quinta-feira, 7 de novembro de 2019

MÚSICA E ATITUDE



WALTER GALVÃO - Com a seta ligada para a contestação crítica radical, o inca maia pigmeu Chico César, arteiro pró-inconformismo, armeiro da resistência à cacofonia tóxica da brigada fascistóide, César cancionista e poeta, trinca a cena musical com uma pedrada.

De seu novo disco “O amor é um ato revolucionário”, a canção “Pedrada” (“Cães danados do fascismo/babam e arreganham os dentes/sai do ovo a serpente/fruto podre do cinismo”) adrenalizou ao ponto de bestificar e paralisar uma emissora de televisão.

Disse Chico nas redes sociais que foi desconvidado a se apresentar na TV por causa dessa canção. 

Uma canção que é mais que isso, mas não é só também a manifestação militante da arte que se quer poder. 

Poder político da canção no sentido de conter, ser e estar na consciência ideológica do lugar histórico que ocupa, suas contradições e pressões contra e a favor das liberdades das verdades em chamas.

A arte será sempre um termo do real, expressão da subjetividade de quem cria e da sociedade em que se insere, conteúdo afetivo do pensar, expressão pública de uma vontade de dizer, mostrar, fazer um tipo de mundo acontecer. Trabalho, ideia e ideal.

A arte que se diz pela arte é política no sentido de ser inescapável a trama histórica e social que a perfaz.

A arte que se diz militante, engajada, representa a explicitação de uma vontade de poder traduzida em política. 

A política, que encontra a sua estética na performatividade do artista que a reivindica enquanto integrante do estatuto plural norteador do que produz, encontra na arte a dimensão moral e ética para o diálogo com a existência concreta agenciada pelo simbolismo da criação artística.

Chico César, esteta da política, político da canção, ao longo da obra que produz há mais de 30 anos, obra de uma densidade reflexiva mobilizada por invenção e ressignificação do melhor da nossa cultura moderna, sinaliza para o ser livre na contramão do preconceito. De pedra na mão, sempre que é preciso. 

O DONO DA IMAGEM
Com a seta ligada para o controle da imagem, o rapper Drake afrontou adoradores ao negar autorização para que o canal Multishow transmitisse a apresentação que fez  no Rock in Rio deste ano.

Antes de mais nada, impõe-se registrar a sensibilidade e o domínio técnico do artista enquanto mestre do gênero que pratica. 

Sua batida chiclete e os percursos realistas de suas letras, que discutem desde os malefícios da fama, as armadilhas da ganância e o quanto é ruim a falsa amizade, justificam o sucesso. 
   
Sobre o tema interdição e transmissão do show, na perspectiva de uma economia disruptiva e levando em conta o tribalismo global estruturado pela Internet, opino que a decisão de Drake foi uma queda conservadora.

Os fãs protestaram, com razão, na Internet. Afinal, compreendem que, na sociedade da conectividade plena, os grandes conteudistas de arte ancorados no mercado, como é o caso do ricaço rapper, sempre haverá uma janela para a fruição free. Janela que Drake sequer pensa em instalar. É o que parece nesse caso do show no Brasil.

Do ângulo de observação da monetização da arte, a decisão de Drake - remember David Bowie, 1997, direitos autorais transformados em ativos lançados no cassino, não do Chacrinha, mas de Wall Street - foi acertada  por desmobilizar o poder midiático que sempre quer pôr e dispor à revelia de quem cria suas vontades no tablado da produção, geração e distribuição dos conteúdos. Drake exclama em defesa do artista.

MAU HUMOR
Quando deusas malditas e asnos sagrados ficam de ressaca, a atmosfera degenera em tédio, o que geralmente motiva atitudes incompreensíveis, algumas tresloucadas, outras só equivocadas.
Mas nosso tema não atenta para os mismas tresloucados que capturaram o ego de Rodrigo Janot. E sim ao equívoco de Milton Nascimento ao dizer que a MPB está uma merda. Não está, e Bituca se desdisse numa manifestação de grandeza. Nossa música vai bem demais. Quem ouvir, verá. 

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