WALTER GALVÃO - “Era uma vez em...Hollywood”, o novo filme
de Quentin Tarantino, surpreendentemente prenhe de nostalgia, beleza e ternura,
parece ter apaziguado um pouquinho a fome de sensações que caracteriza a obra
polissêmica desse que é um dos mais cultuados cineastas da contemporaneidade.
Mas, se a fome, essa pulsão, esse lance instintual, que mobiliza a existência
animal (do criador) à plena fruição da vida (simbólica) aparentemente é menor,
isso não quer dizer que o seu apetite pela imagem espetacular, imagem que ele
converte em transgressão que reorganiza o olhar e em violência catártica que
ativa e produz a liberação de cargas emotivas específicas, tenha diminuído.
Quanto à imagem espetacular, ela é aquilo que vibra de forma
especial e que fundamenta a filmografia do artista sobre quem falamos. É também
a tensão psicológica superlativa especial que permeia “Era uma vez...em
Hollywood”, como acontece no romance “Crônica de uma morte anunciada”, de
Garcia Márquez, e em “Morto ao chegar”, de Annabel Jankel, refilmagem do
clássico dos anos 1950.
Espetáculo “tarantinesco”, como dizemos “felliniano” ou
“almodovariano”, expressão do grandioso que compete em sua estrutura tensiva
com o bizarro e o sublime. Na obra de Tarantino, tal conteúdo remete, entre a
crítica e a reiteração, às formas ideologizadas de expressão e representação
características da modernidade e da pós-modernidade.
Numa perspectiva psicanalítica, a imagem espetacular (a
tortura em “Cães de aluguel”, a dança em “Pulp fiction”, a abertura de “Os oito
odiados”, o massacre na igreja durante a cerimônia de casamento em “Kill
Bill”...) realiza a apologia do gozo totalizante.
O espetacular propõe a
derrocada do limite enquanto instância do real para mergulhar a consciência que
percebe na especulação da sensação pela sensação. Não me escapa, acredito que
não nos escapa, a sensação de que está a rondar no parágrafo anterior a
temática da sociedade do espetáculo teorizada por Guy Debord, tão cara ao
cineasta de “Bastardos inglórios”.
O cinema, arte-indústria, é o espetáculo por excelência.
Cinéfilo apaixonado, Tarantino se entrega ao prazer de explorar níveis
“discursivos” da luminescência da imagem cinematográfica. Luminescência
compreendida aqui para além da fisioquímica; é no sentido da doutrina da
iluminação de Santo Agostinho, que trata do conhecimento de uma verdade, e que
é retomada por Walter Benjamin no conceito de iluminação profana.
Na produção social contemporânea, afirma Debord, tudo se
pretende uma acumulação do espetacular em que a imagem funciona como
instrumento de unificação da forma de ser e estar no mundo competitivo da
serialização.
Numa perspectiva mítico-antropológica, temos essa afirmação
de Ludwig Feuerbach (Alemanha, 1804-1872), um aluno de Hegel que ensinou um
bocado a Karl Marx, referindo-se às formas de elaboração do estatuto do real, e
que Debord usou como epígrafe para o primeiro capítulo de sua obra “A sociedade
do espetáculo”: “Nosso tempo, sem dúvida...prefere a imagem à coisa, a cópia ao
original, a representação à realidade, a aparência ao ser”. Tarantino vê o mundo como coisa de cinema,
aparência como essência.
No filme em questão, apesar da mitigação de certos eixos
expositivos preferenciais do autor - diálogos intensos sobre superficialidades,
exacerbação da violência, fetichização do corpo, confinamento e angústia - os elementos constitutivos de sua linguagem
permanecem íntegros, tais como radicalidade autoral, estilística autônoma,
polissemia, intertextualidade e hipertextualidade, discursividade não linear,
ironismo, humor corrosivo e dinamismo parodístico, entre outros aspectos.
Para nós, que não temos o conhecimento abissal típico de
cinéfilos a exemplo de Sílvio Osias, João Batista Barbosa de Brito e Ivan
Cineminha, e do próprio Tarantino, “Era uma vez…” é uma narrativa sobre a
complexidade da indústria do cinema a partir de cinco perspectivas: o começo da
carreira artística (a menina que é sequestrada pelo bandido no filme dentro do
filme), o auge do sucesso (o cotidiano de Sharon Tate), a decadência (o sufoco
do astro para se manter na indústria), os egos em conflito na direção dos
estúdios, e o poder abrasivo dos produtores.
Mas é claro que há muito mais do que isso no filme,
autobiográfico quanto à ligação do autor com o cinema, muitos dos seus objetos
pessoais reais estão na casa fictícia do protagonista Rick Dalton, a começar
pelo título que remete a Sérgio Leone, o inventor do western spaghetti, uma das
paixões de Tarantino, Sérgio diretor de “Era uma vez no Oeste” e “Era uma vez na América”. O
título clama, numa rima com o final do filme, por uma psicanálise dos contos de
fadas numa pegada relativa ao princípio da realidade em conflito com o
princípio do prazer. O filme também explicita a questão da consciência em
negação ao lembrar de forma implícita que o pensamento não é apenas histórico,
mas também lógico e atemporal. Com atuação excepcional do elenco, o filme faz
uma defesa suspeita de Hollywood quando a indústria sofre o efeito do mais sério ataque
de assédio sexual de sua história por parte de um produtor. Mas...isso é Tarantino.

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