sexta-feira, 24 de maio de 2019

A HORA MAIS ESCURA

























WALTER GALVÃO - No prefácio à edição brasileira de “A lógica do pior”, o filósofo francês Clément Rosset afirma que nós brasileiros exibimos “uma excepcional animação e alegria de viver, junto a um sentido agudo de catástrofe iminente”.

A análise se aplica ao momento se estamos a pensar sobre política, Estado, reformas, governabilidade e estabilidade. Aplica-se, mas parcialmente. Não identifico nos últimos dias os focos tradicionais das excepcionais animação e alegria de viver que nos caracterizam.

Era de se esperar que houvesse, nesses primeiros meses do novo grupo no Palácio do Planalto, exuberância de otimismo nas gerais, principalmente entre os que conseguiram no voto levar à Presidência da República o nome de sua preferência.

Mas até entre os que se consideram responsáveis pela vitória nas últimas eleições, grupos organizados que cobriram o país exaltando o fortalecimento do mito mudancista que traria a nova política para o Brasil carcomido pelo cupim do elitismo e da corrupção, cresce o mau-humor.

Estão mal-humorados. Com o governo. Com o chefe do governo, Com o guru do governo. Com a base do governo. Com a reforma da previdência do Governo. Com a paralisia do governo...

Uma revista semanal de circulação nacional trouxe estampada na capa da edição desta semana uma questão que a todos nós deve interessar: por que as vozes conservadoras estão se voltando contra Bolsonaro.

Uma questão complexa, mas que já havia sido colocada ainda durante a campanha eleitoral do ano passado por todo mundo que não queria de jeito nenhum votar em Bolsonaro.


E esse “todo mundo” não queria de jeito nenhum por uma razão muito simples: aquele era um quadro político inservível aos propósitos minimamente saudáveis da nação quanto ao enfrentamento de uma crise monumental. Crise que de marolinha passou a ser tsunâmica.

Era contra o voto no ex-capitão não só porque se tratava de um extremista adepto do ódio pelo ódio, personalidade com trejeitos de psicopata que defendia a tortura e se exprimia preferencialmente através de clichês preconceituosos.  

Mas principalmente devido à baixíssima qualidade da política por ele exercida. 


Militância a do então candidato à Presidência que teve como consequência concreta a formação de uma oligarquia familiar.

Uma oligarquia que se vinculou a milícias no Rio de Janeiro numa promiscuidade temerária. Uma oligarquia parceira de notórios criminosos. Os oligarcas filhos do presidente da República trabalharam e continuam a atuar sempre no sentido de o grupo aprofundar suas raízes: no ódio, na intolerância, no preconceito, no extremismo. Um deles é investigado por corrupção.

Mas para não contrariar totalmente o filósofo Rosset, se não exibimos nossa proverbial alegria, estamos mais do que nunca armados com um sentido agudo de catástrofe iminente.

Uma catástrofe de dupla possibilidade: a derrubada de um presidente democraticamente eleito; a derrubada da democracia pelo presidente democraticamente eleito.

No caso da primeira hipótese ela aconteceria por força da inapetência democrática do presidente que cairia arrastado por incompetência multiplica: política, administrativa, social, cultural... Dificilmente teriam as forças democráticas representadas pela Câmara e pelo Senado como conter o avanço dos generais hoje no poder imbuídos de evitar a volta da esquerda ao poder.

No caso da segunda hipótese ela aconteceria também por força da inapetência democrática do presidente. Aí, ele teria sido capaz de articular os generais hoje no governo para fechar o Congresso e enquadrar o STF de modo a governar sem o toma lá dá cá da velha política. E teríamos então a nova versão da velha política ditatorial dos anos 1930-40 e dos anos 1960-80.

É de se pensar na responsabilidade do Congresso Nacional por esse sentimento de catástrofe iminente que nos assedia. E também na responsabilidade direta do presidente da República e dos seus principais assessores e ministros.

No que respeita ao Congresso, estão a Câmara e o Senado mais uma vez empenhados em fazer valer a Lei de Gérson. Para tanto permanecem entoando aquele trecho emblemático da oração de São Francisco: é dando que se recebe.

Quanto ao presidente da República e companhia limitada, passa ao largo do horizonte da turma, um misto de neófitos, aproveitadores e incompetentes, definir uma agenda política capaz de atrair o apoio da população. Ao contrário: o que propõem é um pudim de fel com uma receita obscura. Daí esse gosto ruim de catástrofe que dança do palato à nossa língua solta pela indignação. 

Não podemos engolir essa bucha. O Brasil dá tratos à bola para encontrar o melhor caminho nessa hora tão escura. Ditadura, no entanto, não é o caminho melhor.

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