WALTER
GALVÃO - No prefácio à edição brasileira de “A lógica do pior”, o filósofo
francês Clément Rosset afirma que nós brasileiros exibimos “uma excepcional
animação e alegria de viver, junto a um sentido agudo de catástrofe iminente”.
A análise
se aplica ao momento se estamos a pensar sobre política, Estado, reformas,
governabilidade e estabilidade. Aplica-se, mas parcialmente. Não identifico nos
últimos dias os focos tradicionais das excepcionais animação e alegria de viver
que nos caracterizam.
Era de se
esperar que houvesse, nesses primeiros meses do novo grupo no Palácio do
Planalto, exuberância de otimismo nas gerais, principalmente entre os que
conseguiram no voto levar à Presidência da República o nome de sua preferência.
Mas até
entre os que se consideram responsáveis pela vitória nas últimas eleições,
grupos organizados que cobriram o país exaltando o fortalecimento do mito
mudancista que traria a nova política para o Brasil carcomido pelo cupim do
elitismo e da corrupção, cresce o mau-humor.
Estão
mal-humorados. Com o governo. Com o chefe do governo, Com o guru do governo. Com
a base do governo. Com a reforma da previdência do Governo. Com a paralisia do
governo...
Uma revista
semanal de circulação nacional trouxe estampada na capa da edição desta semana
uma questão que a todos nós deve interessar: por que as vozes conservadoras
estão se voltando contra Bolsonaro.
Uma questão
complexa, mas que já havia sido colocada ainda durante a campanha eleitoral do
ano passado por todo mundo que não queria de jeito nenhum votar em Bolsonaro.
E esse
“todo mundo” não queria de jeito nenhum por uma razão muito simples: aquele era
um quadro político inservível aos propósitos minimamente saudáveis da nação
quanto ao enfrentamento de uma crise monumental. Crise que de marolinha passou
a ser tsunâmica.
Era contra
o voto no ex-capitão não só porque se tratava de um extremista adepto do ódio pelo
ódio, personalidade com trejeitos de psicopata que defendia a tortura e se
exprimia preferencialmente através de clichês preconceituosos.
Mas principalmente devido à baixíssima qualidade da política por ele exercida.
Militância a do então candidato à Presidência que teve como consequência
concreta a formação de uma oligarquia familiar.
Uma
oligarquia que se vinculou a milícias no Rio de Janeiro numa promiscuidade
temerária. Uma oligarquia parceira de notórios criminosos. Os oligarcas filhos
do presidente da República trabalharam e continuam a atuar sempre no sentido de
o grupo aprofundar suas raízes: no ódio, na intolerância, no preconceito, no
extremismo. Um deles é investigado por corrupção.
Mas para
não contrariar totalmente o filósofo Rosset, se não exibimos nossa proverbial
alegria, estamos mais do que nunca armados com um sentido agudo de catástrofe
iminente.
Uma
catástrofe de dupla possibilidade: a derrubada de um presidente
democraticamente eleito; a derrubada da democracia pelo presidente
democraticamente eleito.
No caso da
primeira hipótese ela aconteceria por força da inapetência democrática do
presidente que cairia arrastado por incompetência multiplica: política,
administrativa, social, cultural... Dificilmente teriam as forças democráticas
representadas pela Câmara e pelo Senado como conter o avanço dos generais hoje
no poder imbuídos de evitar a volta da esquerda ao poder.
No caso da
segunda hipótese ela aconteceria também por força da inapetência democrática do
presidente. Aí, ele teria sido capaz de articular os generais hoje no governo
para fechar o Congresso e enquadrar o STF de modo a governar sem o toma lá dá
cá da velha política. E teríamos então a nova versão da velha política
ditatorial dos anos 1930-40 e dos anos 1960-80.
É de se
pensar na responsabilidade do Congresso Nacional por esse sentimento de
catástrofe iminente que nos assedia. E também na responsabilidade direta do
presidente da República e dos seus principais assessores e ministros.
No que
respeita ao Congresso, estão a Câmara e o Senado mais uma vez empenhados em
fazer valer a Lei de Gérson. Para tanto permanecem entoando aquele trecho
emblemático da oração de São Francisco: é dando que se recebe.
Quanto ao
presidente da República e companhia limitada, passa ao largo do horizonte da
turma, um misto de neófitos, aproveitadores e incompetentes, definir uma agenda
política capaz de atrair o apoio da população. Ao contrário: o que propõem é um
pudim de fel com uma receita obscura. Daí esse gosto ruim de catástrofe que
dança do palato à nossa língua solta pela indignação.
Não podemos engolir essa
bucha. O Brasil dá tratos à bola para encontrar o melhor caminho nessa hora tão
escura. Ditadura, no entanto, não é o caminho melhor.
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