segunda-feira, 16 de março de 2020

MARXISMO, CIÊNCIA E MITO

WALTER GALVÃO - Levei uma cesta de aplausos para distribuir entre os presentes ao lançamento do livro “Marxismo: ciência ou mitologia? Debate em torno de uma doutrina reincidente”,  escrito por Washington Rocha, José Octávio de Arruda Mello e Clemente Rosas. 

Aconteceu na noite de sexta-feira (6) no auditório da Fundação Casa de José Américo, em João Pessoa. 

Na sexta-feira 13 teria sido data mais propícia, grávida daquele simbolismo medieval inspirador de tantos transes e lendas.

Coisas do tempo muito anterior a Marx, bem antes de Cristo, quando o aplauso acontecia para invocar a proteção dos deuses e afugentar demônios nas cerimônias em torno de um fogo sagrado.
Mas nos reunimos naquela noite para celebrar outro fogo, o fogo revolucionário característico das ideias capazes de mudar a forma como se vê o mundo, ideias capazes de mudar as pessoas.

Washington Rocha é um escritor ex-marxista hoje dedicado a espalhar a fé no fim do marxismo como escapada da inteligência de uma armadilha conceitual mortífera. Ele quer mudar pessoas. 
Para Washington, “a doutrina marxista vulgarizada é abertamente despótica, e a ciência que a sustenta é suposta”. 

Clemente Rosas, ensaísta, ex-militante comunista, afirma: “Mesmo rejeitando o brilho falso de ciência, e descartando os componentes mitológicos do marxismo, devemos continuar a garimpar verdades nesse extraordinário esforço interpretativo da atividade humana”. 

José Octávio escreve: “A convicção (de Washington Rocha) de que o marxismo irá para o lixo da história (...), este não me parece o destino da doutrina. Esta, como corpo de ideias seguramente ficará, ao contrário dos regimes políticos nele inspirados”. 

É bem verdade que os regimes políticos comunistas autoritários de inspiração marxista (superação da luta de classes via revolução para implantar uma ditadura e coletivizar os meios de produção extinguindo o Estado e a desigualdade econômica) mataram milhares de pessoas em nome de uma doutrina e atentaram contra a liberdade de pensamento. 

Também é verdade que regimes políticos inspirados no Cristianismo (revelação nos Evangelhos da salvação da humanidade pela fé na ressurreição para vida eterna numa instância divinal) mataram milhares de pessoas em nome de uma doutrina e atentaram contra a liberdade de pensamento.

Mas, e isto foi lembrado por Clemente Rosas, não se pode dizer que Jesus é o responsável pelos crimes que a Inquisição católica praticou, assim como, mutatis mutandis, não se pode responsabilizar Karl Marx pelos crimes praticados por regimes comunistas autoritários.

Acredito não haver dúvida quanto à importância do legado de Karl Marx para a história da humanidade, e o livro organizado por Washington Rocha, um debate entre os autores sobre livro anterior, também de Washington, “A Ceia Profana do Marxismo - Tragédia e Farsa”, comprova a pertinência do debate.

Resta a dúvida quanto à cientificidade da doutrina. Apesar da refutação integral de Washington, que o faz em nome da democracia e da livre circulação das ideias, José Octávio identifica a validade do método de análise marxista, “avanço sobre o idealismo factualista do passado”, e Clemente Rosas destaca o caráter datado da ideologia marxista.

Incidentalmente, a discussão remete à recomendável leitura de um livro ótimo do teólogo laico Peter Berger: “Em favor da dúvida: como ter convicções sem se tornar um fanático”.

E é na perspectiva de afastar o olhar do fanatismo que me aproprio do debate neste texto jornalístico para refutar a dúvida quanto à cientificidade do marxismo, método de análise de um modo de vida, capitalismo, o modo pós-revolução industrial, e do arcabouço lógico-racional da sociedade burguesa.

Nada mais científico, se pensarmos ciência como culminância de um processo de pesquisa experimental em que se comprova uma teoria, do que o princípio de acumulação de riquezas que gera pobreza e desigualdades no capitalismo.

Da mesma forma, o mecanismo de crise na economia, de ruptura cíclica, como reorganizador do processo capitalista a partir das inovações tecnológicas. Princípios de uma dialética do real teorizados na obra e comprovadas pelo comportamento das forças produtivas. 


Pessoalmente, vejo no conjunto da obra de Karl Marx, notadamente em “O Capital”, a resposta para a pergunta de Washington: ciência ou mitologia? Minha resposta: marxismo é ciência e mitologia. Afinal, essas duas formas de representar o real sempre estiveram em íntima ligação, duas faces da cognição. Marxismo ciência, filosofia, literatura e cultura. É bússola por permitir a exploração segura de novos territórios do pensar-agir humano, é prisma por possibilitar a refração das ondas do nosso pensamento especulativo, é microscópio por possibilitar a observação “dos poros da sociedade” e é telescópio a revelar uma realidade além do céu que nos protege.

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