quinta-feira, 7 de novembro de 2019

HAROLD BLOOM


WALTER GALVÃO - Sábio neorromântico, apóstolo de circuitos classicistas e de perspectivas humanistas da razão e da sensibilidade, cultor da forma estética autossuficiente, mentor definitivo da bardolatria (foi devoto de Shakespeare), Harold Bloom morreu aos 89 anos na semana passada.
 O pensar literário crítico do mundo não perde fôlego, apesar da grande perda que a muita gente sufoca, perda que afeta o respirar de um vasto território de significações da cultura do nosso tempo: as conexões estéticas e o sentido da verdade, mente e linguagem em simbiose comunicativa, as trocas racionais e os voos transgressivos da poética desrealizando as hierarquias consagradas do dizer-fazer. 
Ao contrário, a morte do escritor que inovou a ensaística no século XX reivindicando a contemporaneidade dos fogos psicológicos românticos do século XIX - a autonomia do autor, inconformismo, esteticismo, a individualidade como expressão de liberdade, o  ceticismo irracionalista pós-iluminista que instaura a razão burguesa com a sua sentimentalidade escapista - há de fazer ecoar a agenda que ele propôs há exatos 60 anos, quando do lançamento de seu primeiro livro com o qual insuflou o oxigênio da inventividade nos pulmões da teoria literária.
Nesse primeiro livro, “Shelley's mythmaking” (1959), não conheço tradução no Brasil (interessados podem obter o livro neste link: encurtador.com.br/fgH48) ele investiga a partir da poesia de Percy Shelley (o romântico por excelência) a dimensão do humano. Coisa que ele faz a bordo de uma teoria da poesia centrada na sincronia, através de séculos de criação artística literária, do que chamo de intrapoético pangeracional, atitude geradora de uma intertextualidade transubstancial.
E o que seria isso, essa intertextualidade? Seria a conexão – ou amálgama - no mesmo campo temporal imaginativo de modelos lógicos e de fruição do sensível resgatados de nichos temporais diversos com suas consequentes âncoras de mentalidade.
O que me ocorre agora como figura mais simples para exemplificar tal conexão é o quadrado lógico das proposições opostas de Apuleio.
O filósofo, poeta e geômetra romano nascido no ano de 125 da nossa era, propôs o seguinte esquema de premissas: A-universal afirmativa (todo homem é mortal); E-universal negativa (nenhum homem é mortal); I-particular afirmativa (algum homem é mortal); O-particular negativa (algum homem não é mortal).
 A partir da proposta de Apuleio, apesar das mudanças na lógica, na retórica, na geometria e na gramática havidas desde a Roma antiga, o esquema operacional comutativo do quadrado mantém-se atual quanto à sua base lógica proposicional.
Para Bloom, o mitógrafo, gramático e diretor da biblioteca de Alexandria Calímaco (310 a.C- 240 a.C) é tão modernista quanto o romancista, poeta e contista James Joyce (1882-1941).
O autor de “O cânone ocidental – Os livros e a escola do tempo” disse num texto que o astrônomo e matemático grego Aristarco (310 a.C-230 a.C) é tão modernista quanto o crítico canadense Hugh Kenner (1923-2003).
Aristarco foi um dos primeiros a propor o heliocentrismo, o sol no centro do nosso universo, e Hugh Kenner foi o crítico que propôs para a poesia de Ezra Pound a condição de centralidade absoluta na linguagem da poética moderna, sol desconsiderado por Bloom que viu enquanto figura central de qualquer escola, estilo ou época no âmbito do Ocidente a obra de Shakespeare.  
A partir de tripla certeza: centralidade, transtemporalidade e contemporaneidade de Shakespeare, ele estruturou sua polêmica proposta de um cânone ocidental tendo o bardo como referência principal.
E fundamentou uma teoria da poesia que se completa, segundo ele mesmo explica em “A angústia da influência – Uma teoria da poesia”, a partir do sentido antitético que permeia a obra fundamental de Nietzsche enquanto verificação eficiente das convenções do estético, e expandindo as perspectivas de Freud na análise do fazer criativo dos poetas.
Esse plano sincrônico em que Bloom posiciona autores de épocas diferentes para compor um padrão estético específico de realização poderia remeter o seu método à antropologia estrutural que identifica estruturas universais do pensamento. Mas juntamente com Paul De Man, Geoffrey Hartman e J. Hillis Miller ele compôs na Universidade Yale o núcleo duro nos EUA da desconstrução teorizada pelo francês Jacques Derrida. Sua crítica, portanto, adere ao desconstrucionismo no sentido de se abastecer das zonas de fronteira de todos os territórios. Podemos dizer que Bloom, que incluiu Machado de Assis, como fez antes nos EUA a crítica Helen Caldwell, entre os gênios literários da humanidade, foi uma mistura de Oswald de Andrade, Antonio Cândido e Eduardo Portela. Para Edward Said, ele superou as amarras do criticismo. Terry Eagleton sinalizou para o peso do cristianismo em sua obra. O que Bloom disse da obra dos gênios se aplica à dele próprio: exuberância, intensidade e loucura.  


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