quinta-feira, 29 de agosto de 2019

ERA UMA VEZ...EM HOLLYWOOD



WALTER GALVÃO - “Era uma vez em...Hollywood”, o novo filme de Quentin Tarantino, surpreendentemente prenhe de nostalgia, beleza e ternura, parece ter apaziguado um pouquinho a fome de sensações que caracteriza a obra polissêmica desse que é um dos mais cultuados cineastas da contemporaneidade. 

Mas, se a fome, essa pulsão, esse lance instintual, que mobiliza a existência animal (do criador) à plena fruição da vida (simbólica) aparentemente é menor, isso não quer dizer que o seu apetite pela imagem espetacular, imagem que ele converte em transgressão que reorganiza o olhar e em violência catártica que ativa e produz a liberação de cargas emotivas específicas, tenha diminuído.

Quanto à imagem espetacular, ela é aquilo que vibra de forma especial e que fundamenta a filmografia do artista sobre quem falamos. É também a tensão psicológica superlativa especial que permeia “Era uma vez...em Hollywood”, como acontece no romance “Crônica de uma morte anunciada”, de Garcia Márquez, e em “Morto ao chegar”, de Annabel Jankel, refilmagem do clássico dos anos 1950.

 Espetáculo “tarantinesco”, como dizemos “felliniano” ou “almodovariano”, expressão do grandioso que compete em sua estrutura tensiva com o bizarro e o sublime. Na obra de Tarantino, tal conteúdo remete, entre a crítica e a reiteração, às formas ideologizadas de expressão e representação características da modernidade e da pós-modernidade.

Numa perspectiva psicanalítica, a imagem espetacular (a tortura em “Cães de aluguel”, a dança em “Pulp fiction”, a abertura de “Os oito odiados”, o massacre na igreja durante a cerimônia de casamento em “Kill Bill”...) realiza a apologia do gozo totalizante. 

O espetacular propõe a derrocada do limite enquanto instância do real para mergulhar a consciência que percebe na especulação da sensação pela sensação. Não me escapa, acredito que não nos escapa, a sensação de que está a rondar no parágrafo anterior a temática da sociedade do espetáculo teorizada por Guy Debord, tão cara ao cineasta de “Bastardos inglórios”.

O cinema, arte-indústria, é o espetáculo por excelência. Cinéfilo apaixonado, Tarantino se entrega ao prazer de explorar níveis “discursivos” da luminescência da imagem cinematográfica. Luminescência compreendida aqui para além da fisioquímica; é no sentido da doutrina da iluminação de Santo Agostinho, que trata do conhecimento de uma verdade, e que é retomada por Walter Benjamin no conceito de iluminação profana.

Na produção social contemporânea, afirma Debord, tudo se pretende uma acumulação do espetacular em que a imagem funciona como instrumento de unificação da forma de ser e estar no mundo competitivo da serialização.

Numa perspectiva mítico-antropológica, temos essa afirmação de Ludwig Feuerbach (Alemanha, 1804-1872), um aluno de Hegel que ensinou um bocado a Karl Marx, referindo-se às formas de elaboração do estatuto do real, e que Debord usou como epígrafe para o primeiro capítulo de sua obra “A sociedade do espetáculo”: “Nosso tempo, sem dúvida...prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser”.  Tarantino vê o mundo como coisa de cinema, aparência como essência.

No filme em questão, apesar da mitigação de certos eixos expositivos preferenciais do autor - diálogos intensos sobre superficialidades, exacerbação da violência, fetichização do corpo, confinamento e angústia -  os elementos constitutivos de sua linguagem permanecem íntegros, tais como radicalidade autoral, estilística autônoma, polissemia, intertextualidade e hipertextualidade, discursividade não linear, ironismo, humor corrosivo e dinamismo parodístico, entre outros aspectos.

Para nós, que não temos o conhecimento abissal típico de cinéfilos a exemplo de Sílvio Osias, João Batista Barbosa de Brito e Ivan Cineminha, e do próprio Tarantino, “Era uma vez…” é uma narrativa sobre a complexidade da indústria do cinema a partir de cinco perspectivas: o começo da carreira artística (a menina que é sequestrada pelo bandido no filme dentro do filme), o auge do sucesso (o cotidiano de Sharon Tate), a decadência (o sufoco do astro para se manter na indústria), os egos em conflito na direção dos estúdios, e o poder abrasivo dos produtores.

Mas é claro que há muito mais do que isso no filme, autobiográfico quanto à ligação do autor com o cinema, muitos dos seus objetos pessoais reais estão na casa fictícia do protagonista Rick Dalton, a começar pelo título que remete a Sérgio Leone, o inventor do western spaghetti, uma das paixões de Tarantino, Sérgio diretor de “Era uma vez no Oeste” e “Era uma vez na América”. O título clama, numa rima com o final do filme, por uma psicanálise dos contos de fadas numa pegada relativa ao princípio da realidade em conflito com o princípio do prazer. O filme também explicita a questão da consciência em negação ao lembrar de forma implícita que o pensamento não é apenas histórico, mas também lógico e atemporal. Com atuação excepcional do elenco, o filme faz uma defesa suspeita de Hollywood quando a indústria sofre o efeito do mais sério ataque de assédio sexual de sua história por parte de um produtor. Mas...isso é Tarantino.

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