terça-feira, 5 de maio de 2020

"BRANCA DE NEVE" CHEGA AOS 20 ANOS

WALTER GALVÃO - “Branca de neve”, o perturbador, iconoclasta e paradoxal filme-experimento do português João César Monteiro, completa 20 anos neste 2020. 

A produção franco-portuguesa (trailer aqui) é uma adaptação de narrativa homônima do genial e tão cultuado quanto obscuro (entre o público de até 30 anos) autor suíço de expressão alemã Robert Walser (1878-1956), escritor de escritores. 

Susan Sontag comparou o poder imaginativo de Walser ao de Paul Klee, mescla de abstracionismo, surrealismo, expressionismo, futurismo e cubismo.

A trajetória pessoal dele é semelhante à de Van Gogh e à do brasileiro Lima Barreto, criadores destroçados por doenças mentais. A leitura de Walser sugere uma obra criada a quatro mãos por Kafka e Musil, escritores que o idolatravam.

Elias Canetti, outro entusiasta, perguntou certa feita se os acadêmicos que fizeram fama e dinheiro trabalhando a obra de Walser, artista que morreu na miséria, não se envergonhavam de tê-lo usado. 

No Brasil, a Companhia das Letras publicou dois dos romances mais traduzidos mundo afora de Walser: “Jacob von Guten - Um diário” (2011) e “Os Irmãos Tanner” (2017).

O texto gerador do roteiro, traduzido para o português em Lisboa no ano de 2000, retoma o conto clássico em forma dramatúrgica - ensopada de ironia e humor cáustico - a partir da indagação: Branca de Neve realmente foi feliz para sempre?

A polêmica narrativa fílmica começa com imagens do romancista morto na via pública durante um passeio por campos cobertos de neve. Foi encontrado congelado por transeuntes no dia de natal nas proximidades do hospício em que viveu por mais de duas décadas na Suíça. 

A trama evolui na maior parte do tempo sem qualquer imagem, só o áudio dos diálogos encenados contra o fundo negro. Moreira nos concede algumas inserções de imagens. Pouquinhas.

Com ele, o diretor de “Recordações da casa amarela” (Leão de Prata no Festival de Veneza, 1989), morto em 2013, provocou a Europa no ano 2000. 

O repto ecoa ainda agora convocando artistas de várias linguagens para um debate - potencialmente interminável, inconclusivo -  de natureza tripla :

1 -  o estatuto do visível na composição de uma verdade sensível do mundo;

2 - a natureza da verdade da imagem cinematográfica;

3 - as possibilidades imagéticas da literatura em quíntupla dimensão: descrição, fundamentação, interpretação, análise, e revelação da coisa elaborada e transmitida.

A estreia aconteceu sob o impacto do público e da crítica. O cineasta jogou gasolina na fogueira da polêmica ao declarar à imprensa “foda-se o público”, desprezou opiniões contrárias ao filme e manteve um posicionamento provocativo, uma característica pessoal que levou ao cinema de alto nível que sempre realizou. 

As especulações sobre a natureza da obra se multiplicaram. Houve quem dissesse não haver intenção estética, mas sim uma provocação do diretor ao produtor por conta de problemas no financiamento. 

Outra versão é a de que acidentalmente Monteiro teria obstruído a lente e resolveu ir em frente naquele salto no escuro. Nas entrevistas concedidas à época, o cineasta faz questão de embaralhar as coisas afirmando não fazer telenovelas, que “fiz assim por não ter feito assado”...

A revista Contracampo, especializada, encaminhou uma discussão estética, e o crítico Bruno Andrade considerou que “a tela escura do filme é na realidade o registro de três formas de opressão: a da tela do cinema pelo projetor, a do espectador pela tela e a da tela pelo nosso olhar. O que Monteiro faz, o absurdo e o gênio do dispositivo que cria para este filme, é propor uma espécie de protesto para todas estas formas de opressão”.

E vaticina: “Como todos os grandes que apostaram todas as fichas no cinema – como Rossellini com “Viagem à Itália”, Glauber com “A Idade da Terra, Godard com “Histoire(s) du Cinema e Pasolini com “Salò” –, Monteiro cria não apenas uma grande obra como também estabelece um momento e uma etapa importantes dentro da longa história das formas cinematográficas”. 

A referência a uma triangulação opressiva denunciada pela escuridão fílmica remete à discussão legítima sobre relações de poder com foco na obra de Michel Foucault. É uma discussão sobre ética, uma indagação sobre sujeito, verdade e mundo. 

Prefiro identificar referenciais estéticos  e simbólicos mais óbvios. A narrativa sem luz, a tela negra, a escuridão enquanto forças propulsoras de uma dissolução caótica, iconoclasta, de teor nietzschiano niilista, da dialética do devir. 

Trata-se de uma narrativa por elipse, uma operação de deslocamento do movimento de percepção, uma suspensão da dicotomia (na dialética platônica) claro-escuro, uma refutação de lances imaginativos definidores das hierarquias do olhar a exemplo do chiaroscuro criado por Leonardo. 

Um filme-problema a reivindicar uma reflexão crítica transformadora a partir de um repertório cinematográfico enriquecido pelo experimentalismo que requer ao cinema o puro poemático (condensação ideacional via metafunção dêitica de fraseados metafóricos) "contra" o diegético (expansão narrativa de uma trama num percurso X de espaço-tempo) . Incômoda e estimulante, uma obra perfeita para a  contemporaneidade com seus labirintos de transformação, hibridismos e oceanos de desejos irrealizáveis.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

A COR AMARELO E A POLÊMICA EM "RESGATE"


WALTER GALVÃO - O uso de filtros amarelos não é o principal problema de “Resgate”. Esse novo filme da Netflix, mais um inspirado numa história em quadrinhos, é dirigido por Sam Hargraves, também ator e um dos mais experientes coordenadores de dublês do cinema atual (“Vingadores: ultimate”, “Capitão América - Guerra Civil” e outros blockbusters). E foi feito de encomenda para lustrar o brilho do carisma de Chris Hemsworth, o Thor da Marvel. 

Há no thriller, situado ao nível do melhor da ação (para quem gosta de pirotecnia, acrobacias mirabolantes e pancadaria) das franquias “Rambo” e “Jason Bourne”, uma coleção de episódios decididamente piegas. 

Os clichês do gênero se amontoam nas quase duas horas sanguinolentas de correria, explosões e fuzilamentos,  o roteiro inteligente e divertido de autoria de Joe Russo, o Messi dos roteiristas atuais de Hollywood, não nos poupa de cacoetes sentimentalóides e há quebras entediantes de ritmo quando o mercenário Tyler Rake confessa traumas existenciais ao adolescente sob a sua guarda em meio à chuva de granadas, mimimi com citação chinfrim de Paulo Coelho (o Mago ficou puto), e disparos de bazucas.

Mas os filtros amarelos (mais puxados para o escuro insinuando ocre e sépia) sobre a paisagem de Bangladesh, apesar de um tanto quanto abusivos, redundantes, não me transmitiram as aludidas intenções racistas e preconceituosas identificadas pelos internautas que não se cansam de denunciar o filme. Também visto como a glorificação do “branco libertador”. Vejo mais como a heroicização do comando suicida, mas esse é outro papo.  

Um dos internautas indagou se para Hollywood qualquer lugar fora da América é amarelo, significando a cor, no contexto, sujeira e subdesenvolvimento.    

É de se considerar justa, e até inevitável, a aspereza com que certos temas são tratados por grupos sociais historicamente agredidos, solapados em seus direitos, comprimidos num espaço de protagonismo asfixiante, como no caso das vítimas de preconceito, racismo e indignidades similares. 

Nós, nordestinos, somos alvos dessa sanha fratricida encapsulada em camadas de afirmação objetiva de sentido através da linguagem (falada, escrita, artística, científica) espalhada por várias regiões, inclusive no próprio Nordeste. 

Ao nível da subjetividade, de nossa vivência psicoemocional, a sociedade enfrenta e pratica coisas como racismo e machismo estrutural geradoras e reprodutoras de violência.   

As formas de sociabilidade que privilegiaram, ainda privilegiam, a exclusão merecem realmente a militância atenta para a denúncia de seus derramamentos a cada manhã desses nossos dias de vírus incontroláveis e manipulações ideológicas. 
No caso do filme, a crítica se torna pertinente por uma razão simples: a opção de cor incomodou as pessoas. Insisto, no entanto, que essa falha, apontada por muita gente, decorre mais do apelo aos clichês cinematográficos do que propriamente a uma intenção manipulatória. 

Como quem gosta de cinema sabe, a cor (sensação ótica) é elemento indispensável da direção de arte e da fotografia (no p&b, a história é com a luz branca) para modulação da atmosfera, da psicologia das personagens, das gradações emotivas da história.  E o amarelo é elemento de destaque por suas convencionadas características psicológicas e simbólicas. Podemos passar horas falando sobre a participação no cinema dessa qualidade cromática específica das imagens visíveis. E também sobre como ela se estruturou na percepção das sociedades ao longo dos tempos. 

Em “A psicologia das cores”, Eva Heller nos informa que a amarela, com suas 115 gradações mais usadas, é a cor mais contraditória, do ciúme e do otimismo, da inteligência e da beleza, da recreação, do entendimento e da traição. Nos diz, inclusive, que os especialistas consideram-na uma cor “pontuda” e que tem “o sabor dos ácidos”.  

Já em “Tratado da ontologia das cores”, Osny Ramos nos ensina quanto ao amarelo: força psíquica, poder da vontade, poder da memória, psiquismo cósmico, inteligência da seleção natural, identidade.

Na psicologia e na metafísica da cor, nada, mas nada mesmo, nesses textos contemporâneos, indica qualquer aspecto negativo a justificar a visão de que o amarelo simboliza sujeira para Hollywood. É certo que entre nós dizemos numa perspectiva negativa que alguém “amarelou”. “Jornalismo amarelo”, nos Estados Unidos, qualifica a falta de compromisso com a verdade. Aí, o amarelo se aproxima de traição.

Para uma abordagem histórica aprofundada do tema cor, percepção e arte, acredito que Aristóteles inicia definições afirmando ser a cor uma característica do objeto; acho que seja nas “Meditações”, cito de memória, posso estar errado, onde Descartes teoriza na perspectiva da física ao escrever sobre o arco-íris produzido pelas gotículas prismáticas da chuva. O tratado mais abalizado, obviamente, é o de Isaac Newton sobre a característica corpuscular da luz e a teoria das cores, o que ele estuda através dos vários experimentos com um prisma. O mais polêmico é o de Goethe, uma refutação de Newton… a  bibliografia certamente  é gigante. Especificamente sobre o cinema, indispensável é a leitura de Cores & Filmes. Um Estudo da Cor no Cinema”, de Maria Helena Braga e Vaz da Costa.

Acredito que a ideologização do amarelo como é visto e acusado em “Resgate” começa em Hollywood, que foi parceira comercial do nazismo, daí que a cisma tem fundamento, começa com “Traffic”, o quatro vezes oscarizado filme de Steven Soderbergh, obra impactante sobre o narcotráfico que completa 20 anos. Para as cenas no México o diretor elege o amarelo torrado e estabelece a tonalidade que em Hargraves funciona como um clichê para estruturar um ambiente sufocante, de alta temperatura. Sobre esse mesmo amarelo, podemos encontrá-lo fortemente em “O silêncio dos inocentes”, “O poderoso chefão”, “Mad Max”. Também “O submarino amarelo” projeta uma narrativa específica à nossa percepção, isso sem falar em “Kill Bill”, o amarelo remete também aos filmes de Bruce Lee, e em “Amarelo Manga”, palco, este último filme, de um striptease da cor em sua exuberância quente, sensual. Respeito a militância que reivindica o fim das simbolizações degradantes, notadamente as cromáticas. Mas, parodiando Freud na questão do cachimbo, é possível dizer que às vezes uma cor é apenas isso.  

segunda-feira, 20 de abril de 2020

ROBERTO EM TEMPO REAL


WALTER GALVÃO - Foi irresistível ímã a performance nos atraindo à teia iluminada de som e poesia. Um momento-talismã para dar sorte em qualquer tempo e lugar. 

Pulsar clássico de vida no coração da história da pandemia, coisa impregnada de esperança, generosidade e beleza. 

Música contra medos. Para acalmar espíritos.
Retas e curvas, linhas e pontos, agudos e graves de um desenho mágico e mítico sobre a pauta de harmonia e carisma onde a música via streaming aconteceu nesse domingo 19. 

Roberto Carlos em ritmo de (a)venturas: urgências e surpresas do 'ao vivo';  certezas do bem-bom do talento estelar; o caráter traumático do estresse no mundo atual; foi essa a cenografia simbólica do evento.

O cenário onde Roberto,Tutuca e Eduardo Lages fizeram a música acontecer foi intimista (creio, na casa de RC) sem renunciar a certo toque high tech construtivista iluminado com sutileza. 

O cantor e compositor, no dia de seu aniversário, 79 anos, estava bem demais num figurino absolutamente solar. 

Vestia levezas de manhãs tropicais. Estampas em branco sobre fundo azul remetiam ao céu e ao mar, tudo aspirando à pureza exigida pelo instante.

Uma live emotiva cheia de verdades: o vírus, a máscara, o confinamento. “Fiquem em casa”, “usem máscara”, doutrinou o astro na live emocionada em seu compasso solidário e emocionante pela intimidade transmitida.

Assistimos ao mestre detalhar sua técnica impecável de gigante inigualável da música. 
Roberto universal em seu sotaque estilístico feito de inocência e concisão.

A voz de linho trançado com fios de ouro emitiu as atmosferas e mensagens das canções com a naturalidade da chuva que cai lá fora. 

O caráter timbrístico da voz (o seu comportamento laríngeo), sua paleta cromática que privilegia a pureza em detrimento da intensidade, mas sem prejudicar a dinâmica das ressonâncias, se mantém.

A voz não  perdeu o brilho em suas nuances de emissão (a operação de seleção e uso de filtros, na fonte garganta, músculos, pregas e cordas vocais). 

É a mesma plataforma de distribuição e fusão de efeitos sob domínio para conquistar as significações emotivas da canção. Roberto é fera nos chamados ajustes fonatórios. 

O repertório foi uma síntese da trajetória intercontinental do artista, dos seus percursos melódicos preferenciais.

Algumas das canções-paisagens mais emotivas desfilaram renovadas. Também compareceram observações e inclinações da religiosidade, a sujeição contente do músico ao sagrado. Roberto corpo e alma.

O sorriso superlativo e a sinceridade das declarações completaram um quadro evocativo em meio ao qual me ocorreram personas artísticas assemelhadas ao nosso Rei.

Estavam lá a presença cênica espetacular e o domínio do sistema tonal de Frank Sinatra e de Elvis Presley. 

John Lennon me ocorreu quando o Rei pronunciou os versos iniciais de “Todos estão surdos”.

Pensei em Caetano Veloso durante a referência aos “cabelos encaracolados” e às “cucas maravilhosas”, cintilâncias rimáticas remotas com a contracultura.
A contracultura levou Caetano a querer o RC 7 para acompanhá-lo na apresentação de “Alegria, alegria” no festival da Record, 1967, mesmo ano da estreia  de “Como é grande o meu amor por você, chave de abertura da live.

Foi um show e tanto. A “Folha” disse que foi “legalzinho” e que “não chegou a empolgar”. Aqui faço uma paródia, peço vênia a Caymmi: “Quem não se empolga com Roberto, bom sujeito não é. Está ruim da cabeça. E doente do pé”.  




   

segunda-feira, 6 de abril de 2020

FREUD, A SÉRIE: CRIME, MISTÉRIO E FANTASIA


WALTER GALVÃO - A série “Freud”  é a estreia da Áustria (em parceria com a Alemanha) na Netflix. Dirigida por Marvin Kren (“Rammbock - Berlin undead”) e protagonizada por Robert Finster (“Stefan Zweig - Adeus, Europa”)  e Ella Rumpf (“Mulheres divinas”), a produção de oito capítulos é um típico caso freudiano. 
Explico porquê.  Trata-se de um ato falho do audiovisual austríaco. A intenção explícita é construir mais um degrau na escadaria das  glórias vienenses. A escada conduz o nome do pai da psicanálise ao topo merecido da fama. Coloca Freud na condição de ícone pop máximo do país. Um totem para a modernidade tardia. 

Isso acontece ao nível industrial turístico, uma clava para o soft power eurocêntrico, desde o aniversário em 2014 de 75 anos de morte do neurologista que conquistou o Prêmio Goethe de literatura.

A propósito desse prêmio, ele se dizia perplexo com o fato de as pessoas lerem seus livros como se fossem romances.

 Hoje, Viena faz questão de propor essa mística, Freud ídolo pop. Uma visita à cidade jamais contornará o museu. Camisetas, gravuras, bottons, gibis, entre outros suportes midiáticos, infestam as ruas a partir do número 19 da Bergasse. 

O conteúdo resultante da série, no entanto, não favorece a glorificação. Conduz o público a momento específico na vida do jovem médico quando ele está às voltas com tentativas de realizar, sem sucesso, a clínica a partir de novos métodos ancorados na hipnose como acesso ao núcleo gerador da histeria, neurose na qual os problemas psíquicos recalcados se exteriorizam através de sintomas físicos, perda da fala, da mobilidade de membros, perda da visão entre outros. 

Mostra, nesse contexto, o intrincado labirinto mental, cultural, familiar, sentimental e profissional do jovem médico.

Ele está às voltas com transtorno compulsivo, atordoado pelo uso abusivo de cocaína, fustigado pelo desrespeito de colegas e pela desconfiança de superiores. Além disso, amarga  conflito com as tradições religiosas judaicas, está em confronto com expectativas familiares, impossibilitado de casar com a mulher que ama e sem dinheiro para pagar o aluguel. Daí para o mergulho em crimes como charlatanismo, falsificações e até sequestro e cárcere privado é só um pulo. 

É como se a uma cinebiografia de Tim Maia mostrasse apenas o cantor e compositor roubando o conteúdo das marmitas que entregava quando adolescente no Rio de Janeiro, migrando para os Estados Unidos e lá sendo preso por tráfico de drogas e deportado para o Brasil. Fim da história de Tim Maia. Ou, no caso de Einstein, focar apenas o período quando ele, na Suíça, não conseguiu uma promoção no departamento de patentes onde era examinador assistente por não dominar totalmente os cálculos da sincronização eletromecânica do tempo. Restaria ao jovem frustrado as leituras de Poincaré nas escadarias simbólicas da Academia Olímpia, em Berna. Mas a história não é só isso.

Paradoxalmente, no entanto, para os fãs de suspense, terror, mistério, para quem ama o sobrenatural espiritualista, ou o parapsicológico, mediunidades e o onirismo, a série é um prato cheio, o diretor é um ás do horror, autêntico storyteller, e o roteiro segue à risca o percurso clássico de uma história feita para dar certo: o herói (anti-herói) é apresentado com a sua problemática, surge o desafio, um mentor entra no lance para ajudar, o herói testa suas próprias qualidade, fraqueja, tenta desistir, se supera, vive momentos catárticos e há um desenlace pacificador para o bem ou para o mal. As reviravoltas se sucedem, surpresas, ação e violência, choques, espantos, paixões avassaladoras e ódios recalcados e explícitos. Um thriller arrepiante. 

Ah, mas e esse Freud que mais parece Sherlock Holmes? Bem. Do que temos disponível em termos biográficos podemos dizer que a série apresenta com acentuada intensidade um Freud fiel ao personagem real, histórico. Na série o psicanalista surge tridimensional. Psicologicamente, ele indicou seus conflitos em cartas. Existencialmente, a trama é fiel ao modo como ele encarou os desafios. Estamos falando da personalidade autoanalisada e divulgada pelo próprio teórico do sonho e da tríade ego-id-superego. 

Para compreendê-lo em sua complexidade, temos as biografias monumentais de Ernest Jones (“Vida e obra de Sigmund  Freud”) e Peter Gay (“Freud - Uma vida para o nosso tempo”), e a ótima síntese biográfica “Freud”, de René Major e Chantal Talagrand.

Grande leitura sobre ele oferece o roteiro cinematográfico monumental de autoria de Sartre, “Freud além da alma”, e ensaios como “Freud e a alma humana”, de Bruno Bettelheim; “Um affair freudiano - os escritos de Freud sobre a cocaína”, de Oscar Cesarotto; “Deuses de Freud - A coleção de arte do pai da psicanálise”, escrito por Janine Burke; “Os dez amigos de Freud”, do ensaísta brasileiro Sérgio Paulo Rouanet; além do romance-reportagem “A amante de Freud”, de Karen Mack e Jennifer Kaufman, narrativa sobre o envolvimento dele com a cunhada, Minna, irmã da esposa Martha Bernays, e também o documental “As mulheres de Freud”, de Lisa Appignanesi e John Forrester, ensaio sobre a importância das mulheres na vida do autor de “O mal-estar na cultura”.

Acredito que Freud concordaria com a série que reconstitui climas dramáticos, labirínticos e tempestuosos do melhor dos casos de Sherlock Holmes, contos de Edgar Allan Poe e histórias de Lovecraft. Trata-se de uma caricatura dramático-erótica da alma febril do gênio vienense às voltas com a decadência do império austro-húngaro e suas implicações políticas que desembarcam no crime, o racismo que o impedia, devido à origem judaica, de exercer a cátedra, a hipnose e a cocaína como elementos terapêuticos como acesso à compreensão, posse e revelação dos mistérios da mente humana.

Para alguém que escreveu “Escritores criativos e devaneios”, a série é um prato cheio quanto à abordagem da fantasia como afirmação do princípio do prazer. Nesse texto, Freud elabora conexões entre realidade, prazer, fantasia, possibilidade presumida dos desejos e fruição do jogo imaginativo a que se entregam escritores e escritoras e demais artistas.

Na série, o Freud interpretado por  Robert Finster, de grande semelhança física com o neurologista, nos diverte e emociona por ser um misto de Fox Mulder em sua porção mitológica de Cassandra a revelar o que ninguém acredita que está por vir, de Sherlock Holmes com seus incríveis poderes intuitivos, mas principalmente de Frederick Abberline, o magistral investigador místico e drogado do filme “Do inferno” (irmãos Hughes, 2002) interpretado por Johnny Depp. 

Há quem tenha considerado a série uma ofensa ao próprio Freud e ao seu legado, como se a produção usurpasse a credibilidade do cânon psicanalítico e comprometesse a autoridade do profeta do inconsciente. Nada disso. Na verdade, a história é um delicioso spin-off fantasioso e eloquente.

A história é repelente e atraente. A cidade surge magnífica e sombria com seus espelhos aristocráticos, canais miasmáticos e porões nauseabundos. É onde se alimentam neuroses, psicoses e perversões. O horripilante e o excitante se engalfinham entre respiradouros entupidos, sangue, lascívia. Dor e prazer empesteiam a atmosfera sufocante. Beleza e decomposição como ocorrem na vida. Pura diversão para quem não teme o real nem o inconsciente. 

segunda-feira, 16 de março de 2020

MARXISMO, CIÊNCIA E MITO

WALTER GALVÃO - Levei uma cesta de aplausos para distribuir entre os presentes ao lançamento do livro “Marxismo: ciência ou mitologia? Debate em torno de uma doutrina reincidente”,  escrito por Washington Rocha, José Octávio de Arruda Mello e Clemente Rosas. 

Aconteceu na noite de sexta-feira (6) no auditório da Fundação Casa de José Américo, em João Pessoa. 

Na sexta-feira 13 teria sido data mais propícia, grávida daquele simbolismo medieval inspirador de tantos transes e lendas.

Coisas do tempo muito anterior a Marx, bem antes de Cristo, quando o aplauso acontecia para invocar a proteção dos deuses e afugentar demônios nas cerimônias em torno de um fogo sagrado.
Mas nos reunimos naquela noite para celebrar outro fogo, o fogo revolucionário característico das ideias capazes de mudar a forma como se vê o mundo, ideias capazes de mudar as pessoas.

Washington Rocha é um escritor ex-marxista hoje dedicado a espalhar a fé no fim do marxismo como escapada da inteligência de uma armadilha conceitual mortífera. Ele quer mudar pessoas. 
Para Washington, “a doutrina marxista vulgarizada é abertamente despótica, e a ciência que a sustenta é suposta”. 

Clemente Rosas, ensaísta, ex-militante comunista, afirma: “Mesmo rejeitando o brilho falso de ciência, e descartando os componentes mitológicos do marxismo, devemos continuar a garimpar verdades nesse extraordinário esforço interpretativo da atividade humana”. 

José Octávio escreve: “A convicção (de Washington Rocha) de que o marxismo irá para o lixo da história (...), este não me parece o destino da doutrina. Esta, como corpo de ideias seguramente ficará, ao contrário dos regimes políticos nele inspirados”. 

É bem verdade que os regimes políticos comunistas autoritários de inspiração marxista (superação da luta de classes via revolução para implantar uma ditadura e coletivizar os meios de produção extinguindo o Estado e a desigualdade econômica) mataram milhares de pessoas em nome de uma doutrina e atentaram contra a liberdade de pensamento. 

Também é verdade que regimes políticos inspirados no Cristianismo (revelação nos Evangelhos da salvação da humanidade pela fé na ressurreição para vida eterna numa instância divinal) mataram milhares de pessoas em nome de uma doutrina e atentaram contra a liberdade de pensamento.

Mas, e isto foi lembrado por Clemente Rosas, não se pode dizer que Jesus é o responsável pelos crimes que a Inquisição católica praticou, assim como, mutatis mutandis, não se pode responsabilizar Karl Marx pelos crimes praticados por regimes comunistas autoritários.

Acredito não haver dúvida quanto à importância do legado de Karl Marx para a história da humanidade, e o livro organizado por Washington Rocha, um debate entre os autores sobre livro anterior, também de Washington, “A Ceia Profana do Marxismo - Tragédia e Farsa”, comprova a pertinência do debate.

Resta a dúvida quanto à cientificidade da doutrina. Apesar da refutação integral de Washington, que o faz em nome da democracia e da livre circulação das ideias, José Octávio identifica a validade do método de análise marxista, “avanço sobre o idealismo factualista do passado”, e Clemente Rosas destaca o caráter datado da ideologia marxista.

Incidentalmente, a discussão remete à recomendável leitura de um livro ótimo do teólogo laico Peter Berger: “Em favor da dúvida: como ter convicções sem se tornar um fanático”.

E é na perspectiva de afastar o olhar do fanatismo que me aproprio do debate neste texto jornalístico para refutar a dúvida quanto à cientificidade do marxismo, método de análise de um modo de vida, capitalismo, o modo pós-revolução industrial, e do arcabouço lógico-racional da sociedade burguesa.

Nada mais científico, se pensarmos ciência como culminância de um processo de pesquisa experimental em que se comprova uma teoria, do que o princípio de acumulação de riquezas que gera pobreza e desigualdades no capitalismo.

Da mesma forma, o mecanismo de crise na economia, de ruptura cíclica, como reorganizador do processo capitalista a partir das inovações tecnológicas. Princípios de uma dialética do real teorizados na obra e comprovadas pelo comportamento das forças produtivas. 


Pessoalmente, vejo no conjunto da obra de Karl Marx, notadamente em “O Capital”, a resposta para a pergunta de Washington: ciência ou mitologia? Minha resposta: marxismo é ciência e mitologia. Afinal, essas duas formas de representar o real sempre estiveram em íntima ligação, duas faces da cognição. Marxismo ciência, filosofia, literatura e cultura. É bússola por permitir a exploração segura de novos territórios do pensar-agir humano, é prisma por possibilitar a refração das ondas do nosso pensamento especulativo, é microscópio por possibilitar a observação “dos poros da sociedade” e é telescópio a revelar uma realidade além do céu que nos protege.

JOSÉ AMÉRICO, LATINIDADES E A SOCIOLOGIA



WALTER GALVÃO - A revista Select, nas bancas paraibanas, provocou a imaginação de artistas do Brasil ao perguntar se elxs se identificam como latinoamericanxs.
Segue a síntese de algumas declarações. 

Adriana Varejão (RJ): “Sem dúvida, me identifico e me reconheça como latinoamericana, embora o que seja essa ‘identidade” é uma pergunta que me faço. Gosto de pensar numa AL indígena, ligada à cultura ancestral. Reconheço no meu trabalho alguns temas latinoamericanos, o barroco mestiço e o neobarroco como uma expressão de contraconquista. Também a teatralidade e a violência que atravessam a minha obra e o meu entendimento de uma AL comum, onde a natureza, a exuberância, os extremos e o viés político e revolucionário estão intrinsecamente conectados”. 
Raylander Mártis (MG): “O  conjunto América Latina, enquanto conceito de identidade estanque, responsivo à hegemonia, nada pode contribuir para estilhaçar a colonialidade. Já como reivindicação de um grande levante, onde os processos específicos de cada um de nós são levados em conta, nessa sim, eu me inscrevo”. 

Mano Penalva (BA): Identifico-me com o pensamento de Néstor Garcia Canclini, que diz que a América Latina é, mais que uma identidade, pode ser uma tarefa. Refletir o que é ser latinoamericano já é um passo importante para a construção desse imaginário coletivo ampliado”. 

A VERDADE 
DOS POVOS

Acredito na questão “ser-estar latinoamericanx” como pertinente a todxs nós. No horizonte da reflexão contemporânea do tema, passado presente e futuro compõem a complexa trama da decolonialidade. 

Essa trama decorre da reflexão sobre a verdade dos povos e seus respectivos processos culturais em determinado esquema civilizatório sob formas específicas de produção de riquezas. E de pobrezas. Principalmente em se tratando do nosso Continente. 

Considero importante integrar ao acervo que fundamenta o pensamento decolonial o ensaio A Paraíba e seus problemas (1923), de José Américo de Almeida, paraibano inovador da literatura brasileira e continental morto há quarenta anos, precisamente em 10 de março de 1980. A data é emblemática por marcar também os quarentas anos da última edição do livro e de criação, em dezembro daquele ano, da Fundação Casa de José Américo de Almeida.

O livro antecipa a sociologia brasileira fundada por Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Florestan Fernandes, Antônio Cândido e Sérgio Buarque de Holanda, nomes aos quais eu incluiria os de Mário de Andrade, Leolinda Daltro e Nísia Floresta. Além de antecipar também princípios da micro-história e da história das mentalidades. 



CATEGORIAS
DA OBJETIVIDADE

Mesmo sem a posse de um método sociológico, há categorias de objetividade no ensaio de José Américo, adequado aos estudos em geopolítica. Ele descreve com a clareza do seu texto genial propriedades e injunções do processo social paraibano e nordestino sem mecanizações conceituais restritivas esboçando modelos e categorias de análise. Constrói uma verdade a respeito de nossa identidade. Identidade reflexo e contraste de outros recantos latinoamericanos. 
   
Há a nos unir - países, povos, culturas, tradições, relações e projetos “do lado de baixo do Equador” - um mar de histórias, pecados impronunciáveis, encontros muito além da crueldade, dominações e genocídios, celebrações gozosas, riquezas roubadas e trocas infames. Trajetória comum de colonialidade. 

É nos anos 1950 que se estrutura ao nível das relações internacionais na conjuntura do pós-guerra - o pesadelo da bomba atômica é um veneno vivo nos pulmões do mundo - o que podemos classificar de um pensamento crítico de base científica sobre o processo de desenvolvimento da América Latina. 

CUBA, ALVO
DA GUERRA FRIA

Há um emergente pensamento geopolítico estruturado a partir de 1945. A Guerra Fria coloca um alvo em Cuba. A América Latina está no radar da ameaça comunista. 

Em 1948 a ONU cria a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe - Cepal, organismo multilateral do qual o paraibano Celso Furtado (de quem a Paraíba celebra este ano o centenário de nascimento) é um dos mais expressivos porta-vozes. 

Tal fato fortalece a brotação do pensamento decolonial que se afirma em sua totalidade nos anos 1980 (fala-se, inclusive, numa “moda” entre pesquisadores europeus e estadunidenses) a partir de uma série de livros a exemplo de As veias abertas da América Latina (Eduardo Galeano), Orientalismo (Edward Said), Pedagogia do Oprimido (Paulo Freire), O dilema da América Latina (Darcy Ribeiro), entre muitos outros antecedidos por obras-primas como Os condenados da Terra (Franz Fanon), Retrato do colonizado precedido do retrato do colonizador (Alberto Memmi) e Discurso sobre o colonialismo (Aimé Césaire). 

ESTUDOS 
ATUAIS

Na contemporaneidade paraibana, se destacam os estudos com foco na América Latina do cientista e analista político, também historiador e professor da UFPB Lúcio Flávio Vasconcelos. 
Quinze anos atrás ele publicou Entre a civilização e a barbárie - América Latina no século XIX, painel abrangente das questões relacionadas à modernidade no Continente açoitado por quarteladas e vítima de autoritarismos atrozes. Um estudo que permanece atualíssimo.

Lúcio Flávio é também autor de História política do Sendero Luminoso, Guardiões da Ordem - Militares e política na história peruana, Pedro Américo - As cores do Brasil Imperial, e anuncia para este ano uma biografia de Solano Lopez. Contribuição expressiva à constituição de um pensamento reflexivo a respeito do nosso tema.

TRILHA SONORA
DE GERAÇÕES

A geração dos nascidos nos anos 1950, da Cepal, da ONU, da Sudene, da CNBB, de Brasília, da Tropicália e da Jovem Guarda pode nem atentar, mas deveria, para o fato de que a  música latinoamericana funciona como trilha sonora na objetivação (dialética) de nossa sensibilidade. 
Um dos grandes sucessos de 1956 da então borbulhante produção fonográfica nacional foi o LP (tecnologia surgida na década anterior) O tango na voz de Nelson Gonçalves.

Angela Maria, no mesmo período, transformou positivamente sensibilidades com a interpretação - evocativa de uma glória identitária - do clássico afrocubano Babalu, canção-símbolo do Afrocubanismo, movimento literário e artístico que abalou a ilha entre os anos 1928 e 1940.  
E Altemar Dutra, que a partir de 1963 inundou o Brasil com verdadeiro tsunami de boleros? Mas esses marcos da música latinoamericana entre nós tem antecedentes. O Brasil de 1900 dançava ao som do maxixe, inegável síntese do lundu com a habanera. A musicografia brasileira dispõe de documentos do século XVIII sobre a presença do lundu, canto e dança de expressão africana produzida no Brasil. 

Quanto à habanera, de óbvia origem, migrou do Caribe para a Europa no século XVII, de onde retornou para se desdobrar no tango, no maxixe, no vanerão gauchesco. 
A América Latina nos emociona com seus sons, nos inspira. Caetano Veloso em Soy loco por ti america (canção em que incidentalmente registra a morte de Che Guevara, “el nombre del hombre muerto”) cumpre o pacto continental do trânsito das sonoridades fundantes. Belchior, ao cantar Apenas um rapaz latino-americano dialoga com o ideal da pátria grande proclamado por Simón Bolívar. Roberto Carlos regravou em 1975 a clássica El Humahuaqueño (1954) do argentino Edmundo Zaldivar. Conquistou plateias em todo o Continente. Agora mesmo, a banda paraibana Gatunas canta, em  Ode ao Bozo, o verso: “Machista, a América Latina será feminista”. E Anitta é a nova commodity do nosso soft power no pedaço. “Soy latinoamericano, e nunca me engano, nunca me engano”. Ou não...