WALTER GALVÃO - Estou entre os que consideraram um punhado de vidro ralado nos olhos o ataque de Martin Scorsese aos filmes da Marvel.
Vi a notícia primeiro no blog de Sílvio Osias, crítico de música e de cinema, certamente o cara que mais entende de telejornalismo, o que inclui edição de imagens, ritmo de corte, sentido e representação de montagem, de sua geração.
O título da postagem de Sílvio: “Filmes da Marvel não são cinema. Quem disse foi Martin Scorsese”.
Fui ler na hora mastigando o amargor do espanto, o fel de uma acusação que considero injusta e totalmente descabida.
O genial Scorsese declarou: “Eu não vejo. Eu tentei, sabe? Mas aquilo não é cinema. Honestamente, o mais próximo que consigo pensar deles, por mais bem feitos que sejam, com os atores fazendo o melhor que podem sob as circunstâncias, são os parques temáticos”.
Não me contive e enviei a seguinte postagem para o canal no WhatsApp de Sílvio:
“A ideia de cinema como parque de diversões permeia ‘Hugo Cabret’ (filme de Scorsese). Além disso, no caso da Marvel, trata-se de uma tradução do universo das HQs, o que gera uma plasticidade específica que expande a linguagem cinematográfica. O fato de Baremboim (digitei errado o nome de Daniel Barenboim, maestro e pianista argentino radicado em Berlim) dizer que Rick Wakeman não é um concertista não reduz o talento de Wakeman. Achei a declaração igual à de Bituca sobre a MPB”.
Sílvio, discreto e avesso a polêmicas, respondeu com um singelo “Eita!”
Isso foi no dia sete de outubro. No dia nove, novo texto no blog sobre o caso: Título: “Fãs da Marvel fazem comentários hilários sobre Martin Scorsese”. No texto, a definição: “A crítica dele é legítima. Necessária por vir dele. Scorsese merece respeito. Muito respeito”.
Minha postagem para Sílvio:
“É o caso de Maria Valéria Rezende dizer que Paulo Coelho não é escritor… respeito. Mas confesso que gosto da Marvel, e não de Paulo Coelho”. Os filmes são esquemáticos e repetitivos como compassos de rock, telenovelas e... HQs. Funcionam por isso.
A essa altura do campeonato, a briga já era universal, com muita gente se metendo, fãs, como eu, e celebridades.
Renato Félix, jornalista, crítico e professor de cinema que está entre os que sabem quase tudo (quem sabe tudo mesmo é João Batista Barbosa de Brito, sem demérito para Renato e outros do campo) da sétima arte, anotou no Correio da Paraíba o fato irônico de o diretor do clássico “Taxi driver” disparar seu míssil teleguiado contra os tais “parques temáticos” justamente quando um filme que retrata um vilão das HQs, “Coringa”, conquista o Leão de Ouro no festival de Veneza. Não é um filme do Marvel Cinematic Universe (MCU), mas é da família. Mostra a infância e a juventude do arquiinimigo de Batman.
Há uma transversalidade no fato crítico, a origem do tema do filme premiado, que deixa no ar a ideia de que Scorsese repete diante do MCU a indignação de outro gênio, o poeta e artista plástico Charles Baudelaire, que declarou em documento escrito: “Estou convencido de que o progresso mal aplicado da fotografia muito contribuiu, como aliás todo progresso puramente material, para o empobrecimento do gênio artístico francês, já tão raro”.
Scorsese, no entanto, propõe importante e oportuna discussão sobre a especificidade do real cinematográfico. Impõe-se, então, a questão do realismo naturalista de André Bazin como expressão desse real em confronto com a teoria da formatividade que privilegia a montagem na estética fílmica defendida por Béla Balázs, polêmica que permeia a discussão teórica ainda hoje com repercussões na teoria dos cineastas, teoria da performatividade e o etnodrama.
Além disso, ao afirmar que “não é o cinema de seres humanos que tenta transmitir experiências emocionais e psicológicas a outro ser humano", Scorsese evoca a célebre coleção de ensaios de Ortega Y Gasset enfeixadas no livro “A desumanização da arte”. E relega ao campo do impróprio por desnaturado o hibridismo que comanda a relação homem-máquina (lembro agora o ensaio “Muito além do nosso eu”, de Miguel Nicolelis) não só na representação dos super-heróis, mas na própria condição de arte-indústria do cinema.
Do lugar de onde observo o cinema, compreendo ser os filmes da Marvel expressões legítimas da arte cinematográfica. O que configura uma obra de arte, o que garante a sua legitimidade e originalidade é a universalidade do objetivo, no caso da Marvel trata-se de fazer cinema a partir da mitologia dos super-heróis; a singularidade do método, os filmes têm roteiro, direção, atores, história; e a validação certificada da obra a partir da historicidade persistente dos pressupostos estilísticos: o Oscar concedido a “Homem Aranha no Aranhaverso” é a certificação, entre tantos outros conquistados pela Marvel. Os filmes da Marvel são cinema. Mesmo que o gênio Scorsese afirme que não. A polêmica continua...

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