WALTER GALVÃO - A revista Select, nas bancas paraibanas, provocou a imaginação de artistas do Brasil ao perguntar se elxs se identificam como latinoamericanxs.
Segue a síntese de algumas declarações.
Adriana Varejão (RJ): “Sem dúvida, me identifico e me reconheça como latinoamericana, embora o que seja essa ‘identidade” é uma pergunta que me faço. Gosto de pensar numa AL indígena, ligada à cultura ancestral. Reconheço no meu trabalho alguns temas latinoamericanos, o barroco mestiço e o neobarroco como uma expressão de contraconquista. Também a teatralidade e a violência que atravessam a minha obra e o meu entendimento de uma AL comum, onde a natureza, a exuberância, os extremos e o viés político e revolucionário estão intrinsecamente conectados”.
Raylander Mártis (MG): “O conjunto América Latina, enquanto conceito de identidade estanque, responsivo à hegemonia, nada pode contribuir para estilhaçar a colonialidade. Já como reivindicação de um grande levante, onde os processos específicos de cada um de nós são levados em conta, nessa sim, eu me inscrevo”.
Mano Penalva (BA): Identifico-me com o pensamento de Néstor Garcia Canclini, que diz que a América Latina é, mais que uma identidade, pode ser uma tarefa. Refletir o que é ser latinoamericano já é um passo importante para a construção desse imaginário coletivo ampliado”.
A VERDADE
DOS POVOS
Acredito na questão “ser-estar latinoamericanx” como pertinente a todxs nós. No horizonte da reflexão contemporânea do tema, passado presente e futuro compõem a complexa trama da decolonialidade.
Essa trama decorre da reflexão sobre a verdade dos povos e seus respectivos processos culturais em determinado esquema civilizatório sob formas específicas de produção de riquezas. E de pobrezas. Principalmente em se tratando do nosso Continente.
Considero importante integrar ao acervo que fundamenta o pensamento decolonial o ensaio A Paraíba e seus problemas (1923), de José Américo de Almeida, paraibano inovador da literatura brasileira e continental morto há quarenta anos, precisamente em 10 de março de 1980. A data é emblemática por marcar também os quarentas anos da última edição do livro e de criação, em dezembro daquele ano, da Fundação Casa de José Américo de Almeida.
O livro antecipa a sociologia brasileira fundada por Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Florestan Fernandes, Antônio Cândido e Sérgio Buarque de Holanda, nomes aos quais eu incluiria os de Mário de Andrade, Leolinda Daltro e Nísia Floresta. Além de antecipar também princípios da micro-história e da história das mentalidades.
CATEGORIAS
DA OBJETIVIDADE
Mesmo sem a posse de um método sociológico, há categorias de objetividade no ensaio de José Américo, adequado aos estudos em geopolítica. Ele descreve com a clareza do seu texto genial propriedades e injunções do processo social paraibano e nordestino sem mecanizações conceituais restritivas esboçando modelos e categorias de análise. Constrói uma verdade a respeito de nossa identidade. Identidade reflexo e contraste de outros recantos latinoamericanos.
Há a nos unir - países, povos, culturas, tradições, relações e projetos “do lado de baixo do Equador” - um mar de histórias, pecados impronunciáveis, encontros muito além da crueldade, dominações e genocídios, celebrações gozosas, riquezas roubadas e trocas infames. Trajetória comum de colonialidade.
É nos anos 1950 que se estrutura ao nível das relações internacionais na conjuntura do pós-guerra - o pesadelo da bomba atômica é um veneno vivo nos pulmões do mundo - o que podemos classificar de um pensamento crítico de base científica sobre o processo de desenvolvimento da América Latina.
CUBA, ALVO
DA GUERRA FRIA
Há um emergente pensamento geopolítico estruturado a partir de 1945. A Guerra Fria coloca um alvo em Cuba. A América Latina está no radar da ameaça comunista.
Em 1948 a ONU cria a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe - Cepal, organismo multilateral do qual o paraibano Celso Furtado (de quem a Paraíba celebra este ano o centenário de nascimento) é um dos mais expressivos porta-vozes.
Tal fato fortalece a brotação do pensamento decolonial que se afirma em sua totalidade nos anos 1980 (fala-se, inclusive, numa “moda” entre pesquisadores europeus e estadunidenses) a partir de uma série de livros a exemplo de As veias abertas da América Latina (Eduardo Galeano), Orientalismo (Edward Said), Pedagogia do Oprimido (Paulo Freire), O dilema da América Latina (Darcy Ribeiro), entre muitos outros antecedidos por obras-primas como Os condenados da Terra (Franz Fanon), Retrato do colonizado precedido do retrato do colonizador (Alberto Memmi) e Discurso sobre o colonialismo (Aimé Césaire).
ESTUDOS
ATUAIS
Na contemporaneidade paraibana, se destacam os estudos com foco na América Latina do cientista e analista político, também historiador e professor da UFPB Lúcio Flávio Vasconcelos.
Quinze anos atrás ele publicou Entre a civilização e a barbárie - América Latina no século XIX, painel abrangente das questões relacionadas à modernidade no Continente açoitado por quarteladas e vítima de autoritarismos atrozes. Um estudo que permanece atualíssimo.
Lúcio Flávio é também autor de História política do Sendero Luminoso, Guardiões da Ordem - Militares e política na história peruana, Pedro Américo - As cores do Brasil Imperial, e anuncia para este ano uma biografia de Solano Lopez. Contribuição expressiva à constituição de um pensamento reflexivo a respeito do nosso tema.
TRILHA SONORA
DE GERAÇÕES
A geração dos nascidos nos anos 1950, da Cepal, da ONU, da Sudene, da CNBB, de Brasília, da Tropicália e da Jovem Guarda pode nem atentar, mas deveria, para o fato de que a música latinoamericana funciona como trilha sonora na objetivação (dialética) de nossa sensibilidade.
Um dos grandes sucessos de 1956 da então borbulhante produção fonográfica nacional foi o LP (tecnologia surgida na década anterior) O tango na voz de Nelson Gonçalves.
Angela Maria, no mesmo período, transformou positivamente sensibilidades com a interpretação - evocativa de uma glória identitária - do clássico afrocubano Babalu, canção-símbolo do Afrocubanismo, movimento literário e artístico que abalou a ilha entre os anos 1928 e 1940.
E Altemar Dutra, que a partir de 1963 inundou o Brasil com verdadeiro tsunami de boleros? Mas esses marcos da música latinoamericana entre nós tem antecedentes. O Brasil de 1900 dançava ao som do maxixe, inegável síntese do lundu com a habanera. A musicografia brasileira dispõe de documentos do século XVIII sobre a presença do lundu, canto e dança de expressão africana produzida no Brasil.
Quanto à habanera, de óbvia origem, migrou do Caribe para a Europa no século XVII, de onde retornou para se desdobrar no tango, no maxixe, no vanerão gauchesco.
A América Latina nos emociona com seus sons, nos inspira. Caetano Veloso em Soy loco por ti america (canção em que incidentalmente registra a morte de Che Guevara, “el nombre del hombre muerto”) cumpre o pacto continental do trânsito das sonoridades fundantes. Belchior, ao cantar Apenas um rapaz latino-americano dialoga com o ideal da pátria grande proclamado por Simón Bolívar. Roberto Carlos regravou em 1975 a clássica El Humahuaqueño (1954) do argentino Edmundo Zaldivar. Conquistou plateias em todo o Continente. Agora mesmo, a banda paraibana Gatunas canta, em Ode ao Bozo, o verso: “Machista, a América Latina será feminista”. E Anitta é a nova commodity do nosso soft power no pedaço. “Soy latinoamericano, e nunca me engano, nunca me engano”. Ou não...

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