sexta-feira, 19 de julho de 2019

ROCK DA LUA



WALTER GALVÃO - Eles intrometem o nariz onde não são chamados. Sempre. Cheios de razão. Se acham.

Fizeram isso novamente no último dia 13. No Dia do Rock.


Eles são os terraplanistas.

E afirmam convictos em sua fé: a Nasa nos impede de fazer a escalada da verdade. Não deixa a gente escalar a muralha de gelo existente à beira do disco que a grande conspiração diz ser uma esfera.


O disco escondido pela Nasa é o planeta Terra.

Em seu centro, o disco em que estamos abriga o Círculo Ártico. A Antártica é o muro de 45 metros ao redor do disco planetário. A Nasa está sempre atrás do muro, dizem os habitantes da Terra plana. Vigilante. Para manter a mentira esférica.

Os terraplanistas têm outra bronca da Nasa. Falam em “provas concretas de uma farsa chamada conquista da Lua”.

O homem jamais foi até lá. Na Lua ninguém pisou. Nem pisará. Promessa de um terraplanista. Que a fez olhando diretamente nos meus olhos.

No Dia do Rock do ano em que festival de Woodstock completa 50 anos - o evento musical emblemático da contracultura no século XX aconteceu em agosto de 1969 -, terraplanistas ocuparam mídia e canais parceiros com mais um informe totalmente desprezível. Mais que isso: infame e irrelevante. Por uma questão de coerência.

Na verdade, eles garantem, o festival de Altamont, ocorrido também nos Estados Unidos quatro meses depois do evento em Woodstock, foi ato de Demogorgon.

O ente maligno das sombras escorregou por entre escombros de pirâmides quéchuas. Engordou a crueldade na ágora dos cidadãos da Grécia. Mofou apócrifos proscritos da Bíblia, e desafinou guitarras às vésperas do novo milênio.

Os Rolling Stones foram induzidos. Certamente sob eflúvios místicos e miasmas cósmicos da Lua, o nosso amado satélite ocupado.  Induzidos pela sombra do mal que nos assombra desde “the dark side of the moon”. Demogorgon.  A banda foi por ele manipulada. Produziu o que seria a versão rock do Mundo Invertido. 

No espelho de Woodstock, emergiu a coisa estranha.
Coisa viscosa, sanguinolenta, destrutiva. Ela era Altamont.

O festival de Altamont com seu assassinato foi uma deformidade. O dragão da maldade da cobiça e da idolatria não cobrou ingressos. Estava à cata de almas. A sombra do mal serpenteando entre os acordes sagrados de rock: Altamont. 1969. O lado escuro da Lua.

As guitarras gritaram vida no espaço dinamitado por música. Os Hell’s Angels e seus bastões lunáticos de beisebol gritaram “morra”.  Alguém morreu nas mãos contratadas para fazer segurança. Enquanto toda a tribo tramava mais vida. Vida naquele fim de ano em que o homem havia deixado rastros na Lula.

Nunca mais o rock foi o mesmo.

Despiu a capa pop da insurreição existencialista que fez o movimento hippie vibrar em nova sintonia. Em harmonia com fontes cosmogônicas de uma cultura alternativa: Elvis, Beatles, Hendrix, Stones, Joplin, Dylan, Morrison, Brian.

Uma contracultura embarcada na vida cotidiana que se fez aspiração utópica nos anos 1960.

Contracultura. No Brasil: Glauber, Tropicália, Zé Celso, Tom Zé, Gil, Caetano…Viva a sociedade alternativa...Viva Raul… Viva Celly Campello astronauta da neve lunar. Em 1969 os Novos Baianos de Luís Galvão, Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor, Baby Consuelo, Pepeu Gomes lançaram o primeiro disco, um compacto simples.

  Contracultura enquanto processo. Em progresso. Não o espírito de um tempo específico. Um congelado temporal. Mas sim a visão de mundo ideologizada. Uma clava com a força de um laser. Uma ideia para sempre. Contracultura, rasgo no estabelecido. Avidez mudancista. Ninho de escaramuças aladas.

Timothy Leary, profeta da psicodelia e guru da Internet, o psicólogo professor que distribuiu LSD entre os alunos de Harvard durante a aula para construir um experimento transcendental, inclui no rol dos líderes contraculturais personalidades históricas: Jesus Cristo, Galileu e Martinho Lutero.

Em “Contracultura através dos tempos”, Ken Goffman e Dan Joy indicam Sócrates, o Estagirita, como um dos precursores das ideais contraculturais no Ocidente, juntamente com Diógenes, também filósofo, dramaturgo e habitante de um barril, aquele da lâmpada vagando pelas esquinas abstratas de Brasília em busca de um homem honesto.
 
O impacto de Woodstock. O choque de Altamont. O fim dos Beatles. O ácido Velvet Underground. Nunca mais o rock foi o mesmo depois daquele dezembro meia-nove. Também a Lua. Nunca mais a mesma.

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