WALTER GALVÃO - “Parasita”, prêmio em Cannes para o cinema da Coreia do Sul, invade as telas do mundo com um jeito “Bacurau” de ser. Opino que as semelhanças entre o coreano e o brasileiro, também premiado em Cannes, decorrem de certo background do imaginário contemporâneo dos dois países, a despeito de suas abissais diferenças históricas e culturais.
Acontece que eles estão entre as maiores economia do mundo, são parceiros em pesquisa de energia nuclear, produziram e acolhem sociedades altamente tecnófilas (Coreia do Sul na produção e consumo com marcas a exemplo da Samsung, Daewoo, LG…, o Brasil exporta tecnologia nas áreas de agricultura e genômica, na saúde com vacinas, além de ser um dos maiores consumidores mundiais de tecnologia).
Nos anos 1980, ambos se reestruturaram política e economicamente, ao sabor da globalização pós-Consenso de Washington (1990) reescalonaram a produção, redefiniram políticas educacionais (lá, altos investimentos com aporte tecnológico; aqui, expansão do ensino básico), elegeram na década passada a primeira mulher presidente da República, mulheres que foram afastadas do cargo acusadas de cometerem ilegalidades, e sofrem atualmente a Coreia do sul e o Brasil os efeitos da crise política deflagrada em 2013: lá, ações contra a corrupção; aqui, as grandes marchas “contra tudo”.
Os comentários sociais dos filmes por meio da mise-en-scene constitutiva de sua impactante figuração geral, ora descrevendo condições incrivelmente adversas a que seres humanos são submetidos numa sociedade de abundância, mas para segmentos privilegiados (“Parasita”); ora indicando uma simbólica mobilização de elites para dissolver nas pessoas quaisquer resquícios de humanidade (“Bacurau”), excitam ao arrebatamento catártico certas regiões da alma do público. E operam a confirmação da arte enquanto método analítico de nosso discernimento frente a imperativos moralizantes dos pactos sociais e enquanto força reveladora dos anseios subjetivos dos indivíduos na estruturação da consciência de si.
Os dois filmes (o do diretor sul-coreano Bong Joon-ho e o do brasileiro Kleber Mendonça Filho) esbanjam o realismo naturalista de uma paisagem existencial humana planejadamente crua e conflitada.
Realidade possuída pela violência potencial que as desigualdades engendram, marcada por exclusão social e vitalizada por impulsos criativos que a trama racional da vida encontra para se impor, fazer crescer tanto a submissão quanto a revolta, e se multiplicar.
O que acontece é sob uma câmera inconfidente, desveladora de conflitos (situações-limites agudas como respirar veneno para obter um ganho a mais de conforto) que nos provocam a pensar sobre o significado e a legitimidade de valores que cultivamos sob determinada ordem social.
A câmera inaugura percepções sensíveis, encontra gradações emotivas inéditas em nossa escala emocional, e isso vem com um jogo poético de contrastes e espelhamentos no atrito entre a realidade imaginária que propõe - com suas mobilidade e sensibilidade para descobrir e inventar ângulos especiais - e a realidade histórica convertida em cenografia que o olho mecânico captura e recorta.
Além disso, há uma distribuição nas imagens de cargas poéticas (nuances de luz e sombra, quadros do interior e exterior dos ambientes e da mentalidade das personagens, vozes e silêncios) que se encadeiam para fortalecer a ideia de originalidade à narrativa, ideia totalmente conquistada.
Em “Parasita”, a ênfase no delineamento temático é a supressão de códigos morais para viabilizar a sobrevivência da família nuclear.
Em “Bacurau”, temos a supressão de códigos morais para viabilizar a destruição de uma comunidade que se articula como uma família estendida.
A caligrafia das duas obras é de alta legibilidade, assim como os roteiros. Esses nos conduzem a patamares imaginativos imantados por emoções que oscilam entre compaixão, júbilo e rejeição. Há uma oceânica sede de vida das personagens caracteriza a resistência como vontade de poder. A decisão, procedimento da consciência a partir do julgamento, emerge enquanto singularidade universal da razão para legitimar o humano perante os dilemas que a ética apresenta frente à sobrevivência.
As metáforas orgânicas que nomeiam as obras também são pontos de convergência. O parasita remete à exploração. Mas quem verdadeiramente parasita quem na sociedade enfocada? O bacurau funciona como um símbolo de coragem, é pássaro reativo, não agride, mas reage com agressividade às provocações.
“Parasita”, na metáfora orgânica, trabalha o espectro sensorial com foco na percepção olfativa. Em “O cheiro do ralo”, do diretor Heitor Dhalia, “o vago odor adocicado da podridão”, na imagem clássica do romancista Robert Musil, o fedor rima com o interior do personagem que parasita seus clientes pauperizados.
No filme de Bong Joon-ho, o fedor é índice e sintoma da miséria subjacente à feérica metrópole onde o drama com momentos de comédia e suspense acontece. A geometria cênica - e aí “Paraista” dialoga mais com “Roma”, vencedor do Oscar no ano passado dirigido pelo mexicano Alfonso Cuarón, - se apoia na estética arquitetônica moderna como vetor da ocidentalização de costumes que impregna a contemporaneidade das megalópoles. Ao término, “Parasita”, com seu paroxismo de violência explícita, como acontece em “Bacurau”, deixa em nosso céu da boca “o sabor do pão sobre o qual se derramou perfume”.

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