psicodelia e guru da Internet, o
psicólogo professor que distribuiu LSD entre os alunos de Harvard durante a
aula para construir um experimento transcendental, inclui no rol dos líderes
contraculturais personalidades históricas: Jesus Cristo, Galileu e Martinho
Lutero.
Em “Contracultura através dos tempos”, Ken Goffman e Dan Joy
indicam Sócrates, o Estagirita, como um dos precursores das ideais
contraculturais no Ocidente, juntamente com Diógenes, também filósofo,
dramaturgo e habitante de um barril, aquele da lâmpada vagando pelas esquinas
abstratas de Brasília em busca de um homem honesto.
O impacto de Woodstock. O choque de Altamont. O fim dos
Beatles. O ácido Velvet Underground. Nunca mais o rock foi o mesmo depois
daquele dezembro meia-nove. Também a Lua. Nunca mais a mesma.

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