quinta-feira, 7 de novembro de 2019

VIBRAÇÕES MUSICAIS


WALTER GALVÃO - Ouvi o cantor e artista gráfico paraibano Pedro Índio Negro no programa Aumenta, da rádio Tabajara. O jovem artista é um velho mago poeta. Lança contra a parede da sensibilidade do mundo fenomênico um punhado de compassos, notas musicais e vocalizações. Assim, sem amarras, no atrito explosivo da organização harmônica desses elementos, o músico liberta texturas rítmicas e desenhos melódicos que expressam a grandeza sempre renovada da música. 
Pedro Índio, uma voz em êxtase contido na medida certa, vibratos e aspirações diafragmáticas unidos num plasma interpretativo que implanta territórios virgens nos mapas do nosso ouvido musical e produz novas paisagens timbrísticas. 
Diria que a sua performance de agudos poderosos e nuances aveludadas com síncopas adequadas no blues e no samba, incluindo a prática de sutilezas rascantes de rock  e outros fervores estilísticos, situa-se entre Rael e Seu Jorge, um campo de expressão vocal de alta vibração identitária, músicos com a posse plena de suas possibilidades comunicativas e poéticas.  A música brasileira, nas mãos desse povo, nunca esteve tão bem. 

Nova Era
Do diário da Era Kanye West. Registro da galáxia AmarElo de Emicida. O autor lança seu novo álbum contra o estereótipo, a estigmatização. O rapper. A batida. O estado de transe, a declamação que é uma rua iluminada, declamação navalhada, fala reta, traço firme. 
O Brasil na batida da música do mundo. A pancada.  Contradições. O artista de “AmarElo” artefato em negação no sistema de produção capitalista. Na Era West da metaostentação, da dialética não-sim-não, guerrilha retórica, a peste no rádio, hip hop na praça, a grana no banco, a morte inteira na vida dos manos por todo canto. 
O rapper à cata de sucesso ou na recolha dos cacos da revolução? Ele  fala, diz sobre a fome, fome para arregaçar como um ciclone. 
Emicida afirma que perder não é opção. Não é de agora essa transa de afirmação da resistência na música brasileira. Onde está Edson Gomes nessa hora crucial? Na sala de estar de Kanye entoando “Jesus walks”. Será o caso?  Ou certamente já de posse do novo álbum “Jesus is king”. Não percam mais coisas na próxima página do diário da Nova Era. Era Kanye West. Era Bacurau.

Momento Scorsese 1
Escutei algo do novo som de Kanye, o cara que descaradamente acha Trump o cara. O que ouvi tinha o brilho dos cristais que só os corais dedicados ao sagrado emitem. Mas eu não estava na igreja do artista. Foi no momento exato em que a mim chegou via WhatsApp um post de Paris. Direto do Museu Delacroix. 
O rapper seria o Eugène Delacroix do hip hop? Confesso que tal questão me ocorreu. Seria ele um avatar retardatário do romantismo? Não faltam intensidade,  exuberância, furor, paixão e egolatria nos seus temas que não passaram despercebidos a Delacroix. Temas acariciados pelo toque de midas do rapper produtor. Um dos momentos mais Scorsese da música contemporânea encontrei ao ver domingo fatias de um show em Times Square de Alicia Keys, fada de Nova York. Sim. E isso tem tudo a ver com o Delacroix Trump do hip hop dos EUA.

Momento Scorsese 2
Alicia Keys, como é do conhecimento amplo, geral e irrestrito na conexão sampler soul-rap, rock e rhythms and blues foi imantada no início da carreira pela arte de Kanye. O rapper, como o cineasta Scorsese, está em busca da sacralidade do precedente, a fina estampa da pureza de origem. O que há de África no suor da ginga do rap. “Mama África”.  
O toque originário West ainda está lá nas asas que a garganta de Alicia exibe, apesar do voo solo absoluto da também pianista e autora.  O que classifico de “Momento Scorsese” do show a que me referi acontece quando Alicia divide a cena com John Myers e também com Jay Z. E como é esse momento? De grande radicalidade poética, entrega total do artista à arte, rito de renúncia e perdição em meio ao qual a beleza desafia a razão. Vejam Alicia Keys cantando com eles. E aprendam sobre a liberdade abstrata da alma. Eu aprendi. 

Lirismo em campo minado
O mar do viver urbano não está pra peixe, há muito ódio armado derramado, feminicídio pisoteando os corais dos dias, há direitosfobia no ar.  Esse material forma um óleo-veneno que escorre de um porão qualquer no inconsciente do nosso pacto civilizatório globalizado. Ódio e balas em Hong Kong, ódio e balas no Chile, balas e ódio no sertão até onde nossa vista alcança. Apesar de tudo, há música. “A vida sem música seria um erro”, professa Nietzsche. 

Por isso temos, ainda bem, a Flotilha em Alta-terra. Para dizer da vida certa das canções. Flotilha, a banda paraibana que não cessa de ser lírica. É assim que ouço a sua música agora. Lírica. Ecológica. Entre Green Days e os blues de Cazuza.  

UNIVERSO MARVEL

WALTER GALVÃO - Estou entre os que consideraram um punhado de vidro ralado nos olhos o ataque de Martin Scorsese aos filmes da Marvel.
Vi a notícia primeiro no blog de Sílvio Osias, crítico de música e de cinema, certamente o cara que mais entende de telejornalismo, o que inclui edição de imagens, ritmo de corte,  sentido e representação de montagem, de sua geração.
O título da postagem de Sílvio: “Filmes da Marvel não são cinema. Quem disse foi Martin Scorsese”.
Fui ler na hora mastigando o amargor do espanto, o fel de uma acusação que considero injusta e totalmente descabida.
O genial Scorsese declarou: “Eu não vejo. Eu tentei, sabe? Mas aquilo não é cinema. Honestamente, o mais próximo que consigo pensar deles, por mais bem feitos que sejam, com os atores fazendo o melhor que podem sob as circunstâncias, são os parques temáticos”. 
Não me contive e enviei a seguinte postagem para o canal no WhatsApp de Sílvio:
“A ideia de cinema como parque de diversões permeia ‘Hugo Cabret’ (filme de Scorsese). Além disso, no caso da Marvel, trata-se de uma tradução do universo das HQs, o que gera uma plasticidade específica que expande a linguagem cinematográfica. O fato de Baremboim (digitei errado o nome de Daniel Barenboim, maestro e pianista argentino radicado em Berlim) dizer que Rick Wakeman não é um concertista não reduz o talento de Wakeman. Achei a declaração igual à de Bituca sobre a MPB”.
Sílvio, discreto e avesso a polêmicas, respondeu com um singelo “Eita!”
Isso foi no dia sete de outubro. No dia nove, novo texto no blog sobre o caso: Título: “Fãs da Marvel fazem comentários hilários sobre Martin Scorsese”. No texto, a definição: “A crítica dele é legítima. Necessária por vir dele. Scorsese merece respeito. Muito respeito”.
Minha postagem para Sílvio:
“É o caso de Maria Valéria Rezende dizer que Paulo Coelho não é escritor… respeito. Mas confesso que gosto da Marvel, e não de Paulo Coelho”. Os filmes são esquemáticos e repetitivos como compassos de rock, telenovelas e... HQs. Funcionam por isso.  
A essa altura do campeonato, a briga já era universal, com muita gente se metendo, fãs, como eu, e celebridades.
Renato Félix, jornalista, crítico e professor de cinema que está entre os que sabem quase tudo (quem sabe tudo mesmo é João Batista Barbosa de Brito, sem demérito para Renato e outros do campo) da sétima arte, anotou no Correio da Paraíba o fato irônico de o diretor do clássico “Taxi driver” disparar seu míssil  teleguiado contra os tais “parques temáticos” justamente quando um filme que retrata um vilão das HQs, “Coringa”, conquista o Leão de Ouro no festival de Veneza. Não é um filme do Marvel Cinematic Universe (MCU), mas é da família. Mostra a infância e a juventude do arquiinimigo de Batman.
Há uma transversalidade no fato crítico, a origem do tema do filme premiado, que deixa no ar a ideia de que Scorsese repete diante do MCU a indignação de outro gênio, o poeta e artista plástico Charles Baudelaire, que declarou em documento escrito: “Estou convencido de que o progresso mal aplicado da fotografia muito contribuiu, como aliás todo progresso puramente material, para o empobrecimento do gênio artístico francês, já tão raro”.
Scorsese, no entanto, propõe importante e oportuna discussão sobre a especificidade do real cinematográfico. Impõe-se, então, a questão do realismo naturalista de André Bazin como expressão desse real em confronto com a teoria da formatividade que privilegia a montagem na estética fílmica defendida por Béla Balázs, polêmica que permeia a discussão teórica ainda hoje com repercussões na teoria dos cineastas, teoria da performatividade e o etnodrama.
Além disso, ao afirmar que “não é o cinema de seres humanos que tenta transmitir experiências emocionais e psicológicas a outro ser humano", Scorsese evoca a célebre coleção de ensaios de Ortega Y Gasset enfeixadas no livro “A desumanização da arte”. E relega ao campo do impróprio por desnaturado o hibridismo que comanda a relação homem-máquina (lembro agora o ensaio “Muito além do nosso eu”, de Miguel Nicolelis) não só na representação dos super-heróis, mas na própria condição de arte-indústria do cinema.

Do lugar de onde observo o cinema, compreendo ser os filmes da Marvel expressões legítimas da arte cinematográfica. O que configura uma obra de arte, o que garante a sua legitimidade e originalidade é a universalidade do objetivo, no caso da Marvel trata-se de fazer cinema a partir da mitologia dos super-heróis; a singularidade do método, os filmes têm roteiro, direção, atores, história; e a validação certificada da obra a partir da historicidade persistente dos pressupostos estilísticos: o Oscar concedido a “Homem Aranha no Aranhaverso” é a certificação, entre tantos outros conquistados pela Marvel. Os filmes da Marvel são cinema. Mesmo que o gênio Scorsese afirme que não. A polêmica continua...

HAROLD BLOOM


WALTER GALVÃO - Sábio neorromântico, apóstolo de circuitos classicistas e de perspectivas humanistas da razão e da sensibilidade, cultor da forma estética autossuficiente, mentor definitivo da bardolatria (foi devoto de Shakespeare), Harold Bloom morreu aos 89 anos na semana passada.
 O pensar literário crítico do mundo não perde fôlego, apesar da grande perda que a muita gente sufoca, perda que afeta o respirar de um vasto território de significações da cultura do nosso tempo: as conexões estéticas e o sentido da verdade, mente e linguagem em simbiose comunicativa, as trocas racionais e os voos transgressivos da poética desrealizando as hierarquias consagradas do dizer-fazer. 
Ao contrário, a morte do escritor que inovou a ensaística no século XX reivindicando a contemporaneidade dos fogos psicológicos românticos do século XIX - a autonomia do autor, inconformismo, esteticismo, a individualidade como expressão de liberdade, o  ceticismo irracionalista pós-iluminista que instaura a razão burguesa com a sua sentimentalidade escapista - há de fazer ecoar a agenda que ele propôs há exatos 60 anos, quando do lançamento de seu primeiro livro com o qual insuflou o oxigênio da inventividade nos pulmões da teoria literária.
Nesse primeiro livro, “Shelley's mythmaking” (1959), não conheço tradução no Brasil (interessados podem obter o livro neste link: encurtador.com.br/fgH48) ele investiga a partir da poesia de Percy Shelley (o romântico por excelência) a dimensão do humano. Coisa que ele faz a bordo de uma teoria da poesia centrada na sincronia, através de séculos de criação artística literária, do que chamo de intrapoético pangeracional, atitude geradora de uma intertextualidade transubstancial.
E o que seria isso, essa intertextualidade? Seria a conexão – ou amálgama - no mesmo campo temporal imaginativo de modelos lógicos e de fruição do sensível resgatados de nichos temporais diversos com suas consequentes âncoras de mentalidade.
O que me ocorre agora como figura mais simples para exemplificar tal conexão é o quadrado lógico das proposições opostas de Apuleio.
O filósofo, poeta e geômetra romano nascido no ano de 125 da nossa era, propôs o seguinte esquema de premissas: A-universal afirmativa (todo homem é mortal); E-universal negativa (nenhum homem é mortal); I-particular afirmativa (algum homem é mortal); O-particular negativa (algum homem não é mortal).
 A partir da proposta de Apuleio, apesar das mudanças na lógica, na retórica, na geometria e na gramática havidas desde a Roma antiga, o esquema operacional comutativo do quadrado mantém-se atual quanto à sua base lógica proposicional.
Para Bloom, o mitógrafo, gramático e diretor da biblioteca de Alexandria Calímaco (310 a.C- 240 a.C) é tão modernista quanto o romancista, poeta e contista James Joyce (1882-1941).
O autor de “O cânone ocidental – Os livros e a escola do tempo” disse num texto que o astrônomo e matemático grego Aristarco (310 a.C-230 a.C) é tão modernista quanto o crítico canadense Hugh Kenner (1923-2003).
Aristarco foi um dos primeiros a propor o heliocentrismo, o sol no centro do nosso universo, e Hugh Kenner foi o crítico que propôs para a poesia de Ezra Pound a condição de centralidade absoluta na linguagem da poética moderna, sol desconsiderado por Bloom que viu enquanto figura central de qualquer escola, estilo ou época no âmbito do Ocidente a obra de Shakespeare.  
A partir de tripla certeza: centralidade, transtemporalidade e contemporaneidade de Shakespeare, ele estruturou sua polêmica proposta de um cânone ocidental tendo o bardo como referência principal.
E fundamentou uma teoria da poesia que se completa, segundo ele mesmo explica em “A angústia da influência – Uma teoria da poesia”, a partir do sentido antitético que permeia a obra fundamental de Nietzsche enquanto verificação eficiente das convenções do estético, e expandindo as perspectivas de Freud na análise do fazer criativo dos poetas.
Esse plano sincrônico em que Bloom posiciona autores de épocas diferentes para compor um padrão estético específico de realização poderia remeter o seu método à antropologia estrutural que identifica estruturas universais do pensamento. Mas juntamente com Paul De Man, Geoffrey Hartman e J. Hillis Miller ele compôs na Universidade Yale o núcleo duro nos EUA da desconstrução teorizada pelo francês Jacques Derrida. Sua crítica, portanto, adere ao desconstrucionismo no sentido de se abastecer das zonas de fronteira de todos os territórios. Podemos dizer que Bloom, que incluiu Machado de Assis, como fez antes nos EUA a crítica Helen Caldwell, entre os gênios literários da humanidade, foi uma mistura de Oswald de Andrade, Antonio Cândido e Eduardo Portela. Para Edward Said, ele superou as amarras do criticismo. Terry Eagleton sinalizou para o peso do cristianismo em sua obra. O que Bloom disse da obra dos gênios se aplica à dele próprio: exuberância, intensidade e loucura.  


SOLHA E O LABIRINSTMO

WALTER GALVÃO - O romancista, poeta, ator, dramaturgo e artista visual W. J. Solha, em seu novo livro “Vida Aberta - Tratado Poético-Filosófico” (Editora Penalux, Guaratinguetá, 2019) trama a conquista de uma improvável façanha. Ele quer tudo ao mesmo tempo agora. Provocação e maravilhamento, transcendência e facticidade, dialética e metafísica. Busca reduzir à imediatidade, a uma sincronicidade, o legado histórico da retórica ocidental.
E aqui, a retórica tem o sentido que se apresenta em “Retórica geral” (Cultrix e Editora da USP, 1974), de autoria dos integrantes do Grupo µ (da letra grega µ, inicial de metáfora), grupo de belgas dedicados à pesquisa linguística relacionada à semiótica.
A obra coletiva e o grupo inauguram nos anos 1970 uma nova perspectiva à poética: uma ciência geral das formas literárias. O sentido da retórica que buscamos no livro de Solha, portanto, é o da expansão do paradigma poético.  E isso a partir de trocas principiológicas das substâncias da poesia e da filosofia que acontecem no tratado-poema.
Inaugura-se com São Tomás de Aquino (1225-1274) uma plataforma conceitual para a convergência dos gêneros. Para Aquino, ratificando Aristóteles, poeta e filósofo extraem suas atividades do mirandum.  A palavra latina tanto traduz o que se admira, o que causa espanto, quanto o que transcende o concreto. Reafirma-se no poeta e filósofo brasileiro Antonio Cícero, principalmente em seu livro “Poesia e filosofia”, a argumentação contra Aquino sobre a incompatibilidade entre prática poética e prática filosófica.
Um dos pontos centrais do livro de Cícero está na afirmação de que o discurso poético não é proposicional. Mas como não pensar no poema enquanto operação de lógica proposicional com seus atributos inerentes ao ato de pensar a verdade dos fatos? No paradigma da prática poética moram tanto as razões do sentir empático quanto os prazeres do conhecer os fundamentos das coisas.
E aqui, com a licença de quem não se interessa muito por aspectos mais técnicos da crítica, somos obrigados a abrir só um pouquinho mais a gaveta teórica. Paradigma na perspectiva da análise da poesia é um sistema alternativo de organização sistêmica de morfemas. Ao nível da linguística, morfema enquanto reunião das bases flexionadas de um mesmo radical (canto, cantas, cantei, cantado), e, ao nível do estruturalismo, um processo de distribuição imaginativa num plano de figuração das qualidades fonológicas, morfológicas e semânticas da palavra.
“Vida aberta” coleciona, sob o impacto do martelo nietzschiano de Solha forjando êmbolos retóricos autônomos, os principais objetos de conhecimento artístico de vários povos através dos tempos. O livro ostenta essa bela, quimérica e enigmática ambição do ser da imaginação poética: realizar a síntese relacional simbólica totalizante.
A respeito desse idealismo holístico radical hegeliano que impregna o método composicional de Solha nessa obra, opino que lhe pertence a ambição de apreender com o pensamento todo o espírito e a fenomenologia do ato histórico (linguístico) no espaço-tempo. Como se fosse possível à razão estruturada em linguagem, e esta realizada em qualquer gênero discursivo - romance, poema, tratado… -  sistematizar e integrar, num mesmo compósito significacional, coisas díspares como impulsos eletroquímicos que no cérebro estimulam a figuração dos sonhos e a pressão ambiental que no ventre da terra organiza os átomos do cristal na trama geométrica que o caracteriza.
Melhor dizendo: como se fosse possível numa obra de arte fazer um texto soar como uma sonata e certa imagem transmitir a experiência tátil de um abraço. Em síntese minimalista, elementar: promover reflexão, uma tipicidade da arte, com a observação filosófica dos atos da vida; e estabelecer um saber, característica do discurso filosófico, por meio de um poema.  
Em “Vida aberta”, Solha derrama em mais de 100 páginas um poema misto de reflexão contemplativa da ebulição teórica que subjaz ao legado estético de várias civilizações, e trabalho artístico que sinaliza para possibilidades reflexivas do pensamento conceitual estruturante que gera, transforma e revoga princípios culturais.
O método para desvelamento da forma ora é similar ao de muralistas passionais a exemplo de Flávio Tavares e Diego Rivera, acompanha a cartografia empreendida por nomes como Eduardo Canabrava, faz ressoar a “Odisseia”, também a brasonaria sensitiva de Ariano Suassuna bem como o épico multifário de Ezra Pound, “Os cantos”, além de longos poemas a exemplo de “O guesa”, de Sousândrade, e “O poema sujo”, de Ferreira lugar. Mas está em “A vida passada a limpo”, de Carlos Drummond de Andrade, a maior semelhança desse livro de Solha que tanto é objeto sensível para o conhecimento como objeto de conhecimento para a sensibilidade, com outra obra de arte. A musicalidade e o ritmo emotivo possibilitado pela riqueza das rimas, as indagações ontológicas, as combinações lúdicas dos sentidos estão nos dois livros. Solha propõe em “A vida aberta”, permitam o neologismo, um labirinstmo: uma rede intrincada de percursos como num labirinto e ao mesmo tempo passagem, como num istmo, para a terceira margem do rio do saber. Poesia, filosofia, ser e tempo na senda místico-racional do fazer arte. 

MÚSICA E ATITUDE



WALTER GALVÃO - Com a seta ligada para a contestação crítica radical, o inca maia pigmeu Chico César, arteiro pró-inconformismo, armeiro da resistência à cacofonia tóxica da brigada fascistóide, César cancionista e poeta, trinca a cena musical com uma pedrada.

De seu novo disco “O amor é um ato revolucionário”, a canção “Pedrada” (“Cães danados do fascismo/babam e arreganham os dentes/sai do ovo a serpente/fruto podre do cinismo”) adrenalizou ao ponto de bestificar e paralisar uma emissora de televisão.

Disse Chico nas redes sociais que foi desconvidado a se apresentar na TV por causa dessa canção. 

Uma canção que é mais que isso, mas não é só também a manifestação militante da arte que se quer poder. 

Poder político da canção no sentido de conter, ser e estar na consciência ideológica do lugar histórico que ocupa, suas contradições e pressões contra e a favor das liberdades das verdades em chamas.

A arte será sempre um termo do real, expressão da subjetividade de quem cria e da sociedade em que se insere, conteúdo afetivo do pensar, expressão pública de uma vontade de dizer, mostrar, fazer um tipo de mundo acontecer. Trabalho, ideia e ideal.

A arte que se diz pela arte é política no sentido de ser inescapável a trama histórica e social que a perfaz.

A arte que se diz militante, engajada, representa a explicitação de uma vontade de poder traduzida em política. 

A política, que encontra a sua estética na performatividade do artista que a reivindica enquanto integrante do estatuto plural norteador do que produz, encontra na arte a dimensão moral e ética para o diálogo com a existência concreta agenciada pelo simbolismo da criação artística.

Chico César, esteta da política, político da canção, ao longo da obra que produz há mais de 30 anos, obra de uma densidade reflexiva mobilizada por invenção e ressignificação do melhor da nossa cultura moderna, sinaliza para o ser livre na contramão do preconceito. De pedra na mão, sempre que é preciso. 

O DONO DA IMAGEM
Com a seta ligada para o controle da imagem, o rapper Drake afrontou adoradores ao negar autorização para que o canal Multishow transmitisse a apresentação que fez  no Rock in Rio deste ano.

Antes de mais nada, impõe-se registrar a sensibilidade e o domínio técnico do artista enquanto mestre do gênero que pratica. 

Sua batida chiclete e os percursos realistas de suas letras, que discutem desde os malefícios da fama, as armadilhas da ganância e o quanto é ruim a falsa amizade, justificam o sucesso. 
   
Sobre o tema interdição e transmissão do show, na perspectiva de uma economia disruptiva e levando em conta o tribalismo global estruturado pela Internet, opino que a decisão de Drake foi uma queda conservadora.

Os fãs protestaram, com razão, na Internet. Afinal, compreendem que, na sociedade da conectividade plena, os grandes conteudistas de arte ancorados no mercado, como é o caso do ricaço rapper, sempre haverá uma janela para a fruição free. Janela que Drake sequer pensa em instalar. É o que parece nesse caso do show no Brasil.

Do ângulo de observação da monetização da arte, a decisão de Drake - remember David Bowie, 1997, direitos autorais transformados em ativos lançados no cassino, não do Chacrinha, mas de Wall Street - foi acertada  por desmobilizar o poder midiático que sempre quer pôr e dispor à revelia de quem cria suas vontades no tablado da produção, geração e distribuição dos conteúdos. Drake exclama em defesa do artista.

MAU HUMOR
Quando deusas malditas e asnos sagrados ficam de ressaca, a atmosfera degenera em tédio, o que geralmente motiva atitudes incompreensíveis, algumas tresloucadas, outras só equivocadas.
Mas nosso tema não atenta para os mismas tresloucados que capturaram o ego de Rodrigo Janot. E sim ao equívoco de Milton Nascimento ao dizer que a MPB está uma merda. Não está, e Bituca se desdisse numa manifestação de grandeza. Nossa música vai bem demais. Quem ouvir, verá.