quinta-feira, 7 de novembro de 2019

SOLHA E O LABIRINSTMO

WALTER GALVÃO - O romancista, poeta, ator, dramaturgo e artista visual W. J. Solha, em seu novo livro “Vida Aberta - Tratado Poético-Filosófico” (Editora Penalux, Guaratinguetá, 2019) trama a conquista de uma improvável façanha. Ele quer tudo ao mesmo tempo agora. Provocação e maravilhamento, transcendência e facticidade, dialética e metafísica. Busca reduzir à imediatidade, a uma sincronicidade, o legado histórico da retórica ocidental.
E aqui, a retórica tem o sentido que se apresenta em “Retórica geral” (Cultrix e Editora da USP, 1974), de autoria dos integrantes do Grupo µ (da letra grega µ, inicial de metáfora), grupo de belgas dedicados à pesquisa linguística relacionada à semiótica.
A obra coletiva e o grupo inauguram nos anos 1970 uma nova perspectiva à poética: uma ciência geral das formas literárias. O sentido da retórica que buscamos no livro de Solha, portanto, é o da expansão do paradigma poético.  E isso a partir de trocas principiológicas das substâncias da poesia e da filosofia que acontecem no tratado-poema.
Inaugura-se com São Tomás de Aquino (1225-1274) uma plataforma conceitual para a convergência dos gêneros. Para Aquino, ratificando Aristóteles, poeta e filósofo extraem suas atividades do mirandum.  A palavra latina tanto traduz o que se admira, o que causa espanto, quanto o que transcende o concreto. Reafirma-se no poeta e filósofo brasileiro Antonio Cícero, principalmente em seu livro “Poesia e filosofia”, a argumentação contra Aquino sobre a incompatibilidade entre prática poética e prática filosófica.
Um dos pontos centrais do livro de Cícero está na afirmação de que o discurso poético não é proposicional. Mas como não pensar no poema enquanto operação de lógica proposicional com seus atributos inerentes ao ato de pensar a verdade dos fatos? No paradigma da prática poética moram tanto as razões do sentir empático quanto os prazeres do conhecer os fundamentos das coisas.
E aqui, com a licença de quem não se interessa muito por aspectos mais técnicos da crítica, somos obrigados a abrir só um pouquinho mais a gaveta teórica. Paradigma na perspectiva da análise da poesia é um sistema alternativo de organização sistêmica de morfemas. Ao nível da linguística, morfema enquanto reunião das bases flexionadas de um mesmo radical (canto, cantas, cantei, cantado), e, ao nível do estruturalismo, um processo de distribuição imaginativa num plano de figuração das qualidades fonológicas, morfológicas e semânticas da palavra.
“Vida aberta” coleciona, sob o impacto do martelo nietzschiano de Solha forjando êmbolos retóricos autônomos, os principais objetos de conhecimento artístico de vários povos através dos tempos. O livro ostenta essa bela, quimérica e enigmática ambição do ser da imaginação poética: realizar a síntese relacional simbólica totalizante.
A respeito desse idealismo holístico radical hegeliano que impregna o método composicional de Solha nessa obra, opino que lhe pertence a ambição de apreender com o pensamento todo o espírito e a fenomenologia do ato histórico (linguístico) no espaço-tempo. Como se fosse possível à razão estruturada em linguagem, e esta realizada em qualquer gênero discursivo - romance, poema, tratado… -  sistematizar e integrar, num mesmo compósito significacional, coisas díspares como impulsos eletroquímicos que no cérebro estimulam a figuração dos sonhos e a pressão ambiental que no ventre da terra organiza os átomos do cristal na trama geométrica que o caracteriza.
Melhor dizendo: como se fosse possível numa obra de arte fazer um texto soar como uma sonata e certa imagem transmitir a experiência tátil de um abraço. Em síntese minimalista, elementar: promover reflexão, uma tipicidade da arte, com a observação filosófica dos atos da vida; e estabelecer um saber, característica do discurso filosófico, por meio de um poema.  
Em “Vida aberta”, Solha derrama em mais de 100 páginas um poema misto de reflexão contemplativa da ebulição teórica que subjaz ao legado estético de várias civilizações, e trabalho artístico que sinaliza para possibilidades reflexivas do pensamento conceitual estruturante que gera, transforma e revoga princípios culturais.
O método para desvelamento da forma ora é similar ao de muralistas passionais a exemplo de Flávio Tavares e Diego Rivera, acompanha a cartografia empreendida por nomes como Eduardo Canabrava, faz ressoar a “Odisseia”, também a brasonaria sensitiva de Ariano Suassuna bem como o épico multifário de Ezra Pound, “Os cantos”, além de longos poemas a exemplo de “O guesa”, de Sousândrade, e “O poema sujo”, de Ferreira lugar. Mas está em “A vida passada a limpo”, de Carlos Drummond de Andrade, a maior semelhança desse livro de Solha que tanto é objeto sensível para o conhecimento como objeto de conhecimento para a sensibilidade, com outra obra de arte. A musicalidade e o ritmo emotivo possibilitado pela riqueza das rimas, as indagações ontológicas, as combinações lúdicas dos sentidos estão nos dois livros. Solha propõe em “A vida aberta”, permitam o neologismo, um labirinstmo: uma rede intrincada de percursos como num labirinto e ao mesmo tempo passagem, como num istmo, para a terceira margem do rio do saber. Poesia, filosofia, ser e tempo na senda místico-racional do fazer arte. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário