WALTER GALVÃO - O filme “Snowden” (2016), de Oliver Stone, chegou à telinha paga do canal Netflix. Recomendável sob muitos aspectos. Beleza. Verdade. Intensidade. Historicidade. Dramaticidade.
O filme é Hollywood, em um dos seus bons momentos, mas é cinemão com seus apelos tradicionais, sem renunciar à crítica. Do poder. Poder social, pessoal, interpessoal, psíquico, poder pelo poder...
Analisa com pinças gigantescas de curiosidade certos núcleos psicológicos insondáveis da natureza humana.
Verifica da natureza humana, com escafandro crítico, vivências coletivas e medos grupais.
Observa ansiedades comuns a grupos sociais frente a características específicas das sociedades hipermidiatizadas: conflitos de identidade, direito à privacidade, obstrução do acesso à verdade… Questionamentos ao tempo, essa esfinge de mil caras.
O que nos motiva a servir? O próximo? O enlace moral construído pela consciência da necessidade da vida produtiva em comunidade?
Evoco então “Discurso da servidão voluntária”. Há uma pergunta que não quer calar nesta obra clássica de Étienne de La Boétie lançada em 1571. Queremos servir porque na verdade queremos mandar? A ambição é que nos motiva? Há no filme muitos lances a respeito desse dilema.
Que razões nos impelem ao patriotismo? Seria o patriotismo o último refúgio dos canalhas, como na frase de Samuel Johnson? Ou na verdade o patriotismo é um sentimento elevado originário do amor ao lugar a que pertencemos, lugar qual amamos?
“Snowden”, com seu humor recheado de melancolia, é drama histórico à altura da obra de um diretor que tenta passar os Estados Unidos a limpo.
Stone consegue o seu intento ao narrar histórias com a percepção dos especialistas em nervos expostos, emoção à flor da razão, sentimentos dosados racionalmente para impactar sem querer hipnotizar as gerais. Muito pelo contrário.
Atento observador da história contemporânea, o cineasta leva ao grande público narrativas questionadoras do status quo do liberalismo na economia quaternária pós-atômica. Algumas são recheadas de memórias familiares, como no caso do belo e trágico “Wall Street”. Nesse filme, a vida do pai do cineasta é metro emotivo que desencadeia reflexões sobre poder, dinheiro, manipulação, fraude e redenção.
Com “Snowden” ele percorre a trilha que leva alguém, no caso o ex-agente da CIA Edward Snowden, do conforto de suas metas para realização pessoal, a partir de cristalizações equivocadas sobre a realidade em que vive, ao colapso da decepção ativada pelo desvelamento de um ideal transformado em pesadelo.
O país pelo qual ele estava disposto a sacrificar a vida, na verdade está se lixando para o sacrifício altruísta de jovens que despedaçam pessoas e são despedaçadas por bombas de cobiça em meio a guerras injustificáveis.
O país que ele pensava ser guardião dos direitos individuais de cidadãos protegidos por leis invioláveis, na verdade havia construído, com ajuda de jovens idealistas como ele, um aparato gigantesco para bisbilhotar a vida de todo mundo dando pontapés nas leis, atropelando princípios democráticos e a privacidade de cidadãos no mundo inteiro.
Há nítida heroificação do ex-espião que vazou informações secretas para a imprensa atualmente vivendo na Rússia. Mas há brechas em que observamos voos de galinha de uma personalidade à beira da distimia que se acredita um guerreiro em voo de condor. Estou me referindo a uma percepção pessoal construída em pouco mais de duas horas, o tempo do filme, da personagem construída por Stone. Personalidade que opera emocionalmente por meio de fetichização de segredos de Estado e do fascínio pela ordem militarista, sua forma, sua ideologia, sua concepção de estruturação, controle e manutenção dos meios de dominação.
Noutro círculo, mais amplo, o herói peregrina em lodaçal de promiscuidade. É promiscuidade pura a relação das forças de segurança e inteligência estadunidenses com as empresas de tecnologia de uso massivo, corporações como a Dell, Google e Facebook.
Stone sendo Stone. Snowden, ao final de sua trajetória da contratação pela CIA até a denúncia da invasão de dados no mundo inteiro pelos EUA, rompeu a fase de crisálida ansiosa por dar tiros e acessar segredos com crachá do Estado e se firmou como alguém que realizou a meta de “servir ao meu país”. Ele assumiu cidadania democrática contra cinismo institucional e mentira políticas em defesa do país que o quer atrás das grades. Mas hoje, o fugitivo que perturbou o sistema mundial em defesa do direito à privacidade está na Rússia. Troféu e refém de Putin. Pulou da frigideira para o fogo. Essa situação dá um filme.

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