Lobão
assumiu publicamente o sufoco das escolhas infelizes. Fez um barulho danado.
Está nas paradas do insucesso. Insucesso político. Quanto ao artístico, o
músico colhe o que plantou com coragem. Fez-se estrela independente no universo
das gravadoras globalizadas, empresas sempre de olho nas paradas.
Do
insucesso, Lobão amarga o mofo no pão do sanduíche. O recheio do sanduba?
Bolsonaro ao pesto de intolerância.
Agora,
cospe o prato que escolheu. O alimento, que pensava democrático, engasga. É
maçã tóxica na garganta do polemista que sufoca à espera de um beijo político
redentor. Sufoca, mas reage. Solta o verbo. Fala contra si mesmo, um atingido
por markecídio ideológico; fala contra o governo federal, a expressão
contorcionista da incompetência, contra grupos sociais em persistente
enamoramento frente à truculência no poder, os assediados pela síndrome de
Estocolmo. Esse microcolapso nos provoca a refletir sobre o tempo e a gente.
Lobão, numa
perspectiva pós-nietzschiana, seria uma persona representativa do
ressentimento. Simboliza uma transvaloração, vide “Genealogia da moral”. O que
antes era bom agora é ruim. E o ressentimento geralmente vem em camadas:
emocional, existencial, político, artístico...
E aqui se
destaca a diferença entre persona e personalidade estabelecida por certas
vertentes da psicologia. Todo mundo sabe. Digo a quem ainda desconhece, ou
esqueceu.
Persona no
sentido grego: máscara. Jung afirma, é estrutura personal apresentada como o
real do ser, mas não passa de uma simulação de certos complexos emotivos. Jogo
de cena para travessias cotidianas.
Personalidade
é aquela estrutura ampla, neuropsíquica, uma pororoca, encontro das energias
cerebrais e mentais, dos desejos e ansiedades com a teia das externalidades
embarcadas no outro. Teia no nosso caminho, teia nosso caminho tecida por nós,
complemento. Para o freudismo, seus componentes estruturais seriam id, ego e
superego.
De Lobão
estamos discutindo, portanto, a persona artística e o ressentimento.
Ressentimento: alguém já o comparou a uma constelação afetiva em meio à qual
nós contemporâneos flutuamos. Um flutuar desde a modernidade. Nele, boiamos
conscientes. Ressentimento, lagoa de carências e mal-estares: a angústia da
solidão, a incompletude do ser, e a finitude. A consciência da morte produz
desde o inconsciente um incômodo, há dor nisso, que em alguns casos ele se
transforma em agressividade.
O tema está
nas vitrines. Autores brasileiros têm peneirado significados com inteligência e
sensibilidade, como é o caso da psicanalista Maria Rita Kehl, autora de
“Ressentimento”; e do filósofo Luiz Felipe Pondé com “A era do ressentimento”.
Em Lobão, o
ressentido político faz aflorar o estético e o artístico, circunstância a nos
remeter a outro aspecto da questão: o debate sobre o engajamento da arte e o
conflito entre arte autônoma e a engajada.
Engajamento
neste caso quer dizer vinculação política explícita a determinado campo
ideológico e intentos confrontacionistas. De linguagens. Na moral. Não é propaganda, possível subordinação da
estética à instrumentalização da linguagem artística posta a serviço da
conquista de poderes, podres ou não.
A arte
engajada contrastaria com a arte autônoma.
Esta, uma arte definida pela autonomia do artista num exercício de
liberdade na fixação de um simbolismo perene. Aquela, ao contrário, seria
limitada por conveniências efêmeras, transitórias. Sobre o conflito, persiste a
atualidade de um ensaio que não se pode dispensar quando o debate se estabelece:
“Engagement” (1962), de Theodor Adorno: “A obra de arte engajada desencanta o
que só pretende estar aí como fetiche, como jogo ocioso daqueles que
silenciariam de bom grado a avalanche ameaçadora, como um apolítico sabiamente
politizado”.
Engajados
seriam, nessa perspectiva, o próprio Lobão e nomes como os de Caetano Veloso e
Chico Buarque; Roberto Carlos e Roberta Miranda estariam no campo dos
autônomos. Mas Adorno garante que essa demarcação é artificial, ambas têm
características comuns.
Na Paraíba,
me ocorre agora o nome do artista Flávio Tavares como vinculado à militância
política de resistência, evoco o mural por ele recém-produzido. É manifesto
pleno de indignação. Confronta e discute a fatos da política nacional que
catapultaram Bolsonaro ao poder com aplauso e voto de Lobão. Este agora uiva um
grande não para a escolha que fez. Lobão tem razão?

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