sexta-feira, 31 de maio de 2019

LOBÃO TEM RAZÃO?



















Lobão assumiu publicamente o sufoco das escolhas infelizes. Fez um barulho danado. Está nas paradas do insucesso. Insucesso político. Quanto ao artístico, o músico colhe o que plantou com coragem. Fez-se estrela independente no universo das gravadoras globalizadas, empresas sempre de olho nas paradas.

Do insucesso, Lobão amarga o mofo no pão do sanduíche. O recheio do sanduba? Bolsonaro ao pesto de intolerância.

Agora, cospe o prato que escolheu. O alimento, que pensava democrático, engasga. É maçã tóxica na garganta do polemista que sufoca à espera de um beijo político redentor. Sufoca, mas reage. Solta o verbo. Fala contra si mesmo, um atingido por markecídio ideológico; fala contra o governo federal, a expressão contorcionista da incompetência, contra grupos sociais em persistente enamoramento frente à truculência no poder, os assediados pela síndrome de Estocolmo. Esse microcolapso nos provoca a refletir sobre o tempo e a gente.

Lobão, numa perspectiva pós-nietzschiana, seria uma persona representativa do ressentimento. Simboliza uma transvaloração, vide “Genealogia da moral”. O que antes era bom agora é ruim. E o ressentimento geralmente vem em camadas: emocional, existencial, político, artístico... 

E aqui se destaca a diferença entre persona e personalidade estabelecida por certas vertentes da psicologia. Todo mundo sabe. Digo a quem ainda desconhece, ou esqueceu.

Persona no sentido grego: máscara. Jung afirma, é estrutura personal apresentada como o real do ser, mas não passa de uma simulação de certos complexos emotivos. Jogo de cena para travessias cotidianas.

Personalidade é aquela estrutura ampla, neuropsíquica, uma pororoca, encontro das energias cerebrais e mentais, dos desejos e ansiedades com a teia das externalidades embarcadas no outro. Teia no nosso caminho, teia nosso caminho tecida por nós, complemento. Para o freudismo, seus componentes estruturais seriam id, ego e superego.

De Lobão estamos discutindo, portanto, a persona artística e o ressentimento. Ressentimento: alguém já o comparou a uma constelação afetiva em meio à qual nós contemporâneos flutuamos. Um flutuar desde a modernidade. Nele, boiamos conscientes. Ressentimento, lagoa de carências e mal-estares: a angústia da solidão, a incompletude do ser, e a finitude. A consciência da morte produz desde o inconsciente um incômodo, há dor nisso, que em alguns casos ele se transforma em agressividade.

O tema está nas vitrines. Autores brasileiros têm peneirado significados com inteligência e sensibilidade, como é o caso da psicanalista Maria Rita Kehl, autora de “Ressentimento”; e do filósofo Luiz Felipe Pondé com “A era do ressentimento”.

Em Lobão, o ressentido político faz aflorar o estético e o artístico, circunstância a nos remeter a outro aspecto da questão: o debate sobre o engajamento da arte e o conflito entre arte autônoma e a engajada.

Engajamento neste caso quer dizer vinculação política explícita a determinado campo ideológico e intentos confrontacionistas. De linguagens. Na moral.  Não é propaganda, possível subordinação da estética à instrumentalização da linguagem artística posta a serviço da conquista de poderes, podres ou não. 

A arte engajada contrastaria com a arte autônoma.  Esta, uma arte definida pela autonomia do artista num exercício de liberdade na fixação de um simbolismo perene. Aquela, ao contrário, seria limitada por conveniências efêmeras, transitórias. Sobre o conflito, persiste a atualidade de um ensaio que não se pode dispensar quando o debate se estabelece: “Engagement” (1962), de Theodor Adorno: “A obra de arte engajada desencanta o que só pretende estar aí como fetiche, como jogo ocioso daqueles que silenciariam de bom grado a avalanche ameaçadora, como um apolítico sabiamente politizado”.

Engajados seriam, nessa perspectiva, o próprio Lobão e nomes como os de Caetano Veloso e Chico Buarque; Roberto Carlos e Roberta Miranda estariam no campo dos autônomos. Mas Adorno garante que essa demarcação é artificial, ambas têm características comuns.

Na Paraíba, me ocorre agora o nome do artista Flávio Tavares como vinculado à militância política de resistência, evoco o mural por ele recém-produzido. É manifesto pleno de indignação. Confronta e discute a fatos da política nacional que catapultaram Bolsonaro ao poder com aplauso e voto de Lobão. Este agora uiva um grande não para a escolha que fez. Lobão tem razão? 

sexta-feira, 24 de maio de 2019

A HORA MAIS ESCURA

























WALTER GALVÃO - No prefácio à edição brasileira de “A lógica do pior”, o filósofo francês Clément Rosset afirma que nós brasileiros exibimos “uma excepcional animação e alegria de viver, junto a um sentido agudo de catástrofe iminente”.

A análise se aplica ao momento se estamos a pensar sobre política, Estado, reformas, governabilidade e estabilidade. Aplica-se, mas parcialmente. Não identifico nos últimos dias os focos tradicionais das excepcionais animação e alegria de viver que nos caracterizam.

Era de se esperar que houvesse, nesses primeiros meses do novo grupo no Palácio do Planalto, exuberância de otimismo nas gerais, principalmente entre os que conseguiram no voto levar à Presidência da República o nome de sua preferência.

Mas até entre os que se consideram responsáveis pela vitória nas últimas eleições, grupos organizados que cobriram o país exaltando o fortalecimento do mito mudancista que traria a nova política para o Brasil carcomido pelo cupim do elitismo e da corrupção, cresce o mau-humor.

Estão mal-humorados. Com o governo. Com o chefe do governo, Com o guru do governo. Com a base do governo. Com a reforma da previdência do Governo. Com a paralisia do governo...

Uma revista semanal de circulação nacional trouxe estampada na capa da edição desta semana uma questão que a todos nós deve interessar: por que as vozes conservadoras estão se voltando contra Bolsonaro.

Uma questão complexa, mas que já havia sido colocada ainda durante a campanha eleitoral do ano passado por todo mundo que não queria de jeito nenhum votar em Bolsonaro.


E esse “todo mundo” não queria de jeito nenhum por uma razão muito simples: aquele era um quadro político inservível aos propósitos minimamente saudáveis da nação quanto ao enfrentamento de uma crise monumental. Crise que de marolinha passou a ser tsunâmica.

Era contra o voto no ex-capitão não só porque se tratava de um extremista adepto do ódio pelo ódio, personalidade com trejeitos de psicopata que defendia a tortura e se exprimia preferencialmente através de clichês preconceituosos.  

Mas principalmente devido à baixíssima qualidade da política por ele exercida. 


Militância a do então candidato à Presidência que teve como consequência concreta a formação de uma oligarquia familiar.

Uma oligarquia que se vinculou a milícias no Rio de Janeiro numa promiscuidade temerária. Uma oligarquia parceira de notórios criminosos. Os oligarcas filhos do presidente da República trabalharam e continuam a atuar sempre no sentido de o grupo aprofundar suas raízes: no ódio, na intolerância, no preconceito, no extremismo. Um deles é investigado por corrupção.

Mas para não contrariar totalmente o filósofo Rosset, se não exibimos nossa proverbial alegria, estamos mais do que nunca armados com um sentido agudo de catástrofe iminente.

Uma catástrofe de dupla possibilidade: a derrubada de um presidente democraticamente eleito; a derrubada da democracia pelo presidente democraticamente eleito.

No caso da primeira hipótese ela aconteceria por força da inapetência democrática do presidente que cairia arrastado por incompetência multiplica: política, administrativa, social, cultural... Dificilmente teriam as forças democráticas representadas pela Câmara e pelo Senado como conter o avanço dos generais hoje no poder imbuídos de evitar a volta da esquerda ao poder.

No caso da segunda hipótese ela aconteceria também por força da inapetência democrática do presidente. Aí, ele teria sido capaz de articular os generais hoje no governo para fechar o Congresso e enquadrar o STF de modo a governar sem o toma lá dá cá da velha política. E teríamos então a nova versão da velha política ditatorial dos anos 1930-40 e dos anos 1960-80.

É de se pensar na responsabilidade do Congresso Nacional por esse sentimento de catástrofe iminente que nos assedia. E também na responsabilidade direta do presidente da República e dos seus principais assessores e ministros.

No que respeita ao Congresso, estão a Câmara e o Senado mais uma vez empenhados em fazer valer a Lei de Gérson. Para tanto permanecem entoando aquele trecho emblemático da oração de São Francisco: é dando que se recebe.

Quanto ao presidente da República e companhia limitada, passa ao largo do horizonte da turma, um misto de neófitos, aproveitadores e incompetentes, definir uma agenda política capaz de atrair o apoio da população. Ao contrário: o que propõem é um pudim de fel com uma receita obscura. Daí esse gosto ruim de catástrofe que dança do palato à nossa língua solta pela indignação. 

Não podemos engolir essa bucha. O Brasil dá tratos à bola para encontrar o melhor caminho nessa hora tão escura. Ditadura, no entanto, não é o caminho melhor.

sábado, 18 de maio de 2019

SNOWDEN, CONSCIÊNCIA E DEMOCRACIA

WALTER GALVÃO - O filme “Snowden” (2016), de Oliver Stone, chegou à telinha paga do canal Netflix. Recomendável sob muitos aspectos. Beleza. Verdade. Intensidade. Historicidade. Dramaticidade.

O filme é Hollywood, em um dos seus bons momentos, mas é cinemão com seus apelos tradicionais, sem renunciar à crítica. Do poder. Poder social, pessoal, interpessoal, psíquico, poder pelo poder...

Analisa com pinças gigantescas de curiosidade certos núcleos psicológicos insondáveis da natureza humana.

Verifica da natureza humana, com escafandro crítico, vivências coletivas e medos grupais.
Observa ansiedades comuns a grupos sociais frente a características específicas das sociedades hipermidiatizadas: conflitos de identidade, direito à privacidade, obstrução do acesso à verdade… Questionamentos ao tempo, essa esfinge de mil caras.
O que nos motiva a servir? O próximo? O enlace moral construído pela consciência da necessidade da vida produtiva em comunidade?

Evoco então “Discurso da servidão voluntária”. Há uma pergunta que não quer calar nesta obra clássica de Étienne de La Boétie lançada em 1571. Queremos servir porque na verdade queremos mandar? A ambição é que nos motiva? Há no filme muitos lances a respeito desse dilema.

Que razões nos impelem ao patriotismo? Seria o patriotismo o último refúgio dos canalhas, como na frase de Samuel Johnson? Ou na verdade o patriotismo é um sentimento elevado originário do amor ao lugar a que pertencemos, lugar qual amamos?

“Snowden”, com seu humor recheado de melancolia, é drama histórico à altura da obra de um diretor que tenta passar os Estados Unidos a limpo.

Stone consegue o seu intento ao narrar histórias com a percepção dos especialistas em nervos expostos, emoção à flor da razão, sentimentos dosados racionalmente para impactar sem querer hipnotizar as gerais. Muito pelo contrário.

Atento observador da história contemporânea, o cineasta leva ao grande público narrativas questionadoras do status quo do liberalismo na economia quaternária pós-atômica. Algumas são recheadas de memórias familiares, como no caso do belo e trágico “Wall Street”. Nesse filme, a vida do pai do cineasta é metro emotivo que desencadeia reflexões sobre poder, dinheiro, manipulação, fraude e redenção.

Com “Snowden” ele percorre a trilha que leva alguém, no caso o ex-agente da CIA Edward Snowden, do conforto de suas metas para realização pessoal, a partir de cristalizações equivocadas sobre a realidade em que vive, ao colapso da decepção ativada pelo desvelamento de um ideal transformado em pesadelo.

O país pelo qual ele estava disposto a sacrificar a vida, na verdade está se lixando para o sacrifício altruísta de jovens que despedaçam pessoas e são despedaçadas por bombas de cobiça em meio a guerras injustificáveis.

O país que ele pensava ser guardião dos direitos individuais de cidadãos protegidos por leis invioláveis, na verdade havia construído, com ajuda de jovens idealistas como ele, um aparato gigantesco para bisbilhotar a vida de todo mundo dando pontapés nas leis, atropelando princípios democráticos e a privacidade de cidadãos no mundo inteiro.

Há nítida heroificação do ex-espião que vazou informações secretas para a imprensa atualmente vivendo na Rússia. Mas há brechas em que observamos voos de galinha de uma personalidade à beira da distimia que se acredita um guerreiro em voo de condor. Estou me referindo a uma percepção pessoal construída em pouco mais de duas horas, o tempo do filme, da personagem construída por Stone. Personalidade que opera emocionalmente por meio de fetichização de segredos de Estado e do fascínio pela ordem militarista, sua forma, sua ideologia, sua concepção de estruturação, controle e manutenção dos meios de dominação.

Noutro círculo, mais amplo, o herói peregrina em lodaçal de promiscuidade. É promiscuidade pura a relação das forças de segurança e inteligência estadunidenses com as empresas de tecnologia de uso massivo, corporações como a Dell, Google e Facebook.


Stone sendo Stone. Snowden, ao final de sua trajetória da contratação pela CIA até a denúncia da invasão de dados no mundo inteiro pelos EUA, rompeu a fase de crisálida ansiosa por dar tiros e acessar segredos com crachá do Estado e se firmou como alguém que realizou a meta de “servir ao meu país”. Ele assumiu cidadania democrática contra cinismo institucional e mentira políticas em defesa do país que o quer atrás das grades. Mas hoje, o fugitivo que perturbou o sistema mundial em defesa do direito à privacidade está na Rússia. Troféu e refém de Putin. Pulou da frigideira para o fogo. Essa situação dá um filme.  

quarta-feira, 8 de maio de 2019

LICENÇA PARA MATAR

WALTER GALVÃO - A autoridade política máxima da nação declarou que pretende fazer com que uma lei seja aprovada isentando de culpa quem atirar nos invasores de terras.

Não disse com todas as letras, mas eu ouvi a declaração assim: quando homens, mulheres e crianças do movimento dos sem terra invadirem uma fazenda improdutiva qualquer, será isento de qualquer responsabilidade o proprietário que mandar matar os invasores.

Isso porque, na visão da autoridade máxima, repito, a propriedade é sagrada. Ou seja: a propriedade está acima da vida.

Mas não era Deus acima de tudo? Talvez eu não tenha entendido que para ele Deus é uma propriedade muito particular de quem acredita que está acima de todos.
O Brasil que se prepare. Vem um banho de sangue ainda maior por aí. Digo maior porque o sangue que está escorrendo nas valas do conflito pela posse de terras no Brasil de agora não é pouco.

– Até hoje eu não entendi, um segurança olhou para o outro e sorriu aquele riso de deboche e começaram a atirar. Eu corri por oito metros, caí, e corri por mais oito até me jogar no chão, nem em filme eu vi tanto tiro, acho que foram quinze minutos só com eles atirando e nós correndo.

O depoimento acima foi divulgado pela imprensa no dia 14 de janeiro de 2019. É praticamente uma notícia de ontem.                                                                                                                              O depoimento é de alguém que viu a morte de perto e escapou por pouco.
Valmir Nunes Januário, posseiro em Colniza, Mato Grosso, conta a história ainda sentindo na carne a ardência do chumbo que o atingiu nas costas enquanto fugia da chuva de bala sobre ele e outras pessoas num acampamento improvisado da fazenda ocupada em que produziam café.
Eliseu Queres, amigo de Valmir, não teve a mesma sorte: “O barraco dele ficava a um barraco do meu”, disse Valmir enquanto Eliseu era sepultado com o corpo cheio de chumbo.

A imprensa local registrou:

“Em menos de 24 horas, o juiz Alexandre Sócrates Mendes mandou soltar os suspeitos sob a alegação de que agiram em legítima defesa da propriedade”.

Sempre a propriedade. Sobre ela, a Constituição brasileira dispõe: O direito de propriedade consiste no uso, gozo, usos e frutos e dispor  do bem, e de reavê-lo, de alguém que ilicitamente ou ilegalmente esteja em posse.

Mas ressalta: Toda propriedade deve seguir a função social do imóvel.

Os conflitos explodem, as armas são carregadas, as vítimas se transformam em alvos, os cadáveres se amontoam quando a propriedade se transforma em mais um ativo inativo a robustecer fortunas que se multiplicam na ciranda do rentista.

A miséria, o desamparo, a fome à beira da terra que ninguém utiliza na perspectiva da constituição impulsionam o ato temerário da invasão.

É claro que o dono de uma área improdutiva ao ler frases como essa do parágrafo anterior a este se enfurece e gostaria de perguntar a quem a pronunciou ou escreveu: e se a terra fosse sua, herdada na forma da lei, coisa que se destina aos seus herdeiros?

Eu só saberia responder com as imagens da memória. Memória do tempo em que foram assassinadas pessoas que se preocuparam em responder a questões como essa sobre terra, herança e acumulação de riquezas.

Gente como a irmã Dorothy Stang, gente da importância de Margarida Maria Alves, mulheres preocupadas em garantir a transformação de terras improdutivas em áreas produtoras de comida para quem tem fome.

Contra a fome dos seus vizinhos e de companheiros de sina praticamente escravizados de enxada na mão é que se insurgiu o camponês João Pedro Teixeira fundador da Liga de Sapé e morto em nome da propriedade em 1962. A mesma propriedade que, tantos anos depois, se prepara novamente para matar. Com um diferença: matar com autorização expressa do Estado. Que horror...